Virgil Abloh, maior de sua geração, pôs luta antirracista na moda

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Não seria exagero usar o clichê de que há uma moda antes e depois de Virgil Abloh neste século. A certeza não passa pelo fato de ele ter posto o estilo urbano na alta moda quando assumiu as coleções masculinas da Louis Vuitton, em 2018, nos enfiando em tênis, moletons e roupa esportiva para o desgosto das alas mofadas da costura internacional.

Nem tem só a ver com a revolução que sua marca própria, a Off-White, promoveu nas prateleiras ao redefinir o streetstyle, alçado ao patamar de luxo quando o mercado não pôde mais ficar indiferente à proliferação massiva de sua estética industrial e seus tênis, os sneakers pesados colecionáveis, que até mercado de ações informal ganharam por meio dos fãs.

O que esse estilista americano, negro e de origem humilde, representou foi a quebra de um padrão excludente da indústria fashion, que relegou ao esquecimento nomes como Ann Lowe, estilista de Jackie Kennedy vetada das revistas de sua época, e Arthur McGee, lenda dos guarda-roupas da Broadway e eclipsada pelo racismo arraigado na cultura do século 20.

A morte prematura de Abloh, neste domingo (20), ocasionada por um câncer contra o qual lutou em silêncio nos últimos dois anos, foi anunciada pelo grupo LVMH com o mesmo assombro de quem acompanhou a companhia francesa anunciando, em julho passado, a compra de parte majoritária da Off-White e a entrada do estilista no comitê de diretores do grupo. Tornara-se, como definiu o jornal The New York Times na ocasião, "o negro mais poderoso do mundo no grupo mais poderoso do mundo".

Superlativos não são palavras aleatórias quando se trata de Abloh. Tão gigantes quanto as calças, os abrigos e os calçados desenhados por ele foram as parcerias amealhadas ao longo de sua trajetória, que começou informalmente, em 2002, na equipe do rapper Kanye West, para o qual criou modelos icônicos da grife Yeezy e, depois, o sucesso visual do álbum "Watch the Throne", feito pelo cantor em parceira com Jay-Z.

O êxito de suas ideias atraiu a atenção das grifes esportivas e do círculo de amigos do hip-hop. Um ano antes de fundar a Off-White, que só viria à luz em 2013, experimentou customizar peças da Ralph Lauren e da marca esportiva Champion e, em cima dos nomes, colou a inscrição Pyrex 23.

O "roubo" customizado dizia muito sobre aquilo em que ele acreditava, que o estilo, independentemente do nome por trás da assinatura, era uma expressão individual, um carimbo próprio, como quando imprimiu numa das peças, e pela primeira vez, a frase "a juventude sempre vencerá". Seria marca da Off-White.

Abloh não fundou apenas uma marca, mas um estilo de vida. Suas peças tinham nome, um casaco recebia o carimbo de "casaco", um tênis, de "tênis". Todos levavam o lacre de segurança laranja copiado pelo mundo, que também hackeou o cordão estampado como fita de isolamento, amarela e preta, tão visto nas calças dos jovens americanos pelo mundo.

Formado em engenharia civil e com título de mestre em arquitetura, a imagem "em construção", bruta, limpa e funcional, se espalhou numa velocidade sem precedentes e abriu caminho para as passarelas abortarem de vez o glamour rococó do passado. Era o nascimento do "normcore", o visual urbano dito "normal", sem firulas, e foi ele quem encabeçou a marcha streetwear que ainda toma as ruas.

Abloh tirou a rua do gueto e sepultou o retrato enviesado da sociedade americana sobre a moda de rua, vinculada pelo cinema e pela TV às gangues de drogas. O estilista surgiu no horizonte fashionista logo após os protestos do movimenro Million Hoodie March, no qual milhares de jovens saíram às ruas para denunciar a morte do adolescente negro Trayvon Martin, na Flórida, morto por um policial que suspeitava dele só pelo moletom com capuz. A resposta prática foi o designer quem deu, finalmente, ao tornar luxo o signo marginal que teria ceifado a vida do garoto.

É que reparações históricas moveram o estilista ao longo dessa curta carreira. Seria incorreto, porém, creditá-lo como "pai do streetwear". Ele estava mais para filho legítimo, porque sua missão era reapropriar uma estética que a branquitude americana vinculou ao skate californiano, quando, na verdade, ela teve origem nos guetos dos 1970. Sem dinheiro para comprar grifes chiques da costa leste, os jovens negros usavam a roupa esportiva para se diferenciar e garantir seu espaço.

O resgate da identidade preta moveu sua estreia na Louis Vuitton. Quando todos esperavam uma overdose de moletons, Virgil Abloh presenteou alfaiataria coloridíssima, com ombros marcados e elegantes tal como são usados em países africanos. Um arco-íris de possibilidades levou a mensagem clara de que, a partir dali, cores, as da pele e as das roupas, não seriam excluídas.

Empenhado em pôr a história da liderança negra na mesa de corte do luxo, levou à passarela uma homenagem a Michael Jackson, em 2019. A produção das roupas, porém, foi cancelada pela Louis Vuitton após o lançamento dos documentários sobre as acusações de assédio infantil contra o ídolo pop.

Numa das raras vezes em que sofreu críticas por seus posicionamentos, foi alvo da patrulha virtual após dizer sentir nojo das imagens em que se viam lojas de tênis depredadas durante os protestos contra a morte do segurança negro George Floyd, pisoteado até a morte por um policial branco. Pediu desculpas por soar insensível à causa do movimento Black Lives Matter e virou a página como poucos.

Ele tirou do próprio bolso, e do grupo LVMH, o primeiro milhão de dólares do Fundo Pós-Moderno de Bolsas de Estudos Virgil Abloh, para financiar a faculdade de jovens estilistas negros e afro-americanos sem condições de bancar os valores estratosféricos dos cursos de estilismo das universidades dos Estados Unidos.

Era o ato derradeiro, soube-se hoje, de um legado que não mudou apenas nossas roupas, mas a cor, o discurso e a origem de quem as cria.

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