Após um ano no Brasil, app de carona do Waze supera medo e conquista usuários fiéis

Foto: Getty

Em agosto de 2018, estreava no Brasil o Carpool, serviço do aplicativo Waze que conecta motoristas com bancos vazios no carro a pessoas em busca de uma carona para ir ou voltar do trabalho. Um ano depois, a plataforma já tem uma comunidade engajada de usuários no País.

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O Waze não revela o número exato de usuários do Carpool no Brasil, mas diz que o aplicativo estreou com 125 mil cadastros no primeiro mês. De janeiro a abril deste ano, a base de usuários cresceu 165% - muitos deles formam círculos de amizade fora do app e viram “embaixadores” da plataforma.

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Mais recentemente, uma forte campanha de marketing começou a estampar o serviço de caronas remuneradas em pontos movimentados da cidade de São Paulo, como a avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona oeste, um dos trechos de maior congestionamento da capital paulista em horário de pico.

O Waze faz questão de diferenciar o Carpool de outros serviços de transporte por aplicativo, como o Uber, em que o motorista recebe uma remuneração pelo transporte de passageiros e pode fazer quantas corridas quiser e a qualquer hora.

No Carpool, o sistema é diferente: o motorista não lucra com a corrida, mas recebe o equivalente a metade do que ele gastaria com combustível para aquele trajeto, calculado pelo app. O passageiro "racha" a conta da gasolina por meio de cartão de crédito, e o condutor só recebe uma vez por mês.

Além disso, motorista e passageiro precisam definir no aplicativo uma rota semelhante, de modo que o algoritmo possa unir pessoas que estão indo para a mesma região. Só são permitidas duas caronas por dia, preferencialmente de ida e volta do trabalho, e cada viagem precisa ser programada com antecedência.

Mesmo sem lucrar, alguns motoristas de Carpool comemoram a economia. O engenheiro eletricista André Luis Oda, de 36 anos, que ganhou o título de “embaixador” do app, por exemplo, diz que já chegou a economizar R$ 650 com combustível em um mês graças ao aplicativo. Ele já ofereceu mais de 480 caronas.

Oda conta que aderiu ao Carpool com a intenção de reduzir o número de carros vazios atrapalhando o trânsito. "Eu ficava parado no trânsito, olhava para o lado e via um carro vazio, com só uma pessoa dentro, olhava para o outro e via um carro com só uma pessoa dentro, no meu carro a mesma coisa…", diz.

O relato combina com o de muitas outras pessoas que também aderiram ao projeto do Waze sem medo de dividir o carro com pessoas desconhecidas, e que hoje fazem parte de círculos sociais formados por "caroneiros".

Muitos usuários que se conhecem pelo Carpool chegam a criar grupos no WhatsApp para marcar caronas entre si. Alguns se tornam amigos e convivem além dos trajetos diários de ida e volta do trabalho. Outros conseguem oportunidade de emprego.

Foi o caso do programador Vinícius Campos, de 24 anos. Ele começou a usar o Carpool logo após o lançamento da plataforma no Brasil e, após algumas semanas, uma das pessoas que pegavam carona em seu carro lhe fez uma oferta de emprego.

"Ele me perguntou o que eu fazia, e disse que na empresa dele estavam precisando de um estagiário (eu estava estagiando na época) para fazer algo parecido. Achei a ideia interessante e nós começamos a conversar sobre isso. Fiz duas entrevistas com outras pessoas da empresa dele e por fim resolveram me contratar", conta Vinícius.

O diretor de riscos Vitor Chiamente, de 34 anos, que contratou Vinícius, conta que, depois desse caso, passou a aproveitar o Carpool para "sondar" possíveis novas contratações para a sua empresa. "É muito legal conversar com profissionais de diversas áreas, pois sempre coletamos informações interessantes pro dia a dia", diz. "É quase como se tivesse um Conselho gratuito e bastante heterogêneo."

Segurança

Todos os usuários ouvidos pela reportagem do Yahoo! Finanças admitem um receio inicial de dividir o carro com "estranhos", e muitas pessoas ainda evitam trocar o Uber, o carro próprio ou o transporte público pelo app de carona por este mesmo motivo.

Segundo Douglas Tokuno, diretor do Waze Carpool na América Latina, a empresa nunca recebeu qualquer denúncia de crime grave entre motoristas e passageiros do aplicativo, como assalto, sequestro ou violência. Os casos mais delicados são os de usuários inconvenientes.

"O pior que acontece são pessoas que, por exemplo, veem uma menina bonita, tentam oferecer [carona] e ficam no chat falando 'aceita, aceita'. Meio que um assédio. Mas é online. A gente nunca ouviu ou teve registro de casos de violência", afirma Tokuno.

