Terapia não é frescura e também é para você; psicólogos gratuitos

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Será que você precisa de terapia? (Arte: Ferr Rodrigues/Yahoo Brasil)
Será que você precisa de terapia? (Arte: Ferr Rodrigues/Yahoo Brasil)

Uma coisa é passar dois dias dentro de casa por opção. Um fim de semana de descanso, regado a filmes e pipoca, café da manhã na cama, adiantar as leituras, fazer faxina e um único "look do dia": pijama. Outra coisa é ficar em casa por obrigação - por tempo indeterminado. Verdade seja dita, ninguém imaginava que a pandemia de coronavírus duraria tanto tempo. Só que, nesse meio de caminho, o que aconteceu foi o que todo mundo poderia imaginar: uma crise de saúde mental sem precedentes.

Os números não mentem. De acordo com o Google Trends, uma pesquisa rápida sobre o termo "atendimento psicológico" em relação aos últimos dois anos mostra que em maio de 2020, a procura atingiu o seu nível máximo de medição. O mesmo vale para "atendimento psicológico online", que viu as buscas crescerem. Frases como "tá todo mundo mal" viraram comuns nas redes sociais, e a cada novo Stories ou tuíte, alguém comentava que não andava bem emocionalmente.

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Também ficou claro que as buscas por atendimento psicológico não ficaram apenas na procura, mas tiveram uma taxa de conversão altíssima. Em São Paulo, por exemplo, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) viram os números de atendimentos quase dobrarem: de 24 mil em setembro de 2019, para 52 mil em outubro de 2020 - um aumento de 116%, segundo dados do G1.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, o número geral de atendimentos em 2020 caiu em relação à 2019 - de 293.614 para 282.730. No entanto, a instituição informa que, no ano passado, não foram feitos atendimentos em grupo por conta da pandemia. Em termos gerais, a área de atendimento Infantojuvenil também viu os números diminuírem - principalmente porque os jovens costumam ir aos centros acompanhados de adultos que, acredita-se, evitaram circular pela cidade por causa dos riscos.

Consumo de álcool

Em contrapartida a Secretaria informa que os atendimentos da divisão de Álcool e Drogas do CAPs apresentou "um aumento discreto" nos atendimentos, possivelmente inspirado pela mudança de hábitos e aumento do consumo de álcool no país durante o período.

Já um levantamento da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), divulgado à imprensa e publicado pelo G1, mostrou que os atendimentos nas clínicas particulares também aumentaram: apenas entre agosto e novembro, esses estabelecimentos viram um crescimento de 82% no número de novos casos de transtornos mentais.

A decisão por fazer terapia não é simples. Vivemos em uma sociedade que demoniza questões mentais e que defende o "cada um que lide com os seus problemas". No entanto, não é assim que as coisas realmente funcionam, e momentos como um de pandemia deixam claro a vulnerabilidade mental em que as pessoas transitam no dia a dia. É por isso, inclusive, que se mostra de extrema importância criar uma rotina de cuidados mentais e de fortalecimento interior para que situações como a que vivemos agora não tenham um baque tão grande - e é por isso que a terapia não tem restrições.

"A psicoterapia busca auxiliar as pessoas a lidarem de forma mais saudável com suas dificuldades e sofrimentos que são experienciados de maneira subjetiva e manifestados de forma tanto física quanto emocional", explica Calila Mireia Pereira Caldas, psicóloga e coordenadora dos cursos de Psicologia e Serviço Social da AGES.

Hoje, o mundo é outro e é impossível garantir que as pessoas, em maior ou menor grau, não serão afetadas por questões como o isolamento social ou a perda de um parente próximo. No entanto, pandemias não são algo novo para a história do mundo e o ritmo acelerado da sociedade em que vivemos já dava, há tempos, sinais do quanto interferia com a saúde mental das pessoas - a síndrome de burnout que o diga.

"[Na terapia, as questões que costumamos tratar são] Luto, sentido da vida, ansiedade, depressão, ideação suicida, estresse, dificuldades na interação social, de falar em público, medo... Estas são algumas das questões que se tornam presentes na clínica na atualidade", continua Calila, reforçando a noção de que a temática não é o mais importante, mas, sim, a abrangência de questões e até de tópicos que podem ser abordados na terapia.

Em resumo: você precisa de terapia, sim.

Em uma série de lives feitas no ano passado em parceria com o Yahoo Vida e Estilo, a consteladora e terapeuta Alessandra Pais comentou mais de uma vez que todo mundo precisa de suporte emocional em algum momento da vida. E isso não é um sinal de fraqueza. Pelo contrário.

A cultura da produtividade acima de tudo colocou sobre as pessoas a pressão por uma vida perfeita (somado ao recorte das redes sociais, claro), que deixou em segundo plano os cuidados com a própria mente. Lidar com emoções é uma dificuldade generalizada, assim como a comunicação - em maior ou menor grau, todo mundo exerce alguma dificuldade em se comunicar com os outros.

