Walderez de Barros rejeita teatro online e diz que essa é uma arte presencial

LUIZ ANTÔNIO ARAUJO
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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 08.09.2016:  Walderez de Barros. (Foto: Bruno Poletti/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 08.09.2016: Walderez de Barros. (Foto: Bruno Poletti/Folhapress)

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - Quando a pandemia fechou os teatros, no início de 2020, Walderez de Barros ensaiava um espetáculo duplo. A atriz preparava a montagem de "As Três Irmãs", de Anton Tchekhov, que seria encenada alternadamente com "A Semente da Romã", peça dentro da peça do autor russo.

Com o distanciamento social, a atriz de 80 anos conformou-se em fazer a versão online da produção, que incluía cenas de bastidores e monólogos. Já no final do ano, por sugestão da filha, estrelou a live "Tantas Palavras", com textos clássicos. Seu veredicto é severo: "Não é teatro!".

Ela, que começou no teatro universitário há exatos 60 anos, com a peça "O Balanço", criação do Centro Popular de Cultura (CPC) da Faculdade de Filosofia da USP, recebeu a primeira dose da vacina no final de fevereiro, e agora aguarda a segunda rodada de imunização e a sonhada volta aos palcos.

Afastada de filhos -ela é mãe dos também artistas Léo Lama, Kiko de Barros e Ana de Barros- e netos desde o início da pandemia, a atriz vive sozinha em sua casa no bairro Bela Vista, centro de São Paulo.

Desabituada a acompanhar seus trabalhos em TV, não se viu em duas recentes reprises da Globo: "Laços de Família" (Globo, 2000), onde viveu Ema, mãe Capitu (Giovanna Antonelli), e "Mulheres Apaixonadas" (Globo, 2003). Durante uma hora, por chamada de vídeo, ela falou sobre o momento vivido pelo Brasil, pelo teatro e pela cultura.

F5 - Parafraseando a Graúna, personagem do cartunista Henfil: "Você está vendo alguma esperança?

Walderez de Barros - Tem sido difícil. Mas sempre há um dia depois do outro. Não vai ter novo normal. Tudo que a gente está querendo é voltar à normalidade anterior, com todos os erros de uma sociedade capitalista, o país com toda essa desigualdade social, mas é para aquele lugar que a gente tem de voltar para continuar num caminho de transformação. Não quero a posição reacionária de dizer "ai, não aguento". Eu sofro, mais isso é o de menos. Estão querendo nos matar. Estão matando gente, amigos, vizinhos. Vamos ficar vivos para dar o troco.

F5 - Falta indignação no país?

Walderez de Barros - Sim. Não sei por quê. Uma das razões é o fato de a gente não poder fazer manifestação de rua. Falta liderança também. A entrevista do Lula [o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva] foi um divisor de águas. Aquilo era a palavra "liderança" de que a gente estava precisando. Não dele necessariamente. Uma das razões que a gente perdeu esse fervor é a falta de liderança. Fervor é uma palavra esquisita, mas eu gosto dela.

F5 - Como você vê os espetáculos online que proliferaram no último ano?

Walderez de Barros - Odiei com todas as forças do meu ser as pessoas estarem migrando para essa (...). Eu falava: não é teatro! (Risos) Teatro é uma arte presencial. Tem de estar lá, se não não é teatro. A peça que eu estava ensaiando era teatro. Quando a gente migrou para essa linguagem nova, era outra coisa. A gente não nomeou ainda.

F5 - Os artistas foram atingidos pela pandemia, mas também pelas restrições do incentivo à cultura. Como você vê a situação de seus colegas?

Walderez de Barros - Quando você não tem nada, o que vier é lucro, e é necessário que venha. A cultura de modo geral, mas particularmente o teatro e o cinema, já vinha num processo de destruição. Os poucos incentivos que se tinha foram sendo cortados, e foram colocados idiotas [à frente dos órgãos públicos do setor]. O que ele [o presidente Jair Bolsonaro] pensa? Que a gente tem uma Broadway aqui para interessar o turista? De repente, isso se agravou e zerou a possibilidade de se fazer teatro.

A Lei Aldir Blanc foi uma boia salva-vidas?

Dá uma contrapartida, porque o pessoal está fazendo coisas muito boas. A palavra "incentivo" tem um sabor necessário. É incentivo para que a pessoa não desmorone. Houve gente que não tinha o que comer. Para onde vai? Fazer teatro na rua? Inventar coisas? O Sesc (Serviço Social do Comércio) foi fundamental para segurar, e a Lei Aldir Blanc teve o mesmo sentido.

F5 - Da experiência sob o regime militar, o que serve de lição para a atualidade?

Walderez de Barros - São situações completamente diferentes. Como é que você vai trabalhar sabendo que está governado por um idiota como esse [Bolsonaro]? Por outro lado, a gente não está numa ditadura. Naquela época, não era só a censura: eram a tortura, mortes. Ouço falar que está pior. Não, espera lá, já vivemos numa ditadura, com todo o mal que decorria disso.

F5 - Você está no ar nas reprises das novelas "Mulheres Apaixonadas" e "Laços de Família". Qual é a reação do público?

Walderez de Barros - Sou muito desligada. Quando "Laços de Família" estava no ar, uma mocinha linda veio em minha direção no supermercado no Natal e disse: "sou garota de programa em Miami". (Na novela, Walderez vive Ema, mãe de Capitu, personagem de Giovanna Antonelli, que se prostituía.) Contou que sustentava a família no Brasil, mas todos ignoravam sua condição e que iria contar tudo naquela noite. Vi uma cena com ceia de Natal, e ela dizendo: "olha, eu sou puta". E disse que não contasse para a família, que iriam sofrer muito. Falei: "você fica aqui mais uns dias, deixa passar o Natal, pega a tua mãe e fala para ela. Desabafa, faz ela entender".

F5 - Quando tudo isso terminar, qual é a primeira coisa que você fará?

Walderez de Barros - Essa é fácil, né? Teatro! Nada substitui o teatro. Assistir a um bom espetáculo é inesquecível, e um mau espetáculo pode afastar o público. Tenho a teoria de que todos os chatos vão juntos ao teatro (risos). É uma arte coletiva. Não é só o palco que faz o teatro, a plateia também faz. Tem dias em que a plateia não se mexe. É o dia dos chatos (risos). É uma força que o teatro tem e que mexe com quem faz.