Eles vivem de memes: criadores de páginas de humor contam como hobby virou trabalho

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
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Foto: Arquivo pessoal
Criadores de páginas de humor contam como hobby virou trabalho. Foto: Arquivo pessoal

Por Vladmir Maluf (@vladmaluf)

Enquanto cursava o terceiro período de Direito, a paranaense Nikki Vargas --à época com 26 anos--, levou alguns tombos pelo percurso: foi demitida do primeiro estágio e levou um pé na bunda do então namorado bem na virada do ano.

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A ausência de alegrias, ela conta ao Yahoo!, fez com que, num dia de tédio, criasse um evento no Facebook: “Ajudar o povo de humanas a fazer miçanga”.

Nikki Vargas é criadora da página “Ajudar o povo de humanas a fazer miçanga”. Foto: Arquivo pessoal
Nikki Vargas é criadora da página “Ajudar o povo de humanas a fazer miçanga”. Foto: Arquivo pessoal

“O intuito era esse mesmo, fazer uma oficina de miçanga algum dia, sei lá. E usei o nome ‘povo de humanas’ porque rola esse estereótipo, de que a galera de humanas vive de artesanato”, conta. O que era para ser apenas uma brincadeira tomou uma proporção impensável para Nikki: em poucos dias, o evento já tinha 200 participações. “Achei que poderia virar uma página legal pelo potencial viral. E criei, então, a página que leva o mesmo nome”.

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A criação da “Ajudar o povo de humanas a fazer miçanga” foi em dezembro de 2015. Hoje, a página tem 5 milhões de curtidas no Facebook e 500 mil seguidores no Instagram. É uma das páginas brasileiras dedicadas a memes mais famosas entre a tal turma de humanas. A faculdade de Direito, Nikki afirma, já era: ela abandonou os projetos tradicionais para viver de meme, e, sem muito glamour, ressalta, ganha dinheiro e se mantém fazendo algo que curte.

Mas, como ganha-se dinheiro com páginas de meme? Fácil não é, nem luxuoso. Nikki gosta de repetir “eu não sou rica, teve mês em que não tive como pagar as contas. Não é uma fórmula mágica”. O mesmo garantem Fabrício Andrietta e Danniel Zui, criadores da página “Please Come to Brazil”, e Aslan Cabral --à frente da página “Igreja Universauria” e ex-”Saquinho de Lixo”.

Páginas de meme conseguem lucrar de algumas maneiras: a principal delas, todos concordam, são ações publicitárias que empresas apostam nos memes para criar. Nisso, contratam a página --confiando em seu potencial viral-- e pedem que seus administradores criem memes para divulgar o produto a ser lançado.

Danniel e Andrietta são criadores da página "Please come to Brazil". Foto: Arquivo pessoal
Danniel e Andrietta são criadores da página "Please come to Brazil". Foto: Arquivo pessoal

Andrietta, da Please Come to Brazil, explica. “O grande desafio é fazer com que as ações não pareçam ações. Para isso, temos que trabalhar a criatividade e pensar em um conteúdo engraçado, atrativo, mas sem cara de propaganda. A linguagem da internet hoje gera um alcance absurdo, e as empresas começaram a entender isso”.

Danniel, parceiro de Andrietta, faz um adendo: “Ainda assim, é preciso que a ação esteja alinhada aos valores da página. Se a gente começa a fazer publipost sem essa relação, podemos perder credibilidade com os seguidores, e não é isso que a gente quer”, explica.

Segundo a dupla, o valor recebido para a produção do meme depende do tamanho da empresa e do tamanho da ação. O menor valor já recebido pela Please, eles contam, foi R$ 500, enquanto o maior chegou aos R$ 10 mil. Danniel vive apenas da página, enquanto Andrietta tem um emprego fixo --que ele diz só ter conseguido por causa do trabalho com memes.

“Ser administrador de uma página de memes me abriu muitas portas, porque fica subentendido que a gente manja de uma linguagem muito atual. Meus últimos empregos contaram com a forcinha desse título, e o atual, também. Hoje, trabalho com produção de vídeo em uma empresa --e ajudo o Danniel com os posts da página”.

