Visibilidade Lésbica: mulheres narram preconceito e violência que ainda enfrentam

Dia Nacional da Visibilidade Lésbica (Foto: Arquivo Pessoal)
Dia Nacional da Visibilidade Lésbica (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Elisa Soupin (@faleparaelisa)

Nesta quinta-feira, 29 de agosto, é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Mulheres que se relacionam afetiva e sexualmente com outras mulheres seguem em pleno 2019, sendo alvo de preconceito e violência. Entre 2014 e 2017, 126 mulheres morreram apenas por amarem alguém do mesmo sexo, se acordo com dados do Dossiê sobre Lesbocídio no Brasil.

Nesta data que simboliza a luta por igualdade, direitos e respeito, diferentes casais de mulheres dividiram os preconceitos enfrentados em suas relações: fetichização, descrença quanto à sexualidade, ser chamada de ‘ele’, ouvir comentários desagradáveis, sobretudo de homens. A lista é triste -- e longa.

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Acreditamos que o amor -- todo amor -- é lindo e contamos essas histórias como um alerta pelo fim da lesbofobia e por um país em que nenhuma mulher solte a mão da mulher que ama por medo.

‘Vocês duas são femininas, quem é o homem da relação?’

Isabela e Juliana  (Foto: Arquivo Pessoal)
Isabela e Juliana (Foto: Arquivo Pessoal)

Para começar, vale o lembrete óbvio: em uma relação entre duas mulheres, ninguém é o homem. Juntas há dois anos e meio, Juliana Marques, de 25 anos, e Isabela, de 23, têm uma lista longa de péssimas experiências para contar. De Minas Gerais, as duas são 'o que se considera, mulheres femininas’: têm cabelos compridos, usam maquiagem e outros estereótipos ligados ao entendimento da feminilidade.

“Já ouvimos coisas terríveis, por exemplo: ‘Vocês duas são lindas, nem parecem sapatonas’. Já ouvi também que somos bonitas demais para sermos lésbicas e que não conseguem imaginar quem é o homem da situação, já que somos duas mulheres femininas.

Uma vez, um colega falou: ‘Se quiserem ir para um motel, pode ser qualquer um, até o mais caro, eu pago, se não quiserem deixar eu participar, eu só fico olhando, mas deixa eu ver, por favor’. Obviamente, cortei vínculos com ele, mas sinto que não existe muito respeito pela minha orientação, mesmo que as pessoas conheçam a minha namorada”, conta Juliana, sobre as abordagens invasivas e absurdas que já sofreu ao longo de seu relacionamento.

“Quando saímos, os caras acham que somos amigas e quando falamos que somos namoradas, não querem acreditar. Ficam ‘elogiando’, falando que somos diferentes que ‘assim é até bonito de ver’ quando a gente se beija. Paramos de nos beijar porque a gente não quer ser vista como um fetiche sexual. Uma relação como a que temos, de amor e carinho, não tem que ser vista dessa forma”, diz ela.

“O olhar das pessoas é de repulsa, estranheza”

De Belo Horizonte, Jamine, de 27 anos, e Ohana Santana, de 28 anos, estão juntas há três anos e meio. Elas são mulheres que não performam feminilidade no entendimento social: as duas têm cabelos curtos, não usam maquiagem e nem roupas tipicamente femininas. Namoram, se amam e sentem medo. Para esse casal, existe o racismo além da homofobia: elas são negras.

“Sinto que o olhar é diferente, não só por ver uma menina lésbica, mas por ser uma mulher lésbica negra não-feminina. É um choque. As mulheres negras estão muito ligadas à ideia de selvagens, sedentas por sexo. Vou na contramão disso, tenho um corpo feminino negro que não está a serviço da sexualidade do homem. Então, sinto que rola um incômodo das pessoas sobre mim e a Ohana. Já passamos por algumas situações de homofobia na rua e isso traz um incômodo, traz uma dificuldade mesmo de transitar em alguns lugares”, desabafa Jamine.

