Vítimas de sabotagem contraceptiva contam suas histórias

Toda mulher tem o direito de fazer o que quiser com o seu próprio corpo.

De acordo com a Organização das Nações Unidas e a Organização Mundial da Saúde, todas as mulheres devem poder decidir quando e se querem começar uma família, manter ou interromper uma gravidez, e qual método contraceptivo querem usar – se quiserem usar alguma das alternativas. Estes direitos são chamados de “autonomia reprodutiva”.

Apesar disso, com frequência estes direitos humanos internacionalmente aceitos são violados por homens controladores, familiares intrometidos e poderes patriarcais. O que é ainda pior é o fato de que estas violações são tão comuns que muitas mulheres nem sabem que têm certos direitos, e não se dão conta de que estão sofrendo uma forma de abuso.

Um estudo publicado na revista científica BMJ Sexual & Reproductive Health na semana passada descobriu que uma em cada quatro mulheres com acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva afirma não ter a permissão para assumir o controle de suas vidas reprodutivas.

Exemplos de coerção reprodutiva incluem forçar alguém a ter um bebê ou forçar alguém a se livrar de um bebê por meio de ameaças envolvendo a violência.

Exemplos de coerção reprodutiva incluem forçar alguém a ter um bebê por meio de “violência física, ameaças de violência ou sexo forçado”, forçar alguém a se livrar de um bebê por meio de ameaças envolvendo a violência e, em alguns dos casos mais extremos, alterar a comida ou bebida de uma mulher com medicamentos que induzem o aborto.

As famílias também podem ser culpadas de sabotar os direitos reprodutivos da mulher. No que diz respeito ao envolvimento dos sogros, o estudo afirma: “Privações comumente infligidas a noras incluem restrição do fornecimento de comida, confinamento em casa e outros insultos e humilhações”.

O ‘stealthing’ ocorre quando um homem remove o preservativo sem o conhecimento da mulher com quem está mantendo a relação sexual.

Também temos a sabotagem contraceptiva. Isso inclui a prática do ‘stealthing‘, quando um parceiro remove o preservativo sem o conhecimento da mulher com quem está mantendo a relação sexual. Trata-se de uma forma de estupro que invalida o consentimento, contrariando os termos previamente acordados.

Diversas mulheres conversaram com o site Refinery29 sobre suas experiências de sabotagem contraceptiva e ‘stealthing’. Conheça suas histórias a seguir.

Janye, de 34 anos, disse que o descaso de seu parceiro demonstrou com o ‘stealthing’ fez com que ela se sentisse confusa e chateada.

“Eu surtei porque sabia que ia precisar tomar uma pílula do dia seguinte,” ela disse.

“Sempre tive dificuldade para entender e dar um nome ao que aconteceu comigo. Eu percebi que tinha sofrido algum tipo de abuso, e mais tarde, raciocinando melhor, notei que havia certas semelhanças com um estupro, mas não conseguia dizer que era isso que tinha acontecido”.

Hanna, de 29 anos, estava tendo uma relação sexual com seu namorado quando ele decidiu remover o preservativo sem o consentimento dela, porque “pensou que seria divertido”.

“Como a reação dele foi totalmente indiferente, eu senti que havia feito uma tempestade em copo d’água. Fiquei muito chateada e brava comigo mesma por ter falado sobre o assunto. Não havia muita informação sobre o ‘stealthing’, então eu fui tomada pela confusão, a raiva e o ódio por mim mesma”.

Algumas mulheres fizeram a terrível descoberta de que seus parceiros haviam removido o preservativo depois de encontrá-lo dentro de suas vaginas, dias depois.

A sabotagem contraceptiva também ocorre quando o homem joga fora as pílulas anticoncepcionais da mulher, fura o preservativo, não interrompe o coito quando isso foi o combinado, mente sobre ter feito uma vasectomia, ou remove um dispositivo intrauterino à força. Sim, isso significa arrancar violentamente o DIU do colo do útero da mulher.

Simone, de 32 anos, disse ao Refinery29 que foi coagida a tomar pílula anticoncepcional porque seu parceiro não queria usar preservativo. Ela era contra usar contraceptivos hormonais por causa de problemas psíquicos com os quais estava sofrendo na época, mas ele insistiu e ela acabou concordando. Quando eles se separaram alguns meses mais tarde, ele fez uma confissão brutal.

“Ele admitiu que estava tendo relações sexuais sem proteção com pessoas que conhecia quando saía à noite,” disse ela.

“Isso fez com que eu me sentisse barata, burra e pouco importante. Ele sacrificou a minha saúde sexual para que pudesse ter um orgasmo levemente melhor”.

Com a enorme prevalência da violência doméstica atualmente, não é surpresa descobrir que muitos destes comportamentos ocorrem em conjunto com outros aspectos relacionados ao controle nos relacionamentos amorosos. De acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas do Reino Unido, duas mulheres são mortas por seus parceiros ou ex-parceiros toda semana na Inglaterra e no País de Gales. Nos 12 meses anteriores a março de 2017, 1,2 milhão de mulheres sofreram abuso doméstico. Vale lembrar que a coerção reprodutiva ocorre com mais frequência em relacionamentos de longo prazo.

Mulheres jovens costumam ter uma probabilidade maior de ser afetadas pelo controle reprodutivo, enquanto nos Estados Unidos as mulheres negras e multirraciais são particularmente vulneráveis.

