Quais direitos as mulheres afegãs perdem (e todos nós) com o Talibã no poder?

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KABUL, AFGHANISTAN - AUGUST 17: Afghan women, holding placards, gather to demand the protection of Afghan women's rights in front of the Presidential Palace in Kabul, Afghanistan on August 17, 2021. (Photo by Sayed Khodaiberdi Sadat/Anadolu Agency via Getty Images)
No Afeganistão, mulheres protestam pela manutenção dos seus direitos após a tomada do governo pelo Talibã (Foto: Getty Images)

Resumo da notícia

  • O Afeganistão pré-Talibã permitia que mulheres estudassem e trabalhassem

  • O Talibã fechou escolas e tirou o direito básico de ir e vir das mulheres

  • As punições para elas iam de humilhação a espancamentos públicos

  • Novo governo pede calma, mas o ceticismo ainda é grande

Diz Simone de Beauvoir: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. Infelizmente, é o que estamos vendo acontecer diante dos nossos olhos no Afeganistão. O país, até então ocupado pelas tropas norte-americanas, agora se vê livre do domínio dos Estados Unidos, mas com outra ameaça, literalmente, batendo à porta: o governo Talibã.

Depois de 20 anos, o Talibã volta ao poder no país e as cenas de medo da população local são desesperadoras. Milhares de pessoas tentaram fugir do país enquanto o novo governo se firma, com a promessa de ser mais brando do que já foi um dia. E o que isso tem a ver com as mulheres? Absolutamente tudo.

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Sem estudo, escravidão sexual, sem trabalho, sem direitos básicos

Pré-surgimento do grupo extremista, na década de 1980, as imagens mostravam como o Afeganistão era um país tão livre quanto os demais: as mulheres e homens usavam roupas como as que se viam no Ocidente, e as afegãs eram professoras, funcionárias públicas, tinham direito ao estudo e ocupavam 15% das cadeiras legislativas do país.

Tudo mudou quando o grupo assumiu o comando na metade da década de 1990. Usando como base uma visão rigorosa da lei islâmica (o sharia), cortou direitos e liberdades principalmente, claro, das mulheres. A partir dali, tudo mudou. As mulheres não tinham o direito de fazer nada: nem estudar, nem se candidatar a cargos públicos, nem sair de casa sem a permissão do marido, nem trabalhar em empresas privadas, e deveriam se vestir da forma considerada adequada pelo governo - ou seja, com uma burca ou vestimenta similar.

Quebrar as regras não era motivo de multa ou uma reprimenda oficial, mas de castigos cruéis, como apedrejamento em praça pública, espancamento e humilhação. Sim, um verdadeiro retrocesso.

Muito do pânico que se vê em imagens e da fuga, principalmente, de mulheres do país tem a ver com o fato de que, durante o governo Talibã, as mulheres a partir de 12 anos foram proibidas de estudar e muitas escolas foram destruídas - além de muitas mulheres, mortas. Vale lembrar que, apesar de não ser afegã, mas paquistanesa, a ativista Malala foi vítima do talibã e levou um tiro no rosto quanto tentava ir à escola. Em sua página oficial no Twitter ela já demonstrou preocupação, justamente, em relação às mulheres e minorias afegãs diante dos fatos que se desenrolaram no país na última semana.

Isso sem contar em outras questões seríssimas que o grupo colocava em funcionamento na época e pode voltar a colocar agora. Existem relatos de que enquanto fazia sua campanha de retorno ao Afeganistão, as ocupações talibãs exigiam listas com os nomes das mulheres com idade entre 15 e 45 anos para que fossem casadas com os guerrilheiros. Isso sem contar o histórico de transformá-las em escravas sexuais, uma alegação comum feita ao grupo extremista.

Diz o Talebã que agora será diferente, e o grupo até mesmo fez um chamado de anistia, pedindo às mulheres que colaborem com o novo governo, e que elas poderão, sim, trabalhar. É difícil saber se as falas são, de fato, sinceras, ou se são apenas uma estratégia para conseguir aliados internos e internacionais, principalmente diante da crescente preocupação mundial com os direitos humanos.

Medo por quê?

A guerra do Afeganistão acontece há muito tempo, muito antes do embate iniciado com os americanos em 2001, como decorrência dos ataques de 11 de setembro. No entanto, desde a ocupação norte-americana, as mulheres começaram, aos poucos, a recobrar alguns direitos básicos, como ao estudo, ao trabalho e ao espaço no governo afegão.

Não à toa que o retorno do Talibã causou um reboliço entre elas, que, segundo um levantamento da ONU, em sua maioria buscaram fugir do país acompanhadas de seus filhos desde que o grupo extremista retomou o poder no último fim de semana. As estatísticas das Nações Unidas dizem que 80% das pessoas que precisaram deixar suas casas nesse período são mulheres e crianças.

Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados

Os relatos ainda são desencontrados e não há confirmações exatas do que vai acontecer com as mulheres no Afeganistão, mas as agências internacionais noticiam que, em cidades do interior, onde os insurgentes chegaram antes de tomar a capital Cabul, já haviam guerrilheiros brigando com mulheres que usavam sandálias "reveladoras demais" e dizendo que elas não poderiam ir ao mercado sem um acompanhante.

Ainda há de se esperar o estabelecimento do governo local e as definições das leis, mas uma coisa é certa: a preocupação com os direitos das mulheres no novo Afeganistão não é só do povo afegão - é do mundo inteiro. Cada vez que uma mulher perde o seu direito básico de ir e vir, todas perdem junto, infelizmente, e foi-se o tempo em que o que acontecia do outro lado do mundo ficava por lá. Hoje, com a internet, o acesso à informação em países democráticos e abertos e com as conversas cada vez mais comuns sobre mudanças estruturais na sociedade e no mundo em que vivemos, ignorar o perigo que essas mulheres correm há décadas, mas, especialmente, a partir de agora é colaborar para que a sensação de medo siga acompanhando até mesmo aquelas que têm os seus direitos garantidos.

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