A assessoria de imprensa do Waze também ressalta que o usuário vítima desse assédio virtual pode denunciar um contato indesejado e, após análise do caso, o perseguidor pode ser bloqueado e excluído da plataforma.

Além disso, cabe ao próprio usuário estabelecer seus parâmetros de segurança. É possível optar por compartilhar carona apenas com perfis com foto no aplicativo, por exemplo. Também é possível bloquear o contato com usuários que não fornecem um link para suas redes sociais ou informam o nome da empresa onde trabalham.

Privacidade

O Waze é um aplicativo grátis desenvolvido em Israel e controlado pelo Google. Com exceção do que se paga ao motorista, o Carpool também é virtualmente gratuito: o Waze não cobra taxas nem fica com uma parte do valor das caronas.

O modelo de negócios pode levantar a dúvida: o que o Waze tem a ganhar com o Carpool? O aplicativo original, de monitoramento de trânsito, mostra propagandas, mas o app de caronas, feito apenas para os passageiros, não tem anúncios.

Para muita gente, não existe almoço grátis e, se o produto não tem custo, o produto é você. Outros serviços do Google, como o Gmail, o armazenamento em nuvem, o navegador Chrome, o YouTube e muitos outros apps, por exemplo, têm versões sem custo, mas que, em troca, coletam um grande volume de dados pessoais dos usuários.

Com base nesses dados, o Google vende a anunciantes um direcionamento de alta precisão que mostra propagandas específicas a usuários específicos, com base naquilo que o algoritmo considera mais relevantes a cada pessoa, aumentando a probabilidade de eficiência do peça publicitária.

Essa coleta incessante de dados com base no uso de apps gratuitos tem feito do Google o "vilão" no debate sobre a privacidade de usuários na internet, rendendo à gigante do Vale do Silício multas milionárias em todo o mundo.

A mais recente, de US$ 170 milhões, foi aplicada pela Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC, na sigla em inglês), que acusou o Google de coletar dados de crianças através do YouTube para exibir a elas anúncios direcionados.

De acordo com Tokuno, porém, o Waze Carpool não se encaixa nesse esquema de coleta de dados para servir anúncios do Google. "Todos os dados que a gente coleta são para uso do Carpool. Por exemplo: a gente não sabe a faixa etária dos usuários porque a gente não coleta isso, a gente não precisa. Mas gênero a gente sabe porque a gente usa [esse dado] no filtro", diz.

Segundo Tokuno, o Carpool é uma aposta de médio-longo prazo dentro do Waze, e graças ao suporte financeiro de uma empresa gigante como o Google, fica mais fácil bancar um projeto sem retorno financeiro imediato, pelo menos num primeiro momento.

"A gente não tem nenhum plano de usar dados para anúncios ou qualquer outro tipo de uso fora do Carpool", afirma o executivo. "Nosso plano hoje é, em algum momento, quando a gente tiver uma massa crítica [de usuários], trabalhar uma taxa de administração, como um marketplace."

Concorrência

Atualmente, o Waze Carpool está praticamente sozinho no mercado de caronas remuneradas. O Moovit, aplicativo que monitora o transporte público, chegou a lançar um serviço do tipo em São Paulo em 2017, quase um ano antes do Waze, mas já saiu de cena.

O que o Moovit não tinha e o Waze tem de sobra é capital, graças ao Google. Segundo Tokuno, é preciso investir muito dinheiro para aumentar a densidade de usuários e, só depois disso, adotar um modelo de negócios sustentável. Mas nem toda empresa está disposta a investir tanto em um projeto sem retorno financeiro imediato.

O mais próximo de um concorrente no Brasil, se descontados serviços como o Uber (que nasceu com a proposta de ser um marketplace de caronas, mas acabou virando um sucessor do táxi), são o Bynd, um aplicativo de caronas feito especificamente para colegas de trabalho, e o BlaBlaCar, destinado apenas a viagens intermunicipais.

Os modelos de negócios do Bynd e do BlaBlaCar, porém, são diferentes. O primeiro oferece o aplicativo só para clientes corporativos, de modo que as empresas possam sugerir aos funcionários o compartilhamento de caronas. O segundo só funciona para viagens entre cidades, e não dentro de centros urbanos.

O Waze também faz campanhas especificamente voltadas para clientes corporativos, mas o foco é no usuário comum, tirando proveito de uma base de usuários fiel e já conquistada por meio do aplicativo de monitoramento de trânsito.

"O principal desafio é construir densidade, e é muito difícil construir densidade do zero", explica Tokuno. Para “caroneiro” André Luis Oda, o reconhecimento da empresa por trás do Carpool de fato fez toda a diferença. "A marca Waze dá credibilidade. Não sei, se fosse outro aplicativo, se eu arriscaria."