Virgens virtuais: aprendendo a webnamorar depois dos 30 anos

A vida dos webnamoros depois dos 30 anos, como faz? (Foto: Getty Images)

Por Susana Cristalli

Em tempos de pandemia o webnamoro está em alta, queiramos ou não. Mas nem todo mundo se sente à vontade entre flertes virtuais, nudes, e a falta do olho-no-olho. Principalmente quem passou dos 30 anos e perdeu – ou escolheu deixar passar – o bonde do Tinder, e agora precisa se atualizar na marra.

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O “novo normal” desde 2013

É claro que pessoas se conhecem, se apaixonam e se relacionam online desde o tempo da internet discada. Antes do Tinder havia o Grindr, por exemplo, que já era extremamente popular na comunidade gay. Mas por volta de 2013 o aplicativo do foguinho fez com que flertar pelo smartphone se tornasse o “novo normal” para uma boa parte da humanidade. Boa parte, mas não toda. Porque quem já era comprometido, ou simplesmente não se sente confortável com a paquera através de uma tela, não embarcou nesse hábito e, ao se ver solteiro depois de muito tempo, encontrou um mundo totalmente diferente. 

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A empresária Camila Abreu, de 43 anos, resolveu experimentar o Happn — outro aplicativo de relacionamento — depois de ter sido casada por 15 anos. “No início me senti ridícula. Mas logo comecei a me divertir e usar como passatempo”, conta. Só que a primeira experiência não foi das melhores: o cara com quem estava falando era um catfish, ou seja, não era o mesmo que aparecia nas fotos. Ela desistiu dos aplicativos “de pegação”. “Me sinto mais exposta na internet, sempre vou preferir flertar através da linguagem corporal. Sou meio tiazona nos apps”, diz ela.

Na verdade, nem tanto. Afinal, diz que o novo Tinder é o Instagram, onde é mais fácil falar com alguém que já conhece. “Antes da quarentena eu ia pro bar e postava Stories para que meus pretendentes soubessem onde eu estava. E funcionava", conta.

Distanciamento social, mas e o emocional?

Pois, é, em 2020 entrou mais um fator na equação: a pandemia do novo coronavírus. Fernanda Heinzelmann, gaúcha de 39 anos, está fazendo doutorado em Portugal e conheceu o namorado no final do ano passado. Ele mora nos Estados Unidos e o plano era terem se visto mais vezes, mas o vírus fez tudo mudar e o webnamoro tem sido a única opção. “Nunca tive conta nesses apps, não estou acostumada a manter o assunto através de uma tela”, diz Fernanda. “Para mim isso é o mais difícil, ainda mais nesta época em que nossas vidas não estão muito interessantes porque estamos todos em casa. Em uma relação, às vezes você só quer estar perto da pessoa, mesmo sem conversar. E seria esquisito deixar uma chamada de vídeo rolando sem falar nada, enquanto cada um faz suas coisas”, diz Fernanda.

Já para o publicitário A., de 33 anos, a necessidade de manter distância mudou tudo o que ele pensava sobre relações virtuais. “Usei o Happn em 2015, mas não gostei. Não sentia conexão com as meninas que conhecia”, conta. “Mas, agora, o webnamoro pra mim foi quase uma solução. Porque eu estava extremamente fechado e, quando veio tudo isso, tive o tempo e o espaço que precisava para me conectar de verdade com uma pessoa ainda desconhecida.” Ele conta que não é do tipo que gosta de tirar fotos e teve que vencer essa barreira. “Mas ao mesmo tempo a tela no meio e a distância talvez tenham me deixado mais livre pra ser eu mesmo no sentido mais emocional.”

Vivendo e aprendendo a webnamorar

A empresária carioca Carol Andrade, de 34 anos, também acabou conhecendo alguém na quarentena, sem ter experiência em namoros virtuais. “O luto [após perder a mãe] me fez ficar fechada para conhecer pessoas. A quarentena fechou mais ainda. Quando um amigo de infância promoveu uma live sobre transmissões, começamos a nos falar”, conta. Ela acha que a falta de olho-no-olho cria inseguranças para quem não é habitué do online. “Creio que a tela te priva do contato visual, das expressões corporais, aquela coisa de ‘não quero ir, mas tenho que ir’. Te impede de saber se o ‘tchau boa noite’ foi porque real está indo pra casa ou é só mais um flerte do dia”. E não se sente confortável para ser ousada.

“Não dá pra fazer a apaixonada virtual, dizer que tá querendo abraço. Quanto menos mandar nudes. Não cabem mesmo! Até porque a conversa não caiu para esse papo - ambos tímidos e conservadores”.

A facilitadora de desenvolvimento pessoal Daniela Gebenlian, de 37 anos, nunca foi de deixar as relações acontecerem de forma virtual. “Esse período inicial online é pra criar afinidades, mas tem que ir logo para o real, quando as afinidades encaixam”, diz.  E agora isso mudou, e ficou até mais romântico. “Com o distanciamento social, o modelo tem que ser outro: incorporamos chamadas de vídeo, que eram nulas ou raríssimas, retomamos o envio de coisas físicas como cartas, flores. Agora, falando do que percebo nos outros: as pessoas estão recebendo com mais naturalidade se conhecer por app”.