Vozes e Vultos - Crítica do Chippu

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As melhores histórias sobrenaturais correlacionam o mundo do além com a realidade de seus personagens vivos, algo que o professor Floyd Beers (F. Murray Abraham) diz ser sua filosofia logo nos primeiros minutos de Vozes e Vultos, novo drama da Netflix estrelado por Amanda Seyfried e James Norton. Com direção de Shari Springer Berman e Robert Pulcini, o filme procura traçar uma linha entre os traumas de seus protagonistas e uma esperança intocável vinda dos espíritos. O que era, entretanto, para ser uma vitória, parece apenas um prêmio de consolação.


Catherine (Seyfried) e Claire (Norton) são um casal de artistas com uma pequena filha, Franny (Ana Sophia Heger) morando em Nova York. Ela esconde sua bulimia do mundo enquanto pinta com grande talento e ele aparenta estar em ascensão, conquistando um emprego para ensinar arte numa universidade de primeira e finalmente realizando o sonho de deixar a cidade grande para criar uma nova vida para sua família, realizando, ao mesmo tempo, suas ambições profissionais.


As coisas começam a dar errado quando o casal se muda para uma casa misteriosa em sua nova cidade, repleta de seguidores de um pensador místico que acreditava na presença de espíritos e energias. Claire, cético e cínico, não dá ouvidos aos pedidos de ajuda de sua esposa que é mais aberta à espiritualidade e ao sobrenatural. Assim começa a ligação narrativa que tenta dar um toque diferente ao filme, mas que se mostra incapaz de equilibrar seus diversos temas como crenças, machismo, motivação artística e relacionamentos entre marido e mulher.


Vozes e Vultos parece constantemente indeciso sobre que tipo de obra é e força conexões na história para tentar ser várias coisas ao mesmo tempo. Hora, ele parece interessado em questionar a forma como a sociedade parece valorizar mais homens ambiciosos do que mulheres que tentam fugir do padrão. Em outros momentos ele é mais semelhante a um drama de divórcio sobre os sinais de uma relação tóxica e fadada ao fim. Há ainda um clima de terror, com vultos aparecendo no fundo de cenas, toques de susto ou tentativas de ser um filme de casa mal-assombrada.


A indecisão custa caro. Por exemplo, o relacionamento entre Cat e Claire nunca nos convence ou cativa o suficiente para que seu fim, marcado por brigas e traições injustificáveis ou mal explicadas, seja tão trágico quanto o roteiro acha que é. Há também uma espécie de argumento de que a culpa pela maldade do esposo é sua resistência ao acreditar no espiritual, e que o ceticismo dos homens é uma das grandes causas por trás da violência histórica com mulheres, o que significa que desde o primeiro minuto, Claire não é tratado como um personagem tridimensional, desperdiçando o talento de Norton, que consegue adicionar certo charme à sua atuação mesmo com um texto tão fraco.


Seyfried também é talentosa. Recentemente indicada ao Oscar, ela eleva Catherine acima do tratamento de vítima incompetente que o filme insiste em apresentar. Quando ela sai pela cidade para conhecer a cultura local, ou cria relacionamentos com outras mulheres da área, a atriz é capaz de apresentar uma leveza bem-vinda e que contrasta com a história fria ao seu redor.


Mas nem ela, nem outros talentos do elenco como Abraham e Rhea Seehorn (Better Call Saul), são capazes de salvar Vozes e Vultos. O último prego é batido com o final do filme, que pune Catherine de maneira dolorosa e chocante e recompensa Claire por toda sua brutalidade, ao mesmo tempo em que apresenta a pós-vida como uma vitória para a protagonista, indicando que espíritos femininos se ajudam mesmo após a morte. Mas são esses mesmos espíritos que falham em ajudar a personagem de Seyfried ou Vozes e Vultos como um todo, terminando com a aparente mensagem de que o que acontece com os vivos não importa.


Nota: 1/5