Pare de esperar que as coisas vão "voltar ao normal" pós-coronavírus

Marcela De Mingo
·7 minuto de leitura
Frustrated young lady sitting on sofa, cuddling pillow, looking away at window. Lost in thoughts unhappy stressed millennial woman regretting of wrong decision, spending time alone in living room.
O momento é de lidar com o que você pode controlar (Foto: Getty Creative)

"Quando as coisas voltarem ao normal, a gente se encontra". "Vamos esperar as coisas voltarem ao normal e a gente marca". "Espera tudo voltar ao normal e a gente viaja". "Não vejo a hora das coisas voltarem ao normal". Você deve ter ouvido ou falado uma dessas frases nos últimos sete meses. Porém, a pandemia do coronavírus veio nos mostrar que muitas coisas mudaram, algumas delas permanentemente, e esperar que tudo “volte ao normal” não parece ser algo tão realista assim.

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O cansaço da quarentena deixou de ser uma piada da internet para virar um sentimento real e comum a todo mundo que voluntariamente ficou em casa por muito tempo. O estresse com a insegurança do futuro e, principalmente, a sensação de burnout, somado ao desejo de passar um tempo longe da cidade são alguns pontos que, apesar de não serem todos positivos, já são prova de que, infelizmente, as coisas não vão "voltar ao normal".

Na live feita pelo Instagram do Yahoo Vida e Estilo sobre o novo normal, a consteladora e terapeuta Alessandra Pais explica como esperar por um pós-pandemia ou que tudo volte ao que era antes simplesmente não faz sentido. Já estamos vivendo uma nova realidade, com demandas diferentes, e a nossa função é nos adaptarmos ao que vivemos hoje - ao momento presente e o que ele pede.

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Fato é: até que a vacina de coronavírus seja oficialmente aprovada e distribuída para a população (o que pode acontecer somente no ano que vem), é difícil pensarmos em retomar a vida tal como era antes - ou sair de toda essa experiência sem repensar valores e prioridades, buscando compreender o que, de fato é importante.

Uma simples ida ao shopping deixou de ser o entretenimento do paulistano por exemplo, para ser uma viagem de necessidade. Ao entrar, seguranças medem a sua temperatura, todos usam máscaras e o ideal é que você entre, faça o que precisa fazer e volte para a casa - dar aquela "olhadinha" nas lojas, algo tão costumeiro para o brasileiro, agora só vale se a loja em questão for online.

Por mais difícil que seja, é preciso também considerarmos a questão socioeconômica. O mês de setembro bateu recordes quando se fala em desemprego: 14%, com mais de 13 milhões de brasileiros sem ocupação formal. Quando se fala em empresas, o número é ainda mais assustador: mais de 700 mil micro e pequenas empresas fecharam as portas desde o começo da pandemia, segundo o Sebrae.

O que antes se considerava impossível para muitos setores virou norma também. O home office deixou de ser um desejo distante para se tornar uma dura realidade - e ao mesmo tempo que muita gente provou por A + B que é possível ser produtivo trabalhando de casa (considerando tudo o que acontece no Brasil e no mundo), tantas outras pessoas perceberam e passaram a valorizar ainda mais o local de trabalho e os seus colegas de profissão. O estudo à distância também ganhou novos patamares - com muitas escolas correndo contra o tempo para se adaptarem à era digital.

Aliás, falando em era digital, vimos uma ressignificação do papel dos influenciadores, o boom do conteúdo nas redes sociais, a necessidade de posicionamento político e segundo causas sociais na internet. Vimos crescer a valorização do conforto no lar, a exacerbação dos privilégios e uma busca, cada vez maior, pelo autocuidado.

Sim, considerando apenas esses pontos citados, já podemos concluir que as coisas nunca "voltarão ao normal". Mas isso não significa que elas mudaram para pior ou que o cenário futuro é pessimista. Pelo contrário.

