Você sabe o que é stalker? Veja dicas para se proteger na vida real e virtual

Reprodução/Instagram/Netflix

Por: Dinalva Fernandes (@dinalvaf)

Sucesso na Netflix desde que estreou no final de dezembro de 2018, a série “Você” (“You”), conta de forma perturbadora a história de Joe e Beck. Na trama, o gerente de livraria se apaixona à primeira vista pela aspirante à escritora. A partir daí, ele passa a perseguir a jovem de todas as formas, seja virtualmente ou pessoalmente. Quem tem esse tipo de comportamento é chamado de stalker (perseguidor, em tradução livre).

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É claro que a obra de ficção, baseada no livro de mesmo nome, mostra atitudes extremas, mas, mesmo em menor escala, um stalker pode prejudicar, e muito, a vida da vítima. Como foi o caso da jornalista Paula*, de 29 anos, que foi perseguida virtualmente por uma ex-ficante, que chegou a criar perfis falsos em redes sociais para manter contato com ela.

Em 2013, Paula começou a ficar com Aline* de forma tranquila. Porém, ela reparou uma mudança repentina de comportamento na garota. “Ela começou a mudar do nada e muito rápido. Percebi algo errado quando ela insistia muito em me ver e precisava falar comigo toda hora. Achei que pudesse estar insegura porque a gente não namorava nem nada”, relata.

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Paula começou a se afastar de Aline, evitando se encontrar com ela ou de responder suas mensagens. Só que para a surpresa da jornalista, Aline passou a sondar seus amigos para saber notícias dela. “E eu gelei porque nunca tinha comentando dela com meus amigos”. Ela mandava mensagens perguntando de mim, queria saber onde estava, se tinha acontecido algo porque estava demorando para responder”, revela. Paula confrontou Aline, que pediu desculpas dizendo que havia ficado preocupada pensando que algo grave havia acontecido. Paula aceitou as desculpas, ainda desconfiada.

“Comecei a reparar que ela seguia uns amigos meus no Instagram, sendo que nem os conhecia, curtia fotos e, em alguns casos, até comentava. Comecei a falar para meus amigos sobre ela e me aconselharam a bloqueá-la. Mas fui levando a situação”.

A gota d’água foi quando a jornalista foi viajar. “ Fiquei uns dois dias sem internet e, quando voltei, minha mãe veio falar comigo que uma tal de Aline entrou em contato com ela falando que eu tinha sumido. Fiquei chocada! Além de não ter essa liberdade, ela ainda deixou minha mãe preocupada. Disse que ela tinha passado dos limites, que não iria mais falar com ela e ainda sugeri que procurasse uma terapia”, conta.

Ainda segundo Paula, Aline fez um escândalo na internet e foi bloqueada. Depois disso, ela entrou no perfil do Facebook da mãe dela e tentou entrar em contato novamente com Paula. A ex continuou insistindo usando alguns perfis fake (falsos). Quando Paula percebeu, parou de aceitar estranhos em seu perfil. “Ficava com medo dela descobrir onde eu estava para me ver pessoalmente, de estar sendo seguida por ela e coisas do tipo, e deixei de postar nas redes sociais. Uma amiga falou para eu ir na delegacia fazer um Boletim de Ocorrência, mas achei que não era necessário. Depois de um tempo, ela desistiu”.

De acordo com psicóloga e psicoterapeuta Gisela Monteiro, existem várias explicações para comportamentos de perseguidores. Na série, Joe é um sociopata, o que não é o caso da maioria, mas qualquer um pode ser um stalker. “O stalker emocional acontece no campo afetivo. O que move muitas pessoas a fazer isso é a sensação de abandono. A pessoa não se conforma de ter sido deixada de lado, independentemente do motivo. Isso acontece, principalmente, com os homens que não aceitam que o outro não quer mais aquela relação. A perseguição é fruto desse inconformismo e pode ser, muitas vezes, vingança para atrapalhar a vida do outro ou para provar que estava certo”.

