Vídeo da reunião mostrou tudo. Menos preocupação do governo com a pandemia

Bolsonaro acena para apoiadores no Planalto (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)

Jair Bolsonaro é armamentista.

E fala palavrão. Vê inimigos até na sombra e xinga o tempo todo.

Foi eleito presidente apesar disso. Para muitos, justamente por isso.

A liberação da tão falada reunião de ministros em 22 de abril mostrou o lado nu e cru de um presidente que sempre se apresentou nu e cru.

Ninguém pode se dizer surpreso com o que viu. 

Quem tinha ojeriza ao jeitão do presidente ganhou uma razão a mais para alimentar a ojeriza.

Quem via na montagem de seu ministério uma reunião de malucos e despreparados, saiu do vídeo com a impressão reforçada. Hoje são maioria.

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A fala de Damares Alves, pedindo a prisão de governadores e falando de contaminação criminosa de índios por parte de pessoas interessadas em prejudicar o governo federal é uma pérola.

A de Abraham Weintraub, ministro sem modos da Educação, também. Uma pérola sobre a anatomia do ódio, do Supremo a ciganos e povos indígenas.

Só que tanto um quanto o outro tem eco entre seus seguidores. Todo mundo conhece o doidinho da esquina que acredita que o Brasil vendeu a Copa de 98 e Ronaldinho simulou a convulsão para não dar tanta bandeira.

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Ricardo Salles é um pouco mais articulado. Chegou a pedir ao governo que aproveitasse as atenções da imprensa no coronavírus para “ir passando a boiada” no Meio Ambiente. Grave, mas em algum momento ele já tinha dado sinais de que queria floresta em pé?

Ah, sim, tem também o Paulo Guedes, que usou a reunião para dizer que tinha de vender logo a “porra” do Banco do Brasil. Não sei como os funcionários da instituição receberam a reverência, mas os planos desestatizantes da equipe econômica eram cristalinos desde a campanha. Guedes só não colocou a toalha da mesa da reunião à venda porque não dá bilhão.

E então chegamos a Bolsonaro.

O ponto nevrálgico da cena toda já havia sido divulgado. É bem claro o recado para Sergio Moro sobre o descontentamento com os trabalhos da Polícia Federal, sobretudo por não saber o que acontece, a não ser pela imprensa. Mas de fato fala em “segurança” no meio da frase sobre a interferência.

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O ato falho pode ser revelador no campo da psicanálise, mas no campo jurídico cabe como uma luva à sua estratégia de defesa. Mesmo tendo trocado sua segurança, uma responsabilidade do Gabinete de Segurança Institucional, antes da reunião.

Moro deixou o encontro e se demitiu pouco depois.

A justificativa: não aceitava interferência de Bolsonaro na autonomia da PF.

Bolsonaro mudou o comando da PF e a superintendência no Rio logo que Moro virou as costas.

Moro tenta mostrar que agiu por princípios, mas a imagem da reunião ministerial indica que ele acabava de ser desmoralizado pelo presidente, que claramente deu a ele diretas e indiretas sobre um possível descompromisso com o governo.

No pouco que falou, Moro pediu para que recebesse, na manifestação que o governo preparava, um pouco de crédito pelo trabalho de combate à corrupção e à violência. Parecia injuriado com a forma como foi tratado.

A rusga estava clara, mas a reunião não era só isso.

Ela mostrou um lado do presidente que opositores amam odiar e seus apoiadores mais fieis amam adorar.

Na reunião, Bolsonaro agia como se soubesse que o registro da reunião poderia ser usado para fins políticos. Para o bem (dele) ou para o mal (também dele).

Como se falasse em cima de uma picape em frente à multidão, ele demostrava cansaço com o que chamou de perseguição da imprensa a seus familiares.

Disse que estava se lixando para a reeleição.

E que não tinha amor ou apego à cadeira do presidente. “Zero”, ressaltou.

“Se tiver que cair um dia, vamos cair lutando”, disse aos ministros. “Mas não por uma babaquice de exame antivírus.”

Bolsonaro afirmou também que era submisso apenas ao povo.

Que o destino do país estava nas mãos de seu grupo de ministros privilegiados pela missão. Que ninguém ali era acusado de corrupção.

E que via como seu dever estar sempre onde o povo estava.

No caso, fisicamente.

No meio da pandemia.

Ele minimizou a placa levantada por um “coitado” pedindo AI-5 em uma das manifestações que participou.

Disse que qualquer um podia pedir o que quisesse e estava se lixando para aquilo. O tempo dos atos institucionais acabou, afirmou. 

Disse também que não queria dar golpe, mas que não aceitava ser golpeado.

E se mostrou revoltado com medidas de governadores e “prefeitinhos” que queriam prender a população por furar a quarentena.

Mostrou também revolta com um suposto liberou geral dos presídios por causa do coronavírus. A certa altura, perguntou como os ministros agiriam se soubessem que um agressor de suas famílias fosse libertado pela caneta de algum juiz. 

Ah, sim: na cabeça de Bolsonaro, povo livre é povo armado. Só com armas a população poderia se precaver contra ditaduras. Para quem poucos dias depois falou em “guerra” contra os governadores, a frase pode ser lida como um desejo fratricida. Ganha gravidade com o contexto.

Aqui também Bolsonaro mostra que já havia perdido pé da realidade fazia tempo no combate à pandemia. Ele xingou o prefeito de Manaus, Artur Virgílio (PSDB), que estaria abrindo covas coletivas apenas para espalhar o terror. Outra paranoia típica de corrente de WhatsApp.

A fala foi coroada por uma colocação de Paulo Guedes: podemos conversar com todo mundo do establishment, mas somos diferentes deles.

O léxico mostra que Bolsonaro e equipe aparentemente acreditam que fazem parte de uma cruzada moralizante. Uma cruzada com muitos pés fora da realidade e declarações de guerra contra tudo e contra todos que não sejam eles. Inclusive outros Poderes e entes federativos.

A crise ficou escancarada.

E isso, por incrível que pareça, é música para os ouvidos de quem abraçou o bolsonarismo como força política e um sentido para a vida. O desejo de disrupção está todo ali.

Que ninguém estranhe se a partir do fim de semana algumas frases ditas na reunião estamparem camisetas amarelas de seus apoiadores como gritos de guerra.

É possível escrever livros e livros mostrando que povo armado é povo que se mata, não povo salvo de ditaduras. Pode-se dizer que ele esquece deliberadamente de muitos fatos estranhos ao bater no peito e dizer que do seu lado não existe suspeita de desvios (E o Queiroz? E o laranjal do PSL?).

Mas o que importa mesmo é o que disse sobre a PF. Vai ser difícil chegar a algum consenso no disse-que-disse-mas-queria-dizer.

À primeira leitura, o maior flagrante da reunião é que ninguém ali parecia minimamente preparado para o maior desafio histórico a ser enfrentado no país neste século: a pandemia do coronavírus.

Bolsonaro reivindicou seu direito de estar com o povo, e pronto. Não parecia atentar que estar com o povo, em um contexto de pandemia, era furar todos os esforços de contenção da disseminação do vírus que subiu a curva e já ceifou 20 mil vidas no Brasil que prometia colocar acima de tudo.