Defender a virgindade não resolve uma questão estrutural e só gera mais ignorância

Educação sexual é a única forma de lidar com o número de gravidezes na adolescência e transmissão de ISTs (Foto: Getty Creative)

O sexo na adolescência anda em pauta. E, ao contrário do que poderíamos pensar, não é pelo melhor dos motivos. A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, colocou a abstinência como uma das soluções para controlar os índices de gravidez na adolescência e transmissão de doenças. 

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A ideia, por si só, é absurda. Primeiro, porque assume que uma campanha incentivando a abstinência vai funcionar - e que os adolescentes vão topar esperar para transar até sabe-se lá quando. Segundo, porque gera uma cultura de medo em torno do sexo, estimulando a desinformação. 

Em sua página no twitter, a ativista Stephanie Ribeiro, explica: "Jovens não precisam TER MEDO DO SEXO. Ou serem proibidos de fazer SEXO. Jovens precisam ter consciência sobre as responsabilidades, liberdade e consentimento. Não existe liberdade sexual sem informação. Não existe combate a ISTs com abstinência sexual".

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A verdade é que, mesmo entre jovens evangélicos, existem práticas sexuais além do sexo com penetração que colaboram para a transmissão de infecções - o que só vem aumentando por aqui, inclusive. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada 25 pessoas no mundo têm uma das principais ISTs, como clamídia, gonorréia, sífilis e tricomoníase. Em média, a organização acredita que existam um milhão de novos casos por dia - e o principal motivo para esses surtos é o não-uso da camisinha nas práticas. 

Acredita-se que essa negligência se dá por conta do avanço da medicina, que já desenvolveu tratamentos eficientes no combate a sintomas e, em alguns casos, de cura. Até mesmo pessoas que carregam o vírus HIV podem levar uma vida normal, sem quaisquer efeitos na saúde e na rotina, por conta dos tratamentos atuais. 

Mas isso, claro, não é acessível para todos. Para a maioria pobre do Brasil, com explica Stephanie, a AIDS acaba se tornando uma realidade fatal, difícil de ser controlada não só pela falta de acesso aos tratamentos, quanto, principalmente, à informação a respeito das suas formas de contágio. 

O mesmo pode-se dizer sobre a gravidez na adolescência. Segundo dados da Organização Pan-Americana de Saúde, a taxa de gravidez na adolescência no mundo é de 46 nascimentos para cada 1 mil meninas de 15 a 19 anos. Já no Brasil, a taxa é de 68,4 nascimento para cada 1 mil adolescentes. 

É fácil compreender como a crença de que evitar o sexo seria a melhor saída para diminuir esses números - essa ideia só não é realista. E, pior, aumenta a desinformação e gera medo em torno do ato em si - o que pode causar traumas no futuro. 

"O discurso de ABSTINÊNCIA SEXUAL É UM DISCURSO ANTIFEMINISTA. Feministas falam de liberdade sexual porque ela é sobre garantia de uma sexualidade saudável. E isso não existe sem conhecimento. Abster é querer tapar o sol com a peneira e colocar jovens num mar de desinformação", diz Stephanie. 

A necessidade de informação é tanta que a própria Organização das Nações Unidas recomenda que o trabalho feito com grupos vulneráveis inclua um impulso de acesso a métodos anticoncepcionais e aulas de educação sexual. A abstinência nunca é uma opção. 

“A falta de informação e o acesso restrito a uma educação sexual integral e a serviços de saúde sexual e reprodutiva adequados têm uma relação direta com a gravidez adolescente. Muitas dessas gestações não são uma escolha deliberada, mas a causa, por exemplo, de uma relação de abuso”, disse, em 2018, Esteban Caballero, diretor regional do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) para América Latina e Caribe. “Reduzir a gravidez adolescente implica assegurar o acesso a métodos anticoncepcionais efetivos.”

O diretor da UNFPA tem um ponto: muitas das relações adolescentes que resultam em gravidezes não são consensuais, mas resultados de abuso ou casos de estupro e violência sexual. Aliás, segundo um levantamento feito pelo Ipea, 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes. E, ao contrário da crença popular, 70% dos agressores são pais, namorados ou amigos / conhecidos da vítima. Isso significa que, em quase todos os casos, o perigo está dentro de casa, e não fora. 

Virgindade como construção social

Existe outro ponto importante. A virgindade é uma construção social. Como a própria Stephanie explica (e como a ONU reforça), a ideia da mulher virgem surgiu como uma maneira de controlar os corpos femininos. Se você perceber bem, apenas a virgindade feminina é protegida. Os homens podem transar quando quiserem, com quem quiserem, sem qualquer problema. 

Aliás, de acordo com a ONU, o termo "virgindade" não tem nenhum cunho científico. Ele é uma construção social, cultural e religiosa, principalmente, que reflete uma discriminação de gênero contra mulheres e meninas. 

O que isso significa? Que o sexo deve ser preservado para o casamento. Mas só quando o assunto são as mulheres. O impacto que isso gera na vida de meninas e mulheres é imensurável. O ponto principal é que elas não desenvolvem uma relação saudável com a sexualidade, justamente porque são feitas a acreditar que sexo é errado e que deve ser feito apenas sob circunstâncias específicas. Caso contrário, o efeito que têm na forma como a mulher é vista é catastrófico. 

Qual a saída, então? 

Com certeza a educação. O Reino Unido, por exemplo, se tornou um exemplo mundial ao reverter as taxas de gravidez na adolescência. No país, em que o aborto é legalizado, houve uma queda de 50% no número de gestações em meninas com idade entre 15 e 17 anos, fruto de um trabalho ferrenho de educação e acessibilidade. 

O país, que registrou 21 gravidezes adolescentes para cada 1000 em 2015 (metade a menos do que o registrado em 2007), fez investimentos no acesso generalizado à métodos contraceptivos e também no estigma social sobre o assunto. Importante notar que, no mesmo período, o número de abortos em meninas dessa faixa etária também caiu. 

Aliás, falando em Reino Unido, vale notar como o país tem um histórico de trabalhar o assunto em programas de televisão e entretenimento de massa. O mais recente é a série 'Sex Education', que fala, exatamente, sobre a forma como adolescentes lidam com a sexualidade, suas dúvidas e problemas de relacionamento nessa fase da vida. 

Sem qualquer estigma, a série fala sobre masturbação adolescente, sexo sem proteção, aborto, assédio e até uso de drogas estimulantes, como o Viagra, e seus efeitos. Principalmente, dissemina a informação de uma maneira altamente relacionável ao mesmo tempo que tira qualquer tabu sobre o assunto. 

Não à toa, a série é um sucesso de audiência na Netflix, que produz e veicula a trama. 

A questão é que o trabalho de educação sexual não é simples, muito menos registra resultados rápidos. O Reino Unido começou a investir pesado no assunto em 1999, quando o Partido Trabalhista dedicou centenas de milhões de libras a um projeto de aumento de acessibilidade de recursos e educação nas escolas. Os jornais britânicos, inclusive, pegaram carona na falta de resultados imediatos para criticar - e muito - as decisões do governo. Mas, com o tempo, as taxas começaram a cair vertiginosamente. 

O que concluímos com isso é que as ideias de Damares, além de altamente retrógradas e com vieses religiosos - o que vai contra a ideia de que o estado é e deve continuar sendo laico -, com certeza podem piorar os já péssimos índices brasileiros. Acreditar que defender a virgindade e a abstinência soluciona qualquer coisa é, no fundo, a mais pura ingenuidade.