Woody Allen diz que se é para ser cancelado por uma cultura, que seja esta mesma

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
·6 min de leitura
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
  • Woody Allen
    Woody Allen
    Cineasta, roteirista, escritor, ator e músico norte-americano

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mort, o mais novo alter ego de Woody Allen, está em crise. Em várias, aliás.

Na carreira --professor de cinema aposentado, ele quer ser escritor, mas se recusa a pôr no papel qualquer frase que não esteja à altura de Dostoiévski. No casamento --suspeita que a mulher, uma agente de talentos, tem um caso com o pretensioso cineasta francês que representa, vivido pelo galã Louis Garrel, e decide então acompanhar a moça numa viagem de trabalho ao festival de cinema de San Sebástian, na Espanha, para investigar. No amor --lá, é arrebatado por uma paixão platônica por uma médica que compartilha com ele o gosto por Nova York e pelo cinema europeu dos anos 1960.

Até aí, nenhuma novidade para quem conhece a obra do diretor. A diferença em "O Festival do Amor", que chega agora aos cinemas, é que os vários estágios dessa crise ganham a forma de devaneios em que Mort surge em cenas de filmes clássicos, em preto e branco.

Ele disputa a mulher com outro homem, como fazem os melhores amigos de "Jules e Jim - Uma Mulher para Dois", de Truffaut. Por mais que tente, não consegue deixar um jantar, como os convidados de "O Anjo Exterminador", de Buñuel. E até ouve as duas mulheres que ama reclamarem dele em sueco numa reencenação de uma sequência de "Persona", de Bergman.

Para alguns, Allen poderia muito bem figurar entre esses cineastas que cita. Este é o seu 49º longa-metragem, coroando uma produção que cunhou um estilo inconfundível de fazer piadas --neurótico, sarcástico, existencialista, judeu.

O diretor de 82 anos discorda que tenha um lugar entre diretores do quinhão de Bergman. Em entrevista a esta repórter, conta que não se considera à altura deles, mesmo que o cineasta sueco, com quem chegou a conviver, o enxergasse como um igual.

"Esses são mestres do cinema, inovadores de fato. Eu aspiro a isso, e tento fazer filmes que eles gostariam de ver", diz. "Não acho que um dia tenha feito um grande filme, algo comparável a 'Cidadão Kane'."

Para uma outra parte do público, no entanto, Allen deveria ser excluído desse cânone, e imediatamente. Acusações de que ele teria molestado Dylan, sua filha adotiva com Mia Farrow, no início dos anos 1990, voltaram com fôlego renovado na esteira do movimento feminista MeToo. E tiveram um impacto avassalador sobre sua carreira.

Mesmo declarado inocente em duas investigações independentes, ele viu um contrato com a Amazon ser anulado, por pouco não impedindo o lançamento de seu longa anterior, "Um Dia de Chuva em Nova York", nos Estados Unidos --a obra só estreou lá no ano passado, dois anos depois do previsto.

A editora que publicaria seu livro de memórias, "A Propósito de Nada", voltou atrás depois de protestos de funcionários da empresa. As acusações de abuso sexual foram tema de uma série documental, "Allen vs. Farrow". E houve uma lista razoável de atores famosos que afirmaram publicamente terem se arrependido de trabalhar com ele.

A ida de Allen para a Europa com "O Festival do Amor" é, dessa forma, uma reação ao seu atual status de persona non grata em Hollywood. Seu próximo longa, um suspense que segundo o diretor tem um tom próximo ao de "Ponto Final: Match Point", será filmado em Paris. Já os Estados Unidos, e portanto a sua tão amada Nova York, não estão nos seus planos por enquanto.

"Levantar o dinheiro é sempre a parte mais difícil de se fazer um filme. Então se alguém daqui disser para eu fazer um filme nos Estados Unidos, ou alguém de outro país, um oligarca russo, disser 'vou dar o dinheiro e você faz o filme onde quiser', eu provavelmente farei um filme aqui, porque tenho boas ideias para cá. Mas o dinheiro parece sempre vir de outros países, então faço filmes neles."

Questionado sobre como se sente em relação ao cancelamento, Allen diz que "adora ser um pária". "Se é para ser cancelado por uma cultura, esta é a cultura. Olhe para ela, os dois maiores partidos dos Estados Unidos são ameaças maiores para o país do que as nações com quem estivemos em guerra. A cultura é motivada pelo lucro."

A cultura hoje, aliás, parece estar longe das preocupações de Allen. Enquanto prêmio atrás de prêmio consagra filmes que lidam com questões que parecem saídas do noticiário, como o racismo ou a precarização do trabalho, seus últimos filmes soam docemente alheios aos tempos de hiperpolitização, supremacia tecnológica, crise climática.

Uma fala de Mort em "O Festival do Amor" resume isso. Reclamando do longa do tal diretor francês metido a besta, cuja moral, aclamada como revolucionária pela imprensa, é o truísmo "a guerra é o inferno", ele diz que obras que lidam com a realidade podem até ser aplaudidas, mas não lidam com as questões profundas --quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Teríamos as mesmas preocupações se tudo estivesse perfeito politicamente, ele conclui.

É uma visão ecoada por Allen. Questionado sobre o porquê de não fazer piadas com política, ele afirma sempre ter sentido que elas eram "um riso fácil, passageiro". "Não me sinto assim como um cidadão, voto e apoio políticos. Mas artisticamente queria discutir coisas que para mim são mais profundas."

Allen ainda se diz desanimado com o streaming, que ameaça substituir as salas de cinema como principal modelo de consumo de filmes. "Quando comecei a fazer cinema, era glorioso. Havia todos aqueles cineastas que cito em 'O Festival do Amor', e você queria fazer parte daquilo." Se estivesse começando agora, prossegue, "não teria tantos heróis".

Além disso, o cineasta conta ter encontrado um certo prazer na rotina pandêmica sem compromissos, que permite que ele pratique o clarinete ou se sente para escrever quando quer. "Talvez seja o caso de fazer mais um filme e ver se 50 é o suficiente."

É verdade que o pessimismo do diretor --e de tantos de seus alter egos-- não é de hoje. "Não acho que a civilização sobreviverá se continuar desse jeito. Ela está se destruindo lentamente, e destruindo o planeta", afirma nos últimos minutos de entrevista.

Talvez melhor do que encerrar com as palavras de Allen, seja usar aquelas que ele põe na boca da Mort em "O Festival do Amor", numa homenagem a "O Sétimo Selo". A vida não é vazia, diz, ela é sem sentido. E é assim para todos. Mas isso não quer dizer que ela precise ser vazia.

*

O FESTIVAL DO AMOR

Produção: EUA/Espanha/Itália, 2020

Direção: Woody Allen

Elenco: Wallace Shawn, Gina Gerson e Louis Garrel

Classificação: 12 anos

Quando: estreia no dia 6/1, nos cinemas; sessões de pré-estreia a partir de 31/12

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos