“Você sai e não sabe se traz o sustento para casa”: o sofrimento de trabalhadores de app

Cristiane Capuchinho
·7 minuto de leitura
Os relatos de nervoso, angústia, ansiedade e outras formas de sofrimento mental são feitos não apenas motoristas de aplicativos, mas se estendem a motoboys e entregadores de delivery
Os relatos de nervoso, angústia, ansiedade e outras formas de sofrimento mental são feitos não apenas motoristas de aplicativos, mas se estendem a motoboys e entregadores de delivery

“É muita tensão. O tempo todo prestando atenção no trânsito, em multa, em quem é o passageiro. Tem o medo de não saber onde você vai parar. Isso gera uma grande ansiedade em errar e ser assaltado, não conseguir terminar o dia. E tem a pressão porque não depende só de você para fazer as corridas. [Quando você não consegue], gera uma frustração, uma tristeza, por não conseguir fazer o dinheiro que preciso. Isso deixa você ainda mais ansioso para o dia seguinte porque tem que bater aquela meta para pagar as contas”, desabafa Carla*, que trabalha como motorista por aplicativo há um ano, desde que saiu do último emprego.

Como tantos milhares de profissionais, ela continua a sair diariamente em busca de corridas, sua única fonte de renda, apesar das restrições de circulação para controle da pandemia de Covid-19. A redução do ganho sem ajuda financeira do governo ampliou a carga mental desse grupo.

“A gente não tem tido muita viagem para fazer. Os motoristas continuaram na rua e não tem mais passageiro, e o combustível foi aumentando”, reclama Germano Weschenfelder, presidente do sindicato de motoristas por aplicativos do Rio Grande do Sul (Simtrapli-RS). “São vários motoristas desse jeito, extremamente preocupados. Você sai e não sabe se vai ter possibilidade de trazer o sustento para casa”, completa.

“É um desastre, eu trabalhava de noite levando o pessoal que está saindo. Com tudo fechado, eu não tenho mais trabalho. O telefone não chama mais [com pedidos das plataformas]. Eu ando muito nervoso”, afirma Marcelo*.

Os relatos de nervoso, angústia, ansiedade e outras formas de sofrimento mental são feitos não apenas motoristas de aplicativos, mas se estendem a motoboys e entregadores de delivery, todos considerados essenciais no dia a dia de quem pode fazer isolamento, mas sem garantia de ganhos para sua própria sobrevivência.

“Não tem um traço bioquímico, muitas vezes não tem um traço físico que vai aparecer [para deixar claro o problema de saúde mental]. Isso vem da exaustão, vem da carga psíquica, vem do número de horas de trabalho acumulado, impossibilidade de descanso, de extrema ansiedade quando você tem o tempo todo que esperar para ser chamado e este tempo de espera não é contabilizado. Há um traço ansiogênico do padrão de trabalho”, explica a psicóloga social do trabalho Flávia Uchôa de Oliveira, pesquisadora da Universidade de Cardiff.

Frustração e sofrimento

A promessa das plataformas é proporcionar uma forma rápida e autônoma de ganhar dinheiro. Basta ter uma bicicleta, uma moto ou um carro e um celular para receber os pedidos pelo aplicativo. A oferta é tão mais atraente quanto maior o número de profissionais fora do mercado de trabalho e maior a dificuldade para conseguir um emprego estável.

Em 2019, uma pesquisa do Instituto Locomotiva estimava que 3,8 milhões de brasileiros tinham como principal fonte de renda o trabalho em plataformas. Com o aumento do desemprego, no início da pandemia, a consultoria Análise Econômica calculou este grupo em 4,7 milhões de pessoas.

No princípio, muitos desses trabalhadores percebem a oportunidade de renda pelos aplicativos com satisfação. O trabalho autônomo é uma “benção”, uma forma de “sair do buraco” frente ao desemprego.

A satisfação, no entanto, não perdura: assaltos, acidentes, fadiga e a tensão perpétua criada pela incerteza sobre o amanhã pesam no cotidiano. “É latente o desgaste psicológico severo”, afirma Thiago Silva, presidente da associação de motoristas e motofretistas por aplicativos de Pernambuco (Amape).

A autonomia do princípio é pouco a pouco percebida como falta de segurança e de controle sobre seus ganhos. “Hoje em dia estou gastando muito para ganhar pouco. Eu não tenho domínio sobre o aplicativo, não posso cancelar muitas vezes [os pedidos], você corre o risco de ser bloqueado”, explica Carla*.

Ligados a uma plataforma, os entregadores e motoristas não determinam nem o preço de seu trabalho nem seus custos, se submetem aos valores propostos pelos aplicativos por necessidade, sabendo que os gastos com aumento de gasolina, manutenção do veículo ou qualquer custo adicional causado por acidente ou problema de saúde sairá do seu bolso.

