Vitória de 'Moonlight' reflete momento atual do cinema nos EUA

Diego Olivares
(Imagem: divulgação A24 Films)
(Imagem: divulgação A24 Films)

Foi uma noite histórica. Não apenas pela gafe em si, mas pela vitória que parecia improvável de um filme intimista e alternativo diante do rolo compressor que parecia ser ‘La La Land’. Pode-se discutir qual dos dois é melhor, já que ambos são extremamente executados em suas propostas de linguagem, bem diferentes entre si. Mas o fato é que o Oscar de ‘Moonlight’, além de excelente cinema, é muito mais representativo.

Um ano após a polêmica da falta de atores e filmes com temáticas negras entre os indicados, a Academia tomou atitudes visando diminuir a desigualdade. Foram convidados 700 novos votantes, a maioria negros, mulheres e latinos ou de outras etnias. O reflexo foi imediato, não apenas nas nomeações, mas também nas vitórias de Mahershala Ali (melhor ator coadjuvante para ‘Moonlight’) e Viola Davis (melhor atriz coadjuvante por ‘Um Limite Entre Nós’).

A escolha de ‘Moonlight’ como o melhor filme, é a coração final desta abertura à diversidade, que esperamos ir além deste ano. Ao ganhar o Oscar de roteiro, o também diretor do filme, Barry Jenkins, disse que ele e a Academia irão dar apoio a todos que se sentirem excluídos ou descriminados pelos próximos quatro anos. O período é uma referência ao mandato de Donald Trump, que vem sendo criticado pela maioria dos artistas por suas políticas excludentes e que reforçam preconceitos contra imigrantes, por exemplo.

Referências ao atual presidente dos Estados Unidos foram sutis nos discursos de agradecimento, mas estiveram presentes nas piadas do mestre de cerimônias da noite, Jimmy Kimmel. Logo no começo, ele provocou: “Não era bom quando apenas a Academia era acusada de ser racista?”. Alguns momentos depois, ele tentou puxar papo pelo Twitter com Trump, que permaneceu inativo na rede social durante o evento, justamente para evitar polêmicas – fato raro em se tratando do republicano.

Fora a vitória de ‘Moonlight’ na categoria principal, não houve outras surpresas. A disputa pelo Oscar de melhor ator, apertada entre Denzel Washington (‘Um Limite Entre Nós’) e Casey Affleck (‘Manchester à Beira-Mar’), acabou ficando mesmo com o irmão mais novo de Ben, mesmo com a volta à tona de um caso de abuso sexual cometido por ele em 2010 e que ameaçou fazer com que ele perdesse votos.

Entre as atrizes, Emma Stone levou a estatueta. A estrela de ‘La La Land’ ainda foi uma das protagonistas do momento bizarro que fechou a noite, já que foi o envelope com seu nome na categoria anunciada momentos antes entregue aos apresentadores Warren Beatty e Faye Dunaway. Depois, na sala de imprensa, Emma resumiu o sentimento geral: “Estou muito animada por ‘Moonlight’. Claro, foi legal ouvir que ‘La La Land’ era o vencedor. Todos nós amaríamos o Oscar de melhor filme. Mas ‘Moonlight’ é um dos melhores filmes da história.”