Y: The Last Man impressiona com três primeiros episódios apocalípticos

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Há alguns quadrinhos cuja jornada no mundo multimídia os conferiu o adjetivo de "inadaptável," coisas como Sandman ou Watchmen. Y: The Last Man, obra de Brian K. Vaughn e Pia Guerra para o selo Vertigo da DC Comics, é um deles. Imaginando um mundo no qual todos os homens com cromossomo Y (exceto, como deixa claro o título, um) morrem, a história traz uma visão única de uma Terra pós-apocalíptica, conflitos específicos e dinâmicas únicas ao apresentar uma sociedade em colapso diferente.


Os três primeiros episódios da série de Y: The Last Man chegam ao Star+ nesta segunda-feira (13) e a história continua semanalmente depois, trazendo uma equipe majoritariamente feminina - incluindo a showrunner Eliza Clark como roteirista, diretoras para todos os episódios, diretoras de fotografia, figurinistas e mais. O fruto dessa abordagem é visto imediatamente. A produção está repleta de personagens fascinantes; mulheres complexas com diferentes pontos de vista e histórias de vida, personalidades distintas e interações significativas.


Essa mesma qualidade, porém, acaba sendo uma faca de dois gumes. Mas vamos dar um passo para trás.


Se passando nos dias atuais, Y: The Last Man reflete a realidade. Os Estados Unidos são governados por uma figura Bush-iana, progressistas enxergam na internet um discurso de ódio perigoso e letal, conservadores se preocupam com a cultura do cancelamento e seu efeito em jovens masculinos. Então vem o evento, e todos os homens do planeta vomitam sangue e caem mortos no chão, deixando as sobreviventes como responsáveis pelo mundo sem a enorme maioria dos cientistas, pilotos de avião, soldados, políticos e engenheiros. Os problemas são inúmeros. De desastres aéreos a represas parando de funcionar, não demora muito para os sistemas entrarem em colapso.


No meio deste caos está Yorick Brown (Ben Schnetzer), um mágico cuja conta bancária quebrada só é superada pelo seu coração despedaçado depois de ser rejeitado pela namorada na hora do pedido de casamento. Ele precisa pedir dinheiro à irmã Hero (Olivia Thirlby) para comprar queijo, mas seu queijo-quente não é suficiente para convencer a amada. Por alguma razão, ele e seu macaco de estimação são os únicos seres vivos com cromossomo Y a sobreviver este apocalipse, tornando-o uma figura de muito interesse para as mulheres, alguém valioso para, inclusive, ser usado em trocas e barganhas. Para complicar, sua mãe - Jennifer Brown (Diane Lane) - acabou de virar a presidente por ser a mais alta na cadeia de comando do restante do governo americano.


O roteiro de Y sabiamente explora essa tensão de maneira política. Jennifer é democrata, o presidente era republicano. A filha e esposa do falecido político, naturalmente, consideram injusto dar o poder para alguém cujas visões são opostas às de seu antigo comandante nacional. Imagine se descobrirem quem é o último homem sobrevivente? Basta abrir seu WhatsApp para saber da capacidade humana de acreditar em teorias da conspiração quando elas, supostamente, revelam as maldades dos adversários políticos. 


Os capítulos iniciais focam bastante nisso. O primeiro estabelece suas vidas pré-apocalipse, o segundo constrói a dinâmica de poder do novo EUA ao longo de semanas e ambos funcionam bem, cumprindo suas funções com qualidade e sem cair em muitos dos buracos da TV modera, como roteiros desnecessariamente prolongados graças à cenas sem propósito ou flashbacks constantes. É no terceiro episódio, todavia, quando Y: The Last Man junta suas partes e mostra o fruto do seu potencial.


Jennifer envia a misteriosa Agente 355 (Ashley Romans) para encontrar Yorick e Hero em Nova York. Ele está fugindo e se escondendo com o macaquinho Ampersand, enquanto ela lida com a nova realidade junto de seus conhecidos, incluindo o homem trans Sam Brown (Elliot Fletcher) - a série deixa claro que, por não terem o cromossomo Y, estes sobreviveram - e a esposa do seu amante pré-apocalipse. Em termos de atuação e escrita, Romans e sua personagem são o maior destaque da produção, misturando humor, sagacidade, carisma e rigidez para criar uma figura fascinante. A espiã eventualmente encontra o último homem e o traz para Washington.


355, eventualmente, se torna a escolta de Yorick quando as republicanas começam a tentar tirar Jennifer do poder e suspeitar de uma presença masculina na capital norte-americana. A conclusão do terceiro episódio sugere revelações sombrias sobre sua disposição de servir à nova presidente e será fascinante vê-la ao lado do homem em questão. Será fascinante ver os dois cruzando esses Estados Unidos dizimado e tenso.


Também precisamos ver se Y: The Last Man elevará seu fim de mundo ao nível do resto do roteiro. Enquanto as personagens femininas e suas interações são profundas e maduras, o drama apocalíptico pouco explorou a ideia da ausência masculina de um ponto de visto sociológico. Sim, há republicanas vs. democratas, tradicionais vs. feministas, mas troque saias por gravatas e muitos desses confrontos permaneceriam iguais. A narrativa de sobrevivência merece chegar ao patamar estabelecido pelas mulheres que a protagonizam.


Mas no mínimo, já temos uma série pós-apocalíptica bem-desenvolvida e interessante, capaz de se destacar num gênero tão explorado e batido por conta de seu vasto elenco de mulheres atrás e na frente das câmeras.


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