Yasmin Brunet acusa sucesso de rappers negros a “satanismo”

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Yasmin Brunet modelo brasileira e atual esposa do surfista Gabriel Medina, conta com 2.7 milhões de seguidores nas redes sociais, vem acumulando diversas polêmicas envolvendo a família do marido. Nesta última segunda-feira (15), ela utilizou as redes sociais para fazer diversas ofensas contra os rappers Travis Scott, Drake e Lil Nas X.

Nos stories publicados pela modelo, Brunet justifica as nove mortes que ocorreram no festival Astroworld, durante o show do rapper Travis Scott, ao fato dele ser “satanista”.

Yasmin Brunet acusa sucesso de rappers negros a “satanismo” (Foto: Reprodução/ Instagram @yasminbrunet)
Yasmin Brunet acusa sucesso de rappers negros a “satanismo” (Foto: Reprodução/ Instagram @yasminbrunet)

“Cuidado com as músicas que vocês ouvem, já falei isso mil vezes e não é brincadeira. As mortes nesse show não foram por acaso. Tanto que foi comemorado em um stri club” publicou ela, com uma notícia que Drake e Travis saíram para uma boate de strip depois do show.

Yasmin Brunet acusa  sucesso de rappers negros a “satanismo” (Foto: Reprodução/ Instagram @yasminbrunet)
Yasmin Brunet acusa sucesso de rappers negros a “satanismo” (Foto: Reprodução/ Instagram @yasminbrunet)

Nas publicações ela compara a estrutura do show de Travis Scott a passagens bíblicas relacionados ao inferno e a satã. Dizendo para as pessoas ficarem espertas com o conteúdo das músicas e relacionando o sucesso do rapper ao satanismo. Tati Nefertari, universitária e criadora de conteúdo sobre questões sociais, educacionais e raciais, pontua que existe um apagamento racista do talento e dos feitos de pessoas negras em toda a história da humanidade quando estas conseguem alcançar grandes feitos.

Yasmin Brunet acusa de sucesso de rappers negros a “satanismo” (Foto: Reprodução/ Instagram @yasminbrunet)
Yasmin Brunet acusa de sucesso de rappers negros a “satanismo” (Foto: Reprodução/ Instagram @yasminbrunet)

“O racismo leva as pessoas a não reconhecer que celebridades e artistas negros são talentosos e que fazem coisas maravilhosas, que fazem sucesso. Acontece muito quando ignoram toda a produção e talento de artistas e celebridades negras e atribuem o sucesso a elementos satânicos e illuminatis”, explica Tati.

O impacto cultural dessas celebridades na vida de jovens negros é algo notável. A revista GQ, elegeu Lil Nas X como o “Homem do Ano” na edição deste ano. O artista negro, gay e afeminado é alvo de diversos boicotes em rádios e nas redes sociais. “Lil Nas X enfrenta ataques homofóbicos por ser quem é, defender e cantar o que acredita, além de pautar a negritude do Country e resgatar a história apagada dos cowboys negros, trazendo grande representatividade principalmente para a população LGBTQIA+” pontua, Tati Nefertari.

Não é a primeira vez que pessoas fazem ligação entre celebridades negras, norte-americanas, com satanismo ou cultos obscuros. Até mesmo o casal do pop, astros do pop, Beyoncé e Jay-z, foram acusados de serem parte de um culto illuminati. Para rebater os comentários, a cantora respondeu escrevendo a música "Formation", em oposição as falácias e atribuindo seu sucesso e sua fortuna ao seu esforço e talento.

As falas sobre ocultismo como justificativa de grandes feitos pela população negra, vão desde a criação das pirâmides, passando pelos conhecimentos medicinais de povos africanos durante o período da escravidão até o sucesso de pessoas negras em diversas áreas, todos esses acontecimentos sempre foram atrelados a eventos sobrenaturais e malignos.

Yasmin Brunet acusa de sucesso de rappers negros a “satanismo” (Foto: Reprodução/ Instagram @yasminbrunet)
Yasmin Brunet acusa de sucesso de rappers negros a “satanismo” (Foto: Reprodução/ Instagram @yasminbrunet)

Victor Prado, universitário e pesquisador, destaca que o feito de pessoas africanas sempre foram associados ao misticismo, no intuito de inferiorizar seus feitos. “Assim como toda a historicidade da humanidade, a visão ocidentalizada dos acontecimentos é precursora do preconceito racial ao povo negro, mas também de tudo o que por esse povo foi construído” explicou.

