Você pratica a “comproterapia”?

Alessandro Vianna

Todos conhecem pessoas que, quando tem tempo para comer, o fazem vorazmente. Alguns comem qualquer coisa, outros comem doces e muitos comem chocolates.

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Conhecemos também os que bebem muito em pouco tempo. Há os que jogam, os que fumam, os que malham, trabalham e até os que dormem compulsivamente.

Uma ação compulsiva é aquela que leva a um prazer temporário, com o qual queremos substituir uma frustração, contrariedade, ansiedade ou angústia.

Alguns dos mais perigosos compulsivos são os que compram avidamente.

Atire a primeira pedra quem nunca relacionou compras com prazer. Obviamente, estamos em uma sociedade capitalista, na qual o dinheiro tornou-se um recurso que muitas vezes foge ao nosso controle.

O controle é exatamente o que nos falta quando cedemos à tentação de comprar sem planejamento prévio. É a compra emocional, muitas vezes do que não precisamos, que nos traz uma certa paz momentânea.

Depois desse clímax de consumo, nos vem ao menos dois problemas: nos arrependemos dos excessos cometidos e percebemos que aquilo que nos perturbava continua, e voltará a nos incomodar a qualquer momento.

Em se tratando de comprar compulsivamente, outros dois problemas podem aparecer. Um é o mau exemplo que percebemos que podemos estar dando a um filho, sobrinho ou afilhado. Outro, se nosso orçamento não está tão folgado assim, é sabermos que gastamos dinheiro com algo desnecessário, que poderá nos impedir de poder comprar o que vamos precisar amanhã.

Para a maioria dos brasileiros, essa compulsão pode levar a privações, endividamentos e até a incômodos, como ficar com o nome restringido para crédito.
Muita gente compra para obter status, por necessidade, ou até mesmo por modismo; mas há quem compre pelo simples prazer que esse ato proporciona. Essas pessoas são as chamadas consumidoras compulsivas e formam 3% da população brasileira.

Há compulsivos extremos, que chegam a fazer dívidas de até 10 vezes sua renda mensal, caindo numa situação quase que irreversível.

Isso, por sua vez, acaba levando a uma maior ansiedade. Se a pessoa não se perceber como doente que precisa de ajuda, promoverá um ciclo interminável; que pode submetê-la a constrangimentos e mais situações desagradáveis.

Quando recebo algum paciente assim, meu primeiro objetivo é quebrar a crença de que "o ter" promove a felicidade.

Obviamente, não sou hipócrita a ponto de dizer que o dinheiro não nos causa alguns prazeres; porém, é na palavra prazer que me apego. Algumas perguntas faço aos meus pacientes, e as repito aqui:

- Que tipo de prazer a compra promove?

- Quanto dura esse prazer?

- Compro inteligentemente quando é por compulsão?

Normalmente obtenho a resposta que a compra dá um grande prazer ou alívio "temporário", mas que esse prazer desaparece, levando ao desprazer.

Diante disso, devemos fazer a seguinte reflexão: Quais outros prazeres tenho em minha vida?

Você perceberá que, quem responder que tem muitos outros prazeres, dificilmente tem a compulsão por compra e, quem responder que não tem outros prazeres, deve ficar alerta e perceber que algo em sua vida está errado e deve ser revisto.

Comprar tem de ser uma pequena ação dentro de várias outras que devemos ter no decorrer de nossa vida, com o objetivo de obtermos algo de que precisamos. Quando comprar torna-se fundamental, está na hora de procurar ajuda.

A compulsividade por comprar, como qualquer outra, se enquadra nos transtornos do espectro obsessivo-compulsivo. A pessoa acaba por tornar-se dependente dessas atitudes e elas passam a ocupar um lugar importante no seu cotidiano.

Para quebrar esse verdadeiro processo de dependência, a pessoa precisa solucionar o que realmente a incomoda, ou então aceitar essa contrariedade ou ansiedade como algo que não pode vencer.

Parece irracional esse "entregar os pontos", mas é muito racional e adulto reconhecermos nosso alcance e aceitar as derrotas. Afinal, somos todos sujeitos a limites.

Se tratar-se de algo realmente muito importante em sua vida, essa pessoa terá certamente forças para lutar e dominar a situação. Essa reação, por ser de alta responsabilidade, deve ser bem ponderada, com o máximo de racionalidade e o mínimo de emoção.

É aí que um acompanhamento pode ser importante. O profissional vai ajudá-lo a separar os diversos aspectos envolvidos, classificá-los, levar em conta os realmente mais importantes e a conduzir a sua mente para um estado de equilíbrio que a capacitará a solucionar o seu problema da melhor forma ao seu alcance.

Então, adeus compulsão.

* Alessandro Vianna é psicólogo clínico e sente um enorme prazer em estudar e entender o comportamento humano. Clique neste link para conhecer melhor o seu trabalho.