Werner Herzog diz que cancelamento é uma das 'idiotices do nosso tempo'

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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 16.05.2011 - Werner Herzog no jantar de abertura do Congresso Internacional de Jornalismo Cultural. (Foto: Alexandre Rezende/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 16.05.2011 - Werner Herzog no jantar de abertura do Congresso Internacional de Jornalismo Cultural. (Foto: Alexandre Rezende/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Werner Herzog diz que costuma evitar viagens. "Nunca gostei tanto assim", afirma o cineasta, o repicar dos sinos dos campanários em Veneza ao seu redor atrapalhando a conversa por videoconferência.

É uma declaração difícil de levar a sério vinda de um diretor conhecido por filmes que vão aos confins da Terra para mostrar os embates mais extremos entre o homem e a natureza. Da selva amazônica à Antártida, do campos de petróleo devastados do Kuwait a cavernas com desenhos rupestres de 30 mil anos, Herzog iria até a Marte. Bastaria Elon Musk, o fundador do SpaceX, dar a ele uma passagem, como diz ao bilionário a certa altura do documentário "Eis os Delírios do Mundo Conectado". Mas "acompanhado de uma câmera, e voltando logo", acrescenta o diretor, que completa 80 anos em setembro, nesta entrevista.

"Entendo o que você está dizendo", afirma Herzog ao ser confrontado com o paradoxo. "Mas gosto, digamos, de estar na Amazônia, de trabalhar lá, com as pessoas de lá. A viagem em si é a parte triste."

O livro que ele lança agora, "Crepúsculo do Mundo", não escapa a essa sina viajante, e começa do outro lado do mundo, em Tóquio, em 1997. Convidado a dirigir uma ópera lá, Herzog é convocado para uma audiência privada com o imperador do Japão. Recusa, alegando não ver sentido em se encontrar com o dignatário, com quem só trocaria formalidades. É um erro crasso, logo percebe. "Cá estou eu, mais de 20 anos depois, e continuo com vergonha disso." Mas então perguntam então que outro cidadão japonês ele gostaria de conhecer. "E, subitamente, eu disse: Onoda", relembra o diretor.

O Onoda em questão era Hiroo Onoda, soldado que passou quase três décadas na selva filipina acreditando que a Segunda Guerra Mundial, que terminara ainda no seu primeiro ano na ilha de Lubang, continuava em curso. Só voltou ao país natal em 1974, quando um estudante foi procurá-lo e conseguiu convencê-lo de que o conflito tinha acabado.

É um relato ficcionalizado do militar sobre aquele período, assim, que o cineasta traz em "Crepúsculo do Mundo". Em descrições que ecoam o ceticismo das narrações em off de seus documentários, Herzog narra o desafio de manter os equipamentos funcionando em meio à "putrefação na selva, a umidade que tudo decompõe" e "fumegante indiferença da natureza"; a habilidade cada vez mais esmerada de se camuflar entre as folhagens; a solidão à medida que os companheiros do oficial na missão desertavam ou morriam.

Herzog conta ter sentido uma conexão imediata com Onoda ao conhecê-lo. Os dois tinham tido a experiência de viver na floresta sob grande pressão, embora o diretor "menos que ele, que lutava numa guerra" --quem já ouviu falar do caos das filmagens de "Fitzcarraldo" na Amazônia peruana, que envolveu arrastar um navio de 300 toneladas morro acima e uma oferta dos indígenas de assassinar o ator principal, Klaus Kinski, talvez conteste a afirmação.

Mais importante, Herzog e Onoda também compartilhavam a crença de que, no fundo, a realidade é uma ficção que cada um escreve à sua maneira, segundo a cultura em que se vive.

No caso de Onoda, essa ficcionalização do mundo ao redor é bastante literal. Toda vez que uma situação traz um indício que contraria a ideia de que a guerra segue em curso, ele cria uma narrativa para adequá-la à sua crença. Desse modo, ao se deparar com um jornal na floresta, diz aos seus companheiros que ele fora falsificado e plantado ali pelo serviço de inteligência americano. Afinal, "à exceção da primeira página, quase a metade da superfície do jornal compõe-se de propaganda" e "ninguém jamais vai comprar todas essas mercadorias", raciocina. Os tantos bombardeiros que voam sobre a sua cabeça ao longo daqueles anos, ele calcula, apontam a movimentação do front rumo ao oeste. Os aviões atuavam, na realidade, nas guerras da Coreia e do Vietnã.