História do Hip Hop e do Rap

O Rap é um estilo musical que surgiu na Jamaica em 1960, mas foi quando chegou nos EUA que se tornou extremamente popular. Seu significado mais claro é Rhythm And Poetry, que significa Ritmo e Poesia. Em sua origem, as letras estavam ligadas a denúncia, revolta, resistência e vivências da população negra.

Enquanto o Hip Hop surgiu em 11 de agosto de 1973, em uma festa na Sedgwick Avenue, no Bronx, Nova York. Meninas e meninos, negros e latinos, residentes das moradias sociais curtiam a festa, onde o DJ Kool Herc criou o som break (quebra), que nada mais é que o rompimento em um trecho da música da seleção rítmica ao girar os dois discos idênticos na mesa de mixagem junto as rimas improvisadas.

Diferente do Rap, o Hip Hop é um movimento cultural que engloba muito mais do que apenas o estilo musical, agrega DJs, MCs (mestre de cerimônia), breaking, graffiti e rap. Atualmente o movimento influencia a moda, a forma de consumo e diversos grupos, como: unhas acrígel, tranças africanas, tênis de marca, marcas de bebidas alcóolicas, correntes e dentes de ouro e outros.

Jovens das periferias brasileiras, tem como influência nomes como Travis Scott, Drake e outros rappers internacionais e nacionais. Jun Alcântara é músico e produtor musical. “O Hip Hop é o principal referencial da juventude negra no mundo, em todas as suas facetas. Do estilo mais politizado ao mais festeiro, é a cultura pop do universo da negritude. Não dita, mas influencia e cria representações que jovens negros no mundo inteiro se identificam.”

Atualmente vemos um leque maior de composições e temas presentes no estilo musical. Como o Rap ostentação, que expõe e vanglória conquistas financeiras, luxos e uma autoafirmação do sucesso dos músicos, love song, com tom romântico, que envolvem conflitos a partir de relacionamentos, paixões e sexo.

Essa ascensão de negros que vem do sucesso de suas carreiras musicais causou e ainda causa aversão. Tanto nos EUA, quanto no Brasil, artistas são excluídos, limitados pelo tom de pele e continuam a receber represálias. “Muitos artistas brancos são criticados por falarem de drogas, armas e sexo, no entanto isso não recai como uma pecha ligada à sua etnia, tampouco faz com que sofram consequências reais em suas carreiras. No caso de artistas negros, além de criticados, geralmente sofrem com boicotes (velados ou não), perseguição pública e institucional”, expõe Jun.

Renata Teodoro, pesquisadora e universitária, destaca que o Rap foi criado como uma ferramenta contra o racismo. “Ele foi criado para ser o fio condutor da informação e o povo negro periférico. Hoje existem diversos outros meios que ligam esses dois pontos, mas por muito tempo não ocorreu. Foi através do Hip Hop que muitos aceitaram seus corpos, cabelos e aceitaram quem eles são”, argumenta.

Ódio nas redes sociais

Diversas pessoas e celebridades negras, indígenas e asiáticas vêm sendo alvos de ofensas racistas nas redes sociais. De crianças pequenas, como os filhos adotivos de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank a um dos maiores nomes da música brasileira, a cantora Ludmilla.

Em 2018, depois de ser escolhida como a personagem da série Titãs da DC Comics, Estelar, a atriz Anna Diop desativou os comentários das suas redes, devido ao alto número de comentários racistas. Aconteceu o mesmo com a cantora Karol Conká, mesmo depois de meses do fim do reality BBB e o pedido de desculpas que ela fez, ela ainda limita os comentários de suas redes sociais por causa das ofensas e ameaças que sofre e sua família.

Levi Kaique, palestrante e ciberativista, reflete que muitas das ofensas partem do imaginário social, onde, na maioria das vezes, pessoas negras não são vistas. “Elas estão se tornando referências musicais. Elas estão assumindo essa narrativa, não uma pessoa branca imaginando como seria elas lá”, destaca.

Levi ainda pontua que medidas devem ser tomadas para evitar discursos onde comentários racistas sejam divulgados. “As próprias plataformas deveriam se responsabilizar pelo fim da propagação desses discursos, que associam a nossa existência a coisas negativas. As marcas também não se associarem a pessoas que tem um discurso racista", conclui.

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