Aslan Cabral concorda: diz, ao Yahoo!, que todo publipost precisa estar alinhado com os valores da página --e que ele se policia o tempo todo para fazer humor sem valores antigos que podem ofender minorias.

Aslan cuida da página "Igreja Universauria". Foto: Arquivo pessoal.
Aslan cuida da página "Igreja Universsauria". Foto: Arquivo pessoal.

“Quando comecei a fazer meme --ainda à frente da página ‘Saquinho de Lixo’--, não imaginava monetizar isso. E eu percebi que começou a se formar um mercado muito orgânico. Já fui convidado por marcas grandes, de moda, para viajar e ministrar uma oficina de story para publicitários que viriam a administrar a conta dessa marca. Pensa só? Eu ensinei publicitários tradicionais a trabalhar com a linguagem de internet”, relembra.

“A gente está à frente de uma linguagem e recebendo dinheiro pelo nosso trabalho. Faz parte da rotina, também, rejeitar publicidade para preservar a coerência da página. Por exemplo, não posso fazer memes contra a homofobia --coisa que faço sempre-- e aceitar fazer publicidade para uma empresa que apoia um governo homofóbico e transfóbico. Rejeito esses casos mesmo sabendo que vou perder dinheiro”, explica.

Segundo Aslan, além dos valores serem imprescindíveis para monetizar a página com publipost, rejeitar propostas incompatíveis com o que prega a página é importante para cultivar seguidores. “Se eu dou uma bola fora dessa, os seguidores percebem. As pessoas têm cada vez mais propósito na hora de consumir meme, e eu sou bastante consciente disso”.

O artista plástico começou a estudar meme após participar do Big Brother Brasil, em 2013. Diz ele que percebeu um potencial de expansão para esse tipo de linguagem que “eu não conseguiria atingir só em cubos brancos, galerias e museus. Queria atingir outras pessoas”.

“Me dedico diariamente à rotina de fazer meme, é como me alimentar ou fazer exercício. Se, pela manhã, percebo que ainda não produzi um meme sequer, abro páginas de notícia, leio jornais, porque sei que me informar me dá estalos de ideia. Eu não consigo não pensar em meme”.

Conexão intermitente

Pensar em meme 24 horas por dia nem sempre é prazeroso, contam Andrietta e Danniel. A dupla à frente da “Please” diz que, apesar da paixão pela produção humorística, se sente pressionada a estar na internet o tempo todo --mesmo quando não quer.

“É uma obrigação, apesar de ser divertido postar. Se não postar, a página perde o alcance e perde oportunidade de ganhar dinheiro”, diz Danniel. E Andrietta continua: “É muito difícil dizer quais são os limites da internet, porque as fronteiras ficaram totalmente nebulosas. Tenho uma relação de amor e ódio com a internet, porque não imagino como me desconectar. Tem muita coisa que me irrita e muita coisa que me diverte. Fazer humor no Brasil é muito complicado, mas sinto que vale a pena”.

Dedicação exclusiva

Não desconectar é unânime entre os memeiros entrevistados pelo Yahoo!. Nikki relembra que precisou fazer uma escolha: encarar um emprego tradicional ou se dedicar às mídias. “Digo que vivo igual a uma publicitária, mas não sou rica como são outros influenciadores por aí. Tudo que consigo é com muito trabalho. É como um emprego normal, porque não é só postar meme, é lidar com público, com empresa, com contrato. É tudo bem difícil, mas a ‘Miçanga’ é um filho que assumi, por isso nunca vou desistir dela”, diz.

“Já passei meses sem fechar nada, já tive que pedir dinheiro emprestado para os meus pais para sobreviver. Então, me sinto obrigada a dizer a quem quer entrar nessa: não é fácil, não se iludam. Demanda muito esforço. As pessoas acham que vendo um meme e ganho milhões de dólares, e tá longe disso. Mas é um processo prazeroso que quero levar para a vida”.

*À frente da página Igreja Universsauria, além de Aslan, estão: Vivi Bacco Thais Sanchez, João Noberto e Isadora Gibson