Ferramentas de busca como o Pinterest são a prova de que a procura por um futuro otimista e mais gentil está no radar das pessoas - e isso é algo a se considerar. O mundo, por si só, já passou por inúmeras mudanças, a revolução industrial, duas Grandes Guerras, a invenção da internet… Isso sem contar pandemias como a da gripe espanhola. De fato, os momentos de luto e de desequilíbrio foram tão grandes quanto esses momentos históricos, mas, ainda assim, seguimos aqui.

A questão com o otimismo é que ele não deve beirar o utópico, mas partir para o prático. E como? Observando o contexto, é claro! Assim como explicou Alessandra, a ansiedade é fruto de uma imaginação e um medo constantes em relação ao futuro. Mas o momento presente tem demandas que precisam ser atendidas e, muitas vezes, voltar o olhar para o hoje pode parecer clichê, mas é eficiente.

Claro, devemos dar a devida atenção as nossas mentes. E se a necessidade de buscar ajuda se fizer necessária, é essencial que você o faça. Mas é uma verdade que a humanidade nunca esteve tão bem quanto agora - e isso não é otimismo cego, mas observação realista. Peter Diamandis, fundador de uma das escolas de inovação mais respeitadas do mundo, a Singularity, já explicou como vivemos a era da abundância - nunca se viu tantos recursos, tecnologia e pessoas motivadas a fazerem do mundo um lugar melhor. O otimismo já é maior que o pessimismo - talvez nós só não estamos buscando procurar por ele no nosso dia a dia.

Muitas vezes, quando esperamos que as coisas "voltem ao normal", isso significa retomar uma sensação de conforto e bem-estar. Infelizmente, a questão com o passado é que ele passa e aquela sensação já não pode ser um balizador do que é conforto hoje. Para muitas pessoas, esse foi um valor que mudou e que pode, muitas vezes, considerar também o que é conforto para os outros à sua volta. Talvez essa visão conjunta só não fosse tão clara antes. O momento, é de se adaptar e buscar o que é confortável agora.

Como buscar, então, o que é normal agora?

Alessandra explica como a melhor maneira de lidar com todas as mudanças que vem acontecendo é focar no que você consegue controlar. Se conforto, para você, é dormir mais cedo, fazer algum tipo de exercício físico ao ar livre (de máscara) ou encher a casa de plantas, faça isso.

Busque olhar para o que você pode controlar (como a sua rotina) ao invés daquilo que você não pode controlar (a disseminação do vírus). Aliás, falar em rotina é ponto chave aqui, já que ela pode ajudar tanto a controlar a ansiedade e a depressão como gerar uma estrutura saudável e uma sensação de segurança que são importantes para lidar com momentos de crise.

Fora isso, vale a pena considerar o que você quer dizer com "voltar ao normal". O que isso significa? Se for encontrar com os amigos por livre e espontânea vontade, você pode fazer a coisa mais próxima disso, que é uma ligação de vídeo, ou encontrar uma ou duas pessoas para caminhar ao ar livre.

Se é ir e vir da sua própria casa quando quiser, saiba que o isolamento social não é uma obrigação, mas uma recomendação prudente para evitar o alto contágio de COVID-19 - crie o hábito de sair para caminhar, movimentar o corpo e, principalmente, clarear a cabeça.

Se a questão é tomar uma cerveja com os amigos no bar, você pode fazer uma experiência de "boteco em casa", pedindo quitutes e cervejas que curte para degustar com quem você mora (se maior de 18 anos, claro) ou com um ou dois amigos.

Enfim, opções existem de sobra. O momento é de adaptação e, para isso, é preciso coragem de olhar as coisas como são: definitivamente diferentes do que eram antes, mas não necessariamente piores. Otimismo e a esperança são necessários para enfrentarmos um momento que, com certeza, vai passar, mas que promete, também, mudar o mundo. Basta ficar aberto para receber as mudanças e se adaptar à elas, conforme chegarem.