A psicóloga explica que toda a relação envolve insegurança, pois não tem como se relacionar tendo a certeza de o outro não vai trair ou não cumprirá com o que foi combinado. “Além disso, as pessoas se apaixonam por outras e perdem o interesse. E nem a tecnologia garante 100% de acesso à vida alheia. O companheiro pode ter outro outro chip, outro celular, desligar o aparelho etc. É uma falsa ilusão de controle. Um relacionamento saudável é que os envolvidos querem estar juntos porque se sentem bem e porque se gostam. E não por se sentir chantageado ou cobrado, avisa”.

Um stalker dá sinais?

Reprodução/Netflix

Em um caso extremo como o do personagem da série, quando a vítima percebe, já é tarde porque eles são dissimulados, afirma Gisela. Mas, na maioria dos casos, se a pessoa for apenas insegura, mal resolvida ou infantil, é possível perceber.

Para existir um controlador, tem que existir um controlado que se submete a isso. Então, se não quer ser controlada, não corresponda. Se pediu sua senha, não dê. Porém, é muito difícil quando se está envolvido, mesmo quando amigos fazem o alerta. A pessoa não vai só tentar te stalkear. Se mandar  mensagens o dia todo para saber onde você está e querer saber a senha das redes sociais não são bons sinais. Caso a pessoa tenha sido traída em outro relacionamento ou se sinta insegura, isso é um problema dela, e ela que procure ajuda. Namorada (o) não é terapeuta e não cabe a ela se submeter a essas regras”, afirma.

Dá para se proteger virtualmente?

Segundo o professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e especialista em tecnologia, Arthur Igreja, medidas simples podem aumentar a segurança virtual e dificultar o acesso de stalkers.

Atenção com o que você deixa online: “Ter bastante cuidado em deixar a rede aberta, como perfil do Facebook ou Instagram acessível para todos. Dá para deixar os perfis fechados e só vê quem você autorizar. No Facebook, também tem o recurso de permitir que determinadas postagens só sejam vistas por seus amigos, e tem que ter bastante cuidado ao aceitar todos como amigos”, alerta.

Dupla autenticação: “A maioria das redes sociais, serviços de mensagens e principais servidores de e-mails têm mecanismos de autenticação de dois fatores para acessar a sua conta, como mensagens a celulares validados. Então, se alguém tiver sua senha e tentar invadir de outra máquina, você recebe uma mensagem para saberem se foi você mesmo. Isso impede 90% dos problemas. Em última instância, você pode bloquear em todas as redes e até de serviços de telefonia para que o stalker pessoa não consiga mais entrar em contato com você”, explica.

Instalar antivírus no celular: “O que acontece com frequência é a pessoa ir ao banheiro e o namorado que tem acesso ao celular, instalar um app espião e controlar remotamente o aparelho do companheiro. Isso também pode acontecer em locais públicos, alguém pode pegar seu celular em um momento de distração e instalar o app. É como se a pessoa estivesse com o celular do outro na mão o tempo todo, com acesso às conversas, mensagens etc. Se você tem o antivírus no aparelho, ele avisa se o celular foi contaminado”, alerta.

Outro ponto importante são as senhas: Senhas mais difíceis dificultam a ação de stalkers e hackers (piratas online) em geral. “Ainda hoje, as senhas mais usadas pelas pessoas são a data de nascimento, o próprio nome, e são justamente as primeiras opções do invasor. Além disso, as pessoas costumam usar as mesmas senhas em todas as redes sociais. Misturar números com letras, maiúsculas e minúsculas, usar caracteres especiais ou até usar nome de música, frase ou livro, mesclando com números, por exemplo, já ajuda a proteger suas senhas.”.

O especialista ressalta que essas medidas ajudam, mas se não forem o suficiente e você se se sentir ameaçada ou perseguida, pode denunciar o usuário nas redes sociais e, em casos extremos, fazer um Boletim de Ocorrência. Desta forma, o stalker será contatado pela Justiça para esclarecer o comportamento abusivo.

*os nomes foram trocados a pedido da entrevistada.