Num certo sentido, Onoda lembra um tipo frequente na era da chamada pós-verdade, em que fatos e notícias que romperiam a coesão de determinados posicionamentos políticos são simplesmente descartadas. Mas isso não tornaria contar essa história, em especial da perspectiva do soldado, perigosa?

Ao responder, Herzog faz uma distinção entre os conceitos de fato e de verdade --o último, central no seu trabalho documental, marcado por liberdades em relação ao factual em nome do que o cineasta cunhou de "verdade extática".

Fatos, diz o cineasta, são importantes por ter poder normativo. "Por exemplo, quando se tem 20 milhões de caso de Covid, inauguramos novas normas, como a necessidade de uso de máscaras nos aviões." Mas a verdade, esta ninguém sabe o que é, "nem eu, nem você, nem os matemáticos, nem o papa em Roma", ele prossegue. "Fatos não criam a verdade. Se fosse assim, a lista de telefones de Manhattan seria o livro dos livros, com suas 4 milhões de entradas, cada uma delas correta", afirma Herzog. "Mas eles nos dão uma direção, sabemos para onde temos que ir. É um processo ativo."

"Crepúsculo do Mundo" não é a única incursão pela literatura que o cineasta planeja para os próximos meses. Ele agora embarca para outras cidades na Itália, onde faz leituras de poemas seus --escritos no seu idioma natal, o alemão. "Meus filmes são minha viagem, mas a escrita é a minha casa", diz ele. "Em que língua você sonha? Posso escrever um roteiro em inglês, mas não poesia."

No ano que vem, ele lança um livro de memórias com o herzoguiano, por falta de adjetivo melhor, título de "Cada um por Si e Deus contra Todos" --é o nome original de "O Enigma de Kaspar Hauser". Não será uma autobiografia, ele alerta, mas sim um conjunto de fragmentos sobre as inspirações por trás de sua obra. Enquanto isso, se prepara para lançar dois filmes já finalizados, sobre os quais não dá detalhes.

Se no trabalho Herzog não dá sinais de cansaço, quando questionado sobre a cultura hoje, ele soa incomodado. Lá fora, resenhas de "Crepúsculo do Mundo" apontaram uma certa glorificação de Onoda no livro, que teria deixado de mencionar que o soldado matou vários civis inocentes nos 29 anos que passou nas Filipinas. Uma crítica publicada no site da SRF, a Rádio e Televisão Suíça Alemã, afirma que o romance é demasiado masculino, assim como a obra inteira do cineasta. "Talvez seja esta a razão pela qual Herzog não fez um monumento cinematográfico para esse soldado japonês. Se Hollywood hoje toleraria um herói tão antiquado quanto Hiroo Onoda é discutível."

Questionado sobre essas críticas, Herzog primeiro defende Onoda. Ele afirma que houve, sim, mortes de civis, mas não se sabe quantas, já que o governo filipino nunca divulgou esses números. Enquanto isso, Onoda sobreviveu a mais de cem emboscadas, e testemunhou seus companheiros serem assassinados. Sobre a crítica de ausência feminina na sua obra como um todo, ele afirma que "é um homem", e que "não há nada de errado com isso". "A cultura do cancelamento é uma das idiotices do nosso tempo."

Herzog diz ainda preferir não comentar outras das muitas controvérsias que povoam as páginas dos jornais hoje, da ascensão do streaming à dominação das franquias em Hollywood --o cineasta tem participado como ator de algumas delas, como "The Mandalorian", série derivada de "Star Wars". "É preciso se desconectar dessas câmaras de eco", diz ele.

A exceção é a guerra da Ucrânia. "Sou contra todas as guerras", afirma o diretor ao narrar uma de suas primeiras memórias, quando, aos dois anos e meio, perto do fim da Segunda Guerra, viu uma cidade inteira queimar ao longe. "Ainda me lembro do amarelo, vermelho e laranja pulsando no céu." Ele, que dirigiu com André Singer um documentário sobre Gorbachev, que guiou a reabertura da União Soviética nos anos 1980, diz que gostaria que o líder ainda fosse jovem, para encarar estes tempos.

Mas ao final, Herzog parece mais interessado nas grandes questões da humanidade. Mesmo que, ele garante, nada do que faz seja extraordinário. "Sou normal. Todo homem adulto deveria mover um navio morro acima uma vez na vida."

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