Pressão leva ao extremo

O estímulo ao trabalho extenuante muitas vezes é majorado pelas plataformas que seguem uma lógica de jogo, aponta a psicóloga Flávia Uchôa de Oliveira. “Você tem o engajamento dessas pessoas em uma lógica de jogo, no que chamamos de gamificação do trabalho. A plataforma propõe ‘se você fizer mais cinco corridas, você vai ganhar uma bonificação’, ‘se você for para o bairro x, você vai ter determinada bonificação’”, exemplifica a pesquisadora.

A necessidade de sobrevivência pressiona o trabalhador a fazer cada vez mais horas e cruzar mais limites para alcançar suas metas financeiras de sobrevivência. Entre motoristas por aplicativo, relatos de longas jornadas com até 14 ou 15 horas não são excepcionais, e o mesmo acontece entre entregadores.

A pesquisa Perfil dos entregadores ciclistas de aplicativo, feita pela Aliança Bike em 2019 mostrou que o entregador de bicicleta típico trabalha de segunda a domingo, sem descanso, durante 9 ou 10 horas por dia. Tudo isso para um ganho mensal médio que não chega ao salário-mínimo, R$ 992.

A falta de descanso e a necessidade de entrega rápida os coloca em mais situações de risco e, consequentemente, a maior número de acidentes. Um estudo sobre entregadores de delivery feita pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) em julho de 2020 mostra que um terço dos entrevistados já tinha tido algum acidente e dois terços conheciam alguém que tinham se envolvido em acidentes durante o trabalho.

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O medo de acidentes é mais uma sobrecarga emocional sobre estes trabalhadores, explica a médica Silvia Maria Santiago, pesquisadora de saúde coletiva da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Em janeiro deste ano, ela coordenou, em parceria com o MPT (Ministério Público do Trabalho), a ação de saúde Delivery Seguro, direcionada a entregadores em Campinas (SP). Segundo ela, a maior preocupação dos cerca de 200 entregadores que participaram não estava relacionada ao coronavírus, mas a queixas ortopédicas e prevenção em caso de acidentes.

Durante a ação, que propunha testagem gratuita para a Covid-19, profissionais de saúde ensinaram ações básicas de primeiros socorros. Os acidentes de trânsito são a segunda causa de morte por razões externas no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. Em 2019, último ano com números disponíveis, 32,9 mil brasileiros perderam a vida em acidentes de trânsito.

"Você imagina hoje, que nós não temos leitos no país em uma cidade como Campinas ou como São Paulo, um trabalhador deste sofre um acidente de trânsito, quanto tempo ele vai ficar lá no chão até que chegue o socorro?", comenta Santiago. “Eles estão o tempo todo tensos, inseguros, alguns estão bem deprimidos.”

A experiência da primeira ação de saúde indicou a necessidade de um trabalho voltado a saúde mental desses profissionais, conta Santiago. A próxima ação de saúde prevista pelo grupo da Unicamp para abril contará com a presença de psicólogos.

Precarização e falta de direitos

Governos de diversos países estão de olho no problema da precarização do trabalho através de plataformas. A falta de direitos trabalhistas e o impacto na saúde desses profissionais, mais tarde, chega na conta do Estado que precisa dar suporte a essa população.

No Reino Unido, após ser derrotada na Justiça, a gigante Uber anunciou que vai conceder a seus motoristas a garantia de ganhos no mínimo no valor do salário-mínimo, de férias remuneradas e de aposentadoria (https://br.financas.yahoo.com/noticias/uber-com-sal%C3%A1rio-m%C3%ADnimo-f%C3%A9rias-103459798.html). Espera-se que a decisão seja a primeira e pressione outras empresas de economia compartilhada a conceder os mesmos benefícios a seus trabalhadores.

Na Espanha, após uma decisão da Suprema Corte dizer que os ciclistas que fazem entregas por aplicativo são assalariados, e não autônomos. Uma lei nacional para regulamentar a profissão está em discussão, uma das regras a que as empresas deverão se submeter é a de tornar públicas quais são os critérios usados em seus algoritmos para a distribuição de entregas e para os preços pagos

Na França, empresas de entrega, como a Just Eat, começam a contratar entregadores por períodos fixos para se encaixar nas regras de trabalho já existentes no país e ganhar na concorrência diante da crescente preocupação dos usuários com esses trabalhadores.

No Brasil, o Ministério Público do Trabalho tem se preocupado com essa categoria e iniciado diversas ações judiciais para que seja reconhecido o vínculo empregatício dos trabalhadores com as plataformas. No entanto, até o momento a guerra judicial continua pendendo para o lado das grandes empresas.

*nomes alterados para não identificar os trabalhadores