Isso vai de encontro com as soft skills, as habilidades não mensuráveis, que viraram a sensação entre os empregadores: inteligência emocional, capacidade de se comunicar de forma clara, resiliência… tudo isso é um diferencial em uma sociedade onde falar sobre as emoções é uma dificuldade.

Terapia é para todo mundo

Há também a questão de gênero. Para as mulheres, conversar sobre o que se sente parece mais simples do que para os homens, que simplesmente "não podem demonstrar emoção alguma", correndo o risco de serem tachados de "mulheres" (entre aspas, por ser visto como uma ideia depreciativa). Podemos colocar no bolo as questões de raça, o patriarcado e o machismo também. Doenças graves na família. A perda de alguém muito querido. Enfim, os fatores que corroboram a teoria de Alessandra são muitos - a terapia, nesses casos, aparece como uma ferramenta de tratamento.

"É recomendado a busca por um suporte psicológico e também psiquiátrico a partir do momento que estou apresentando um sofrimento e que apresento um quadro sintomático de insônia, depressão e ansiedade generalizada, como irritabilidade excessiva, dores de cabeça constante, sudorese, exaustão emocional, fadiga e sensação de cansaço constante, dificuldade em manter concentração, náuseas ou queimação no estômago, surgimento de tremores e espasmos", explica Calila.

Aliás, é sempre importante lembrar que as questões psicológicas muitas vezes têm um reflexo físico direto - é a tal da somatização -, e uma rotina de insônia ou até de má digestão é tratada como um problema em si, sem uma investigação mais profunda do que pode estar gerando esses sintomas. Traduzindo: uma dor de cabeça pode ser vista só como uma dor de cabeça, tratável com um remédio cotidiano, e não é visto como fruto de um desequilíbrio emocional.

A terapia como ferramenta de autoconhecimento

A conexão entre terapia e autoconhecimento sempre esteve lá, mas o momento de pandemia / isolamento social deixou mais claro para muita gente a importância de viver em paz consigo mesmo - e isso só é alcançável, claro, quando você conhece a si mesmo. E fé também é importante.

"Os benefícios da terapia se efetivam com o autoconhecimento, em tornar consciente o que está inconsciente na perspectiva de superação dos sintomas", explica Calila. "Ocorrem mudanças de ordem psíquica, o sujeito amplia sua percepção de mundo, suas possibilidades de vir a ser, e o sentido de vida."

Ou seja, o círculo de empatia, começando por você mesmo, aumenta e você adquire uma capacidade de adaptação, de compreensão existencial e, claro, de autoconhecimento, muito maiores.

A pandemia de coronavírus dificilmente é a primeira e ou a última grande crise que vamos encarar como humanidade, no entanto, a capacidade de ultrapassar barreiras, de encontrar novas oportunidades e de superar em conjunto essas dificuldades - afinal, ninguém vai longe sozinho - precisa de um catalisador comum, que é o desenvolvimento da inteligência emocional e da compreensão profunda sobre os sentimentos e sensações humanas e como lidar com cada uma delas. Fazer terapia, consultar um psicólogo ou fazer um tratamento psiquiátrico, olhando a partir desse contexto macro, não são sinais de fraqueza, mas de extrema força.

É verdade que, por enquanto, esses cuidados com a mente ainda são privilégio de um grupo pequeno de pessoas - apesar de existirem atendimentos gratuitos, presenciais e online, pelo país -, mas quanto mais pessoas começarem esse trabalho, mais se abre a oportunidade de que outras façam o mesmo, uma vez que buscaremos, juntos, uma saída para as insatisfações comuns que alguns encontraram primeiro.

Serviço:

Veja onde conseguir atendimento ou suporte psicológico gratuito:

CVV - Centro de Valorização da Vida

Apoio e emocional e prevenção ao suicídio; atendimento anônimo via chat ou por telefone (disque 188).

Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Atendimento psicoterapêutico para população em geral e profissionais de saúde. Para se inscrever, é só preencher o formulário e aguardar o e-mail confirmando o seu agendamento.

CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos São Paulo

Atendimento psicoterapêutico para população em geral e profissionais de saúde, com primeiro atendimento gratuito e consultas à preços acessíveis. Entrevistas podem ser agendadas pelos telefones (11) 3675 – 4159, (11) 3862-4163 ou pelo WhatsApp (11) 97669-2797.

Experiência de Escuta Terapêutica

Atendimento online e gratuito de 30 minutos para o público geral, com o objetivo de oferecer suporte. No site há uma lista de terapeutas disponíveis com quem é possível agendar diretamente uma conversa.

Projeto Você Importa

Movimento online de apoio ao portador de depressão e outros transtornos da mente. Oferece ação preventiva ao suicídio, bullying e à solidão. Neste fio do Twitter, eles sugerem locais que estão fazendo atendimento psicoterapêutico gratuito em diversas regiões do país.

Sociedade Psicanalítica do Rio Grande do Sul

Atendimento gratuito para o público geral e profissionais de saúde do Rio Grande do Sul. É possível se cadastrar preenchendo o formulário no site, ou agendar um atendimento pelo telefone – (51) 3324-3340, das 9h às 18h.

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