'Vila Sésamo' terá programa para crianças afetadas por guerras

Mark Kennedy


Em 2019 a Vila Sésamo abordou temas como lares adotivos e abuso de substâncias químicas. Agora o seu novo programa está tentando ajudar crianças que estão sofrendo com as consequências da guerra civil na Síria.

A Sesame Workshop, organização educacional sem fins lucrativos responsável pela Vila Sésamo, lançou um novo programa de televisão local, produzido pela Arabic TV, destinado para as centenas de milhares de crianças lidando com o deslocamento na Síria, Iraque, Jordânia e Líbano.

“O que se tornou muito evidente no nosso trabalho no local é quão crítica a necessidade de ter as habilidades emocionais e sociais é para as crianças dessa região e crianças afetadas por eventos traumáticos”, disse Sherrie Westin, presidente de Impacto Social e Filantropia na Sesame Workshop.

Chamado Ahlan Simsin, que significa "Bem-vindo Sésamo" na língua árabe, o show mostrará personagens como Elmo, Cookie Monster e Grover, assim como dois novos Muppets: o jovem Jad, que teve que deixar seu lar, e Basma, uma garota roxa que se torna amiga do jovem desconhecido. Uma cabra adorável chamada Ma’zooza será o alívio cômico.


Cada episódio de 26 minutos explorará emoções vividas por todas as crianças, mas em particularmente relevantes para aqueles lidando com traumas e irão oferecer meios para lidar com sentimentos como raiva, medo, frustração, nervosismo e solidão.

Em um episódio, Barma compartilha seus brinquedos com Jad, pois ele deixou os seus para trás. Algumas estratégias incluem respiração abdominal e expressão através da arte.

Um show de variedades na segunda metade de cada episódio oferece aos criadores a chance de trazer celebridades locais e atrair uma audiência adulta para enfatizar as mensagens transmitidas. “O humor sempre deve estar lá, isso é o ‘espírito de Sésamo’”, disse Khaled Haddad, um produtor executivo do programa.

Ahlan Simsim irá estrear no dia dois de fevereiro na emissora MBC3, uma rede de satélites pan-arábica que engloba 20 países no Norte da África, Golfo e no Levante, assim como no YouTube e em emissoras nacionais da região.

A produção ocorre na capital da Jordânia, Amman, com sugestões de escritores e artistas de toda a região. Os dialetos serão diversificados, do jordaniano ao saudita.

“Nós sabemos muito sobre crianças e o desenvolvimento infantil e o que é necessário. Mas nós sempre queremos aprender com as pessoas locais”, disse Westin. “Nós sabemos que, quando crianças veem a si mesmas, se identificam com os personagens e relacionam-se com a história, nós somos mais eficientes”.

Voltado para crianças com idade entre três e oito anos, o show irá manter distância de questões políticas, sociais ou religiosas. “Dentro das nossas capacidades, nós não irão realizar discursos políticos”, disse Westin.

“O espírito por trás da Vila Sésamo sempre foi que não importa se você tem pelos roxos ou amarelos”, disse Scott Cameron, produtor duas vezes premiado pelo Emmy que atua como produtor executivo da nova atração.

“É um lugar onde as crianças podem se sentir seguras e apoiadas, e onde coisas reais são abordadas, como medo do escuro, frustração e solidão. Nós tentamos sempre fazer isso com comédia, acompanhada de compaixão”, concluiu Cameron.

O programa está no centro de um esforço mais amplo, em conjunto com o Comitê Internacional de Resgate, que inclui serviços diretos, como visitas em casas, salas de aula e clínicas, todas incrementadas com materiais da Sésamo, como livros, quebra-cabeças, jogos e vídeos. Um episódio, por exemplo, mostrará Jad aterrorizado de ir ao médico e então explorando seu medo.

É mais do que um programa de televisão. É uma grande intervenção”, disse Cameron. “É um mundo onde crianças e suas famílias podem se sentir seguras e protegidas. E é um mundo onde o conteúdo midiático serve como um portal para um conjunto mais amplo de assistência humanitária”.

A atração foi inicialmente financiada por um prêmio de cem milhões de dólares da Fundação John D. e Catherine T. MacArthur. A Fundação Lego então premiou o programa com mais cem milhões, para aprofundar o aprendizado através da brincadeira de Ahlan Simsim e para dar à Sesame Workshop a chance de expandir para Bangladesh, para atender as famílias afetadas pela crise dos Rohingya.

Desde que o conflito na Síria começou em 2011, em torno de cinco milhões de crianças tiveram que se deslocar internamente ou para fora do país, de acordo com a Comissão para Inquérito na República Árabe da Síria, apoiada pela ONU. Seu relatório em janeiro diz que os jovens “tiveram suas infâncias roubadas” por violações de todos os lados.

Vila Sésamo tem tido uma presença no Oriente Médio por décadas, começando com o programa Iftah Ya Simsim, que estreou em 1979 no Kuwait, seguido por versão locais no Egito, Jordânia, Palestina e Israel da Vila Sésamo.

Dessa vez, para descobrir qual intervenção no começo da infância funciona melhor em cenários de crise, a Sesame Workshop está trabalhando com a Global Ties for Children Center, da Universidade de Nova Iorque para avaliar tanto os serviços diretos quanto os componentes midiáticos do programa.

Os criadores esperam que as lições aprendidas no Oriente Médio possam ser traduzidas em outras regiões, assim como coisas que o Vila Sésamo aprendeu nos bairros de baixa renda possam ajudar todas as crianças. “O programa irá alcançar crianças por todo o Oriente Médio, mas os benefícios serão para todas as crianças”, disse Westin.