Vítima de estupro relata que foi humilhada por advogado do caso Mariana Ferrer

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Cláudio Gastão da Rosa Filho já atuou na defesa de Olavo de Carvalho e de Sara Giromini (Foto: Reprodução/YouTube)
Cláudio Gastão da Rosa Filho já atuou na defesa de Olavo de Carvalho e de Sara Giromini (Foto: Reprodução/YouTube)

Amigos do advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho revelaram à Folha de S. Paulo que ele tinha uma promessa de não representar acusados de estupro. No entanto, o caso Mariana Ferrer, que acusa André Camargo Aranha de estupro, não foi o único em que ele não só defendeu um homem acusado deste crime como também usou táticas de intimidação da vítima.

Uma reportagem da revista Veja revela quem aos 13 anos, Sandra Bronzina passou por situação similar ao ter de participar de uma audiência em que Gastão da Rosa Filho era o advogado de defesa.

Adolescente, ela foi raptada por um homem ao sair da escola onde estudava em Balneário Camboriú e foi estuprada durante uma hora e meia. O acusado foi localizado e preso meses depois.

Quando a sentença foi proferida, Sandra teve de encarar sozinha em uma sala com diversos homens, sem a mão, que não teve a entrada autorizada. Cláudio Gastão da Rosa Filho era o advogado de defesa do homem.

“Minha mãe foi impedida de me acompanhar na audiência. Ela pediu para que eu tivesse cuidado com as palavras, porque meu estuprador era um homem endinheirado e havia contratado o melhor advogado de Santa Catarina. Tranquilizei minha mãe e disse que tinha a verdade ao meu lado”, relatou.

Aos 11 anos, Sandra tinha sido abusada sexualmente pelo pai e denunciou o crime após uma aula na escola, em que aprendeu o que era pedofilia. O advogado do acusado usou os traumas de infância como argumentos contra ela.

“Mas, quando entrei na sala, a primeira coisa que Gastão falou para mim foi: ‘eu já vi aqui que você foi estuprada pelo seu pai antes’. Como um homem estudado olha para uma criança e diz algo desse tipo? Eu fiquei revoltada. Disse a ele que não entendia o motivo da pergunta, porque o crime cometido pelo meu pai em nada diminuía a gravidade do crime que o cliente dele havia cometido. Ele já estava querendo fazer um drama psicológico em cima da história do meu pai”, relembrou em entrevista à Veja.

Segundo Sandra, assistir os trechos da audiência de Mariana Ferrer a fez lembrar que Gastão da Rosa Filho agiu da mesma forma quando ela era a vítima.

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O homem foi condenado, mas Sandra não esqueceu do que aconteceu. Anos depois, encontrou o advogado em uma festa. “Resolvi cumprimentá-lo. Na hora que cheguei, ele esticou a mão e se apresentou. Disse que o conhecia, pois ele havia defendido meu estuprador quando eu tinha 13 anos. Para minha surpresa, ele repetiu a mesma frase: ‘eu lembro de você, você já tinha sido estuprada pelo seu pai antes’. Fui ao banheiro chorar e entrei em pânico. O Gastão me ligou depois, pediu desculpas e me disse que nunca mais defendeu um estuprador após o meu caso. Como se viu na audiência da Mari Ferrer, o que ele falou para mim não era verdade. É um sujeito sem escrúpulos e com zero sensibilidade”, disse.

Sandra avalia que o caso Mariana Ferrer é um momento adequado para discutir o quando o sistema desumaniza as vítimas de estupro. Ela relatou que o exame de corpo delito foi feito por um homem e, além disso, na delegacia, uma psicóloga a questionou se ela tinha tido um orgasmo ao ser estuprada.

“Depois, perguntou por que eu estava chorando quando soube que o meu hímen havia sido rompido. Eu era só uma criança de 13 anos. Pessoas como o Gastão só contribuem da pior forma para esse sistema. É preciso haver um protocolo que impeça o advogado de tratar as vítimas dessa forma em casos de estupro”, relembrou.

A Veja procurou o advogado, mas não obteve retorno.