Você não precisa "evoluir como ser humano" durante a pandemia; não é sabático

·6 minuto de leitura
Diferente de um ano sabático, uma pandemia pode ter efeitos traumáticos no emocional de alguém. (Foto: Getty Creative)
Diferente de um ano sabático, uma pandemia pode ter efeitos traumáticos no emocional de alguém. (Foto: Getty Creative)

Resumo da notícia:

  • A diferença entre um ano sabático e uma pandemia

  • Efeitos visíveis da pandemia de coronavírus na vida dos brasileiros

  • A pandemia da produtividade nas redes sociais

Há algumas semanas, a ex-BBB Rafa Kalimann viralizou no Twitter ao dar a sua opinião sobre um tópico bem sensível: a pandemia de coronavírus. Ao responder à pergunta de um seguidor sobre como ela "acha que seremos depois da pandemia", a influenciadora comentou que vê o período como um momento de crescimento pessoal. "Quem de fato se abriu para viver esse momento de tanta dor para aprender… Porque nós temos duas opções: transformar isso em ódio, como muitas pessoas fizeram ou usar isso para o nosso benefício, aprender e evoluir como ser humano", disse.

A fala de Rafa gerou revolta - e nem é preciso pensar muito no porquê. Com mais de 500 mil mortos por covid-19 no Brasil, as dificuldades na campanha de vacinação, o aumento do desemprego e a desinformação têm deixado os brasileiros emocionalmente abalados. Não à toa, o país, que já ocupa o lugar de um dos mais ansiosos do mundo, foi classificado como um dos piores para se viver durante a pandemia. Em uma lista divulgada pela Bloomberg que elege os melhores países para se viver em tempos de covid, o Brasil ocupa o penúltimo lugar, à frente apenas da Argentina. Até mesmo a Índia, atual epicentro da doença no mundo, segue acima do Brasil no ranking.

Leia também

Pandemia ou ano sabático?

Depois da polêmica, nas redes sociais pipocaram postagens que diziam algo muito óbvio, "a pandemia de coronavírus não é um ano sabático", e acabaram, também, viralizando. Há de se concordar, já que existe uma diferença muito óbvia entre um ano sabático e uma pandemia.

O ano sabático é um privilégio de poucos. É a escolha de passar um ano distante do trabalho, conhecendo o mundo, estudando áreas de interesse, descansando… pense em Julia Roberts como a escritora Liz Gilbert no filme "Comer, Rezar, Amar". Parte do ano na Itália experimentando a culinária local, depois aprendendo sobre meditação na Tailândia e descobrindo um novo amor nesse meio do caminho. Principalmente, o ano sabático é uma escolha individual, que normalmente exige certo planejamento e, principalmente, dinheiro - e já se sabe que o brasileiro não poupa dinheiro por questões culturais e de necessidade. Muita gente ainda vive com o ganha diariamente.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 minuto e receba todos os seus e-mails em um só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

A pandemia, como bem se experiencia, é uma crise sanitária global. O lockdown, em muitos países, não foi uma escolha individual, mas uma obrigação coletiva para evitar a rápida transmissão da doença e o colapso de sistemas de saúde no mundo inteiro. O distanciamento social, o "tempo a mais" em casa, o fim das idas ao cinema e dos passeios no parque ou cafés da manhã na padaria não foram uma escolha consciente da população global. Não foi como se todo mundo acordasse um dia e pensasse "Hum, e se a gente ficasse um ano dentro de casa?".

Essa diferenciação é importante, porque a pandemia traz uma série de decorrências emocionais e sociais que não acontecem em um ano sabático. Tirar férias por um ano, por mais que signifique uma escolha por não trabalhar, não é responsável por fechar negócios, aumento de desemprego e, no caso do Brasil, aumento da fome e da violência.