Os autores do estudo da BMJ reuniram evidências analisando pesquisas e descobertas de centenas de estudos de bases internacionais de dados médicos e sociais, sobre as experiências de mulheres entre 2010 e 2017. Embora tenha reconhecido que homens e pessoas em relacionamentos homossexuais podem passar por situações de controle reprodutivo, o estudo manteve o foco em mulheres em relacionamentos heterossexuais. Os pesquisadores descobriram que mulheres jovens têm mais chances de ser afetadas pelo controle reprodutivo, enquanto nos Estados Unidos as mulheres negras e multirraciais são particularmente vulneráveis.

São muitos os efeitos negativos do controle reprodutivo sobre as mulheres. Não há apenas o trauma infligido pela violência física e remoção à força dos dispositivos contraceptivos, mas há índices mais altos de infecções transmitidas sexualmente, uso exagerado de contraceptivos de emergência, gestações indesejadas e abortos com efeitos colaterais sérios. A prática também prejudica demais a saúde psíquica das mulheres. Frequentemente as mulheres que tentam se proteger, sofrem mais risco de violência.

O Dr. Anatole Menon-Johansson, diretor médico da Clínica Brook de Saúde Sexual, diz que há algumas formas menos óbvias por meio das quais as mulheres podem manter o controle reprodutivo.

“A injeção contraceptiva é uma das formas mais privadas de fazer isso. Não há pílulas a encontrar, nem fios que podem ser sentidos dentro da vagina, como é o caso dos dispositivos intrauterinos… É a melhor opção de contracepção que temos”.

A disponibilidade de coisas como os testes de gravidez que podem ser descartados no vaso sanitário é algo benéfico, assim como a acessibilidade crescente a pílulas abortivas que podem ser tomadas em casa.

O Dr. Menon-Johansson também falou sobre avaliações de segurança que os profissionais de saúde sexual podem fazer com seus pacientes, algo que o estudo da BMJ descreve como essencial para enfrentar o problema.

“Fazer com que as mulheres sejam conscientes da sua autonomia, de que as suas escolhas precisam ser respeitadas e apoiadas, é muito importante. Então, nós tentamos conversar com a mulher sozinha e fazemos perguntas sobre como ela se sente em relação à gravidez e ao relacionamento, em todas as consultas”.

“Às vezes você não ouve nada diferente até a segunda ou terceira consulta. A partir daí oferecemos o maior apoio possível”.

Malorie, de 25 anos, foi incomodada repetidamente por seu parceiro para que fizesse um aborto, embora não quisesse. Aos oito meses de gravidez, ele a agrediu violenta e deliberadamente, o que causou a morte do feto. Ele foi considerado culpado e foi condenado a 32 anos de prisão, com um mínimo a ser cumprido de 16 anos. No entanto, a sentença acabou sendo reduzida em dois anos, após um recurso.

“Muitas mulheres entram em contato comigo por este motivo,” diz o Dr. Menon-Johansson. “A polícia pode dizer que não há o que fazer. Se a gestação não tiver mais de 28 semanas, o agressor não é preso. Ele pode ser indiciado por agressão, mas só isso”.

O ‘stealthing’ é uma ofensa sexual e pode ser julgado como estupro. No entanto, é improvável que a mulher consiga justiça. No Reino Unido, ninguém nunca foi considerado culpado de ‘stealthing’, embora em um caso na Suíça um homem tenha recebido uma sentença de 12 meses por ter removido um preservativo durante o ato sexual, sem o consentimento da sua parceira.

“Qualquer comportamento desse tipo é um crime,” explica Victoria Myers, responsável pelos casos de acusações de abuso do escritório de advogados Graham Coffey.

“Além da compensação criminal, também há a compensação civil, que pode ser mais bem-sucedida. Por causa do impacto do comportamento de alguém, a pessoa pode ser compensada pela dor mental e física que sofreu. Não é fácil passar por este processo, mas na maioria dos casos, a motivação não é o dinheiro. As mulheres entram com ações civis para obter algum tipo de reconhecimento do que sofreram”.

Uma coisa que o estudo não aborda – e admite ser preocupantemente pouco investigada – é a motivação por trás da coerção reprodutiva. Por que os homens querem controlar a reprodução das mulheres?

As teorias estão centradas na ideia de dominância masculina sobre as mulheres, apoiada por uma sociedade que coloca os homens firmemente no poder. Parceiros abusivos podem querer uma conexão permanente com suas vítimas ao ter filhos com elas. Pode haver razões religiosas ou culturais pelas quais uma família quer que uma mulher tenha mais filhos. Em algumas partes da Índia, por exemplo, ter filhos homens é algo altamente valorizado. Além disso, há uma falta de consideração pelas emoções das mulheres, um egoísmo universal que faz com que alguns homens coloquem suas necessidades acima das necessidades de suas parceiras.

O estudo termina ressaltando a importância de uma educação melhor, não apenas para dar mais poder às mulheres e garantir que elas entendam seus direitos reprodutivos – e possam reconhecer quando estes são violados – mas também para que os infratores compreendam que é preciso ter o consentimento e respeitar as mulheres.

Segundo a BMJ, foi demonstrado que a educação reduz a probabilidade de coerção na gravidez em 71%, e aumenta significativamente a chance de dar um fim a um relacionamento abusivo.

“Mais pessoas precisam ser educadas sobre a coerção reprodutiva,” concluiu Malorie.

“As mulheres não sabem a quem recorrer, o que fazer, e ficam sozinhas, vulneráveis. Isso precisa mudar”.

Jenn Selby

Refinery 29 UK