“Acham que somos amigas e não um casal. As pessoas ficam reparando em nós pra entender o que nós somos, e é bem indiscreto mesmo. O olhar das pessoas é de repulsa, estranheza. Muitas vezes, somos confundidas com homens. Às vezes isso é bom, porque nos dá uma sensação de segurança, mas temos medo. Até mesmo de uma abordagem policial, por acharem que somos homens e ajam de forma violenta. Outra coisa que acontece com nós duas é que quando vamos usar banheiros públicos, as pessoas olham torto. A gente costuma levar de boa essas situações, mas têm dias que a gente não está bem, chora, fica mal e triste mesmo”, diz Ohana.

“Quero casar, ser dona de casa, parir. Sexualidade não limita nada”

Lorena e Madu querem construir uma família (Foto: Arquivo Pessoal)
Lorena e Madu querem construir uma família (Foto: Arquivo Pessoal)

Lorena Kling, de 22, e Maria Eduarda Weissinger, de 19, de Niterói, estão juntas há um ano e nove meses e, nesse tempo, tiveram que lidar, juntas e individualmente, com vários preconceitos. As duas são mulheres consideradas 'dentro do padrão de beleza'. E Lorena acha que, de certa forma, a sua aparência a protege de mais preconceitos.

“Além da homossexualidade ser tida ‘como uma fase’, pode nem ser vista como sexualidade, já que a mulher desde sempre foi colocada como submissa ao homem. De forma individual, me assumir foi muito complexo, minha família não aceita bem. Minha mãe não suportaria se [minha orientação sexual] fosse perceptível para outras pessoas, principalmente da família. Haveria um surto coletivo na minha casa e com meus familiares”, conta Lorena Kling.

Ela percebe, também, que há muita ignorância sobre o que é ser lésbica, como se expectativas para a vida de mulheres que amam outras mulheres tivessem que ser -- necessariamente -- diferentes.

“Minha mãe sempre me questiona sobre mudança de sexo, já que ela sabe que namoro com a Duda. Isso me ofende muito e não tem nada a ver, porque nunca deixei de ser uma mulher. Sempre quis casar, ter filhos, ter família, fazer tudo considerado do ‘universo feminino’.

Quero parir, quero ser dona de casa, quero usar vestido, praticamente não saio sem maquiagem. Sexualidade não tem absolutamente nada a ver com gênero e ao mesmo tempo, nada disso limita ou abrange quem você é e o que escolhe na vida. Algumas pessoas da minha família superaceitam, mas percebo que talvez seja porque minha namorada também se encaixa no modelo menininha, então é mais fácil de ser engolido por eles, pelos meus amigos e pela sociedade no geral. Mas sempre que andamos de mãos dadas na rua percebemos os olhares de estranhamento, sentimos muito medo, tentamos sempre evitar, nunca nos beijamos em público”, conta ela sobre a relação das duas.

“O problema é o desconhecido: a gente nunca sabe o que pode acontecer na rua”

Sofia e Beatriz (Foto: Arquivo Pessoal)
Sofia e Beatriz (Foto: Arquivo Pessoal)

Sofia Salander, 24, e Beatriz Ferraz, de 21, são um casal de mulheres consideradas masculinas.

“Atualmente, temos a sorte de conviver em um meio muito relax e, por isso, não temos grandes problemas. O problema é sempre o desconhecido: a gente nunca sabe o que pode acontecer na rua. Confesso que a gente evita se expor em determinados ambientes por temer que qualquer coisa possa acontecer e por prezar pela nossa segurança em primeiro lugar.

Eu e ela já sofremos agressões verbais na rua, mas não juntas. Não há uma estatística, mas sabemos que a probabilidade geralmente indica maiores agressões em casal”, diz Sofia, que acaba se privando (ou sendo privada?) de demonstrar seu afeto pela namorada em público como estratégia de proteção.

“Com uma ex, uma vez a gente estava andando na rua, um lugar que não é movimentado, mas sempre foi super seguro e a gente sempre frequentou. Um cara passou pela gente de bicicleta, olhou pra trás, parou a bicicleta e começou a gritar que iria enfiar a porrada na gente. Ficamos sem reação, não falamos nada, só ficamos olhando pra ele e uma para cara da outra até que ele foi embora, foi terrível demais, senti muito medo”, relembra Sofia.