Mother working from home with kids. Quarantine and closed school during coronavirus outbreak. Children make noise and disturb woman at work. Homeschooling and freelance job. Boy and girl playing.
A carga mental das mulheres aumentou muito desde o começo da pandemia, exarcebando a disparidade de gênero. (Foto: Getty Creative)

Pare com o papo de produtividade

Muita gente, em particular as mulheres, se viu absolutamente sobrecarregada tentando equilibrar o trabalho - no esquema home office também para conter o avanço da doença -, com as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos. Filhos esses, aliás, que também tiveram que ficar em casa, buscando se adaptar ao esquema de aula online. Crianças em fase de socialização perderam a oportunidade de criar laços de desenvolvimento tão importantes por causa disso.

A Organização Mundial de Saúde, aliás, alertou para um boom de questões de saúde mental, e o burnout virou protagonista da vida de muitos profissionais que, agora em casa, viram os limites entre o trabalho e a vida pessoal dissolvidos - trabalhar mais do que o normal virou regra.

E tudo isso parece ter ficado de fora das redes sociais, que lotaram os seus feeds com dicas de produtividade, de como fazer mais em menos tempo, como aprender a fazer pão, crochê, aquarela, ou tocar um instrumento aproveitando o tempo em casa. Eram posts ensinando como ler mais, estimulando as pessoas a começarem a fazer ioga, ou a trabalhar com argila, ao mesmo tempo que dizia que esse era o momento de começar - e colocar em prática -, um projeto paralelo para conseguir uma renda extra.

Grandes CEOs e os famosos "gurus de carreira" viralizaram com discursos como esse, de tornar o tempo "ocioso" em algo produtivo e, principalmente, rentável. Todas essas dicas e postagens, no entanto, são tiradas de contexto e observadas pelo viés de um sistema que faz questão de explorar o indivíduo comum o máximo que puder.

Enquanto os homens mais ricos do mundo se aventuravam no espaço ou ficavam ainda mais ricos, as "pessoas normais" viram o seu poder de compra cair com o aumento da inflação (e, consequentemente, do preço de produtos básicos, como arroz e óleo de cozinha), e a qualidade de vida cair. Isso, sem contar, o luto que muitos precisaram enfrentar, muitas vezes também em isolamento e sem a possibilidade de dizer "adeus" da melhor forma (se é que existe uma "melhor forma" de dizer adeus).

"Não há nada que você deve tirar disso", disse Jessi Gold, professora de psiquiatria na Escola de Medicina da Universidade de Washington, à Vox. 

Se o que você tirou disso é o fato de você estar respirando, parabéns

E como dizem na internet: é sobre isso. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han explica no livro "Sociedade do Cansaço" que vivemos um movimento de positividade exacerbada, e a ideia de que todos somos capazes de fazer o que quisermos e é tudo uma questão de disciplina é cansativa e adoece o mundo. Não é sem motivo que ele diz que a principal questão atual não é relacionada ao corpo, especificamente, mas à mente. Se os séculos passados foram marcados por grandes questões físicas, como as próprias doenças, o excesso de positividade está gerando uma população mentalmente doente.

Em um período de luto, medo e insegurança pode ser que você não consiga cumprir as suas metas do ano, pensar em um planejamento ou começar um novo hobby. Talvez, o máximo que você consiga fazer é tocar um dia por vez, cumprindo o mínimo possível para manter o seu trabalho. Em uma sociedade concentrada em buscar o lado bom de tudo, talvez a pandemia não tenha uma versão positiva, ou, talvez, seja necessário que cada um leve o tempo que precisar para entender o que esse período significou para si - e isso não é algo imediato, muito menos prova do valor de alguém.

"Às vezes, a lição é que eu sobrevivi", disse a psicóloga Joy Harden Bradford também à Vox. "E se isso for tudo o que tirar dessa situação, então, de fato, isso deveria ser o suficiente".

É válido lembrar que se você tem experienciado dificuldades em lidar com a pandemia e as suas decorrências, é possível buscar ajuda especializada (e gratuita) em vários lugares do país. Você também pode contar com o CVV, o Centro de Valorização da Vida, que oferece suporte emocional via telefone 24 horas por dia, basta discar 188.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos