Vídeo das irmãzinhas com a vela de aniversário é triste e fala sobre negligência

Marcela De Mingo
·4 minuto de leitura
Blowing out candles on his birthday.
O vídeo das meninas com a vela de aniversário fala muito mais sobre como olhamos as crianças do que sobre elas (Foto: Getty Creative)

O vídeo que rolou a internet nos últimos dias gerou uma série de reações nas redes sociais afora: duas meninas diante de uma mesa de aniversário, uma delas se prepara pra soprar a vela do bolo, mas a outra chega primeiro e tira a alegria da primeira de apagar a velinha. Muitos viram essa cena como uma que define o ano de 2020: parecia que ia ficar tudo bem e, de repente, pandemia de coronavírus - e essa foi apenas uma das tantas outras situações e comparações que renderam a partir do vídeo.

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No entanto, é preciso olhar o agora meme com outros olhos. Uma cena como essa pode parecer engraçada, mas, para muitos é triste. Triste porque é possível ver na cara da aniversariante a tristeza por não poder apagar a própria velinha de aniversário. E, sim, tudo bem, as duas são irmãs, mas fato que é que houve uma expectativa que foi quebrada e essa quebra gerou tristeza.

Nós, adultos, rimos de uma situação. Para a aniversariante, não aconteceu nada de engraçado. Para ela, aquele foi um momento de raiva em um dia que deveria ser especial. No caso da irmã, é impossível saber o que ela sentia ou o que pensou quando decidiu soprar a velinha primeiro, mas é fato que ela não terminou aquela cena se sentindo plenamente feliz e satisfeita.

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Dá para perceber que, quando se fala em crianças, parecemos esquecer que elas têm sentimentos como qualquer adulto. A diferença para quem já é grande, no entanto, é só a quantidade de elementos adquiridos para saber administrar com sentimentos e sensações que são vistas como ruins - e veja que, mesmo assim, às vezes lidamos muito mal com tudo isso.

Não vamos entrar no mérito de como precisamos, antes de mais nada, evitar expôr crianças na internet dessa maneira, rir às custas delas (por mais que seja por identificação de sensações), mas nos perguntamos até que ponto isso é saudável para todas as partes envolvidas. Um questionamento importante é saber se as irmãs, depois de tudo, foram igualmente acolhidas pelos tutores, puderam compreender o que sentiram e passaram, e resolver a situação entre elas.

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essa semana um vídeo de duas irmãs viralizou na internet, eu recebi como piada de várias pessoas tomando partido de uma das meninas. eu não achei engraçado crianças são seres altamente emocionais, crianças são PESSOAS e sentem tudo que nós adultos sentimos... TUDO! E sem os filtros sociais, sem os limites e medidas que aprendemos qdo crescemos e tentamos nos desenvolver emocionalmente. fico pensando o quão invasivo foi a menina ter apagado o vela antes da aniversariante, o quanto aquilo deve ter ferido a menina naquele momento que era dela. e por outro lado penso em como muitas vezes nós não falamos com as crianças sobre o que todos nós humanos sentimos: inveja, ciúmes, raiva, sem ROTULAR as crianças com as emoções lidas socialmente como negativas e que não tratamos abertamente. tomara que com o fim as DUAS tenham sido acolhidas, que seus cuidadores tenham nomeado e VALIDADO todos os sentimentos que aconteceram ali para que elas possam aprender a lidar com as emoções na jornada em busca de ser adultos emocionalmente saudáveis update: sei que são irmãs, sei que irmãos brigam, sei que no fim da festa cortaram bolo juntas, a proposta de reflexão aqui é não normatizar as violências emocionais e TRATAR abertamente sobre emoções lidas socialmente como negativas com as crianças. update2: a vida dessa família não se resume em segundos de um vídeo, galera! Essas coisas acontecem em nossas famílias muitas vezes e é perfeitamente NORMAL entre crianças, vishiiii eu e minha irmã brigávamos muito qdo crianças (lendo os comentários e conversando com minha mãe até me lembrei de uma foto em que eu tô muito brava pq minha coleguinha foi escolhida como noivinha e eu não) a proposta aqui é ACOLHER TODAS AS EMOÇÕES DAS CRIANÇAS e ajudá-las a entender o que tá acontecendo, ensiná-las a lidar. ahhhhhh lembrei uma coisa importante sobre isso: ASSISTAM o filme #DIVERTIDAMENTE 🖤🌱 💡 voltem dois posts e leiam @militanciamaterna: "Parem de tratar as crianças como se elas fossem um problema"

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Muito se fala como as duas principais gerações de atualidade, os millennials e a GenZ, são instáveis emocionalmente. Porém, essa instabilidade não surge de um dia para o outro. Ela é resultado de uma série de vivências que resulta em uma forma complicada de olhar o mundo, muitas vezes, sem nem mesmo conseguir compreender o que sentem e pensam.

Essas vivências começam na infância. Questões de autoestima, emocionais, falta de confiança, aparecem como resultado de experiências como a das duas irmãs em que uma, por exemplo, se sente menos importante do que a outra e entende que precisa chamar a atenção de alguma maneira.

Não é à toa que a gigante de cosméticos Dove fez uma pesquisa global sobre real beleza começando com meninas. Segundo o estudo, apenas 11% das meninas se sentem confortáveis em se descreverem como "bonitas" e 72% se sentem pressionadas a serem assim. O resultado? No mundo inteiro, apenas 4% das mulheres se consideram verdadeiramente bonitas.

Essas meninas não chegaram ao mundo pensando isso sobre si mesmas, esses comportamentos foram aprendidos. As sensações resultantes foram aprendidas e a nossa função, como sociedade, é ensiná-las a lidar com isso da melhor maneira possível, de forma que se sintam confiantes e fortes para enfrentarem o mundo.

E isso, claro, não é restrito às meninas, mas aos meninos também. Talvez até principalmente com eles, porque os homens são ensinados, desde cedo, a reprimir e não demonstrarem emoções.

Isso é só a ponta de um iceberg que nos leva a considerar como olhamos para as crianças como um todo. A importância que damos ao seu desenvolvimento, ao seu crescimento em ambientes seguros, à sua educação, em oferecer oportunidades iguais à todas elas e não abandonar uma parte para valorizar outra (sim, estamos falando de uma estrutura racista e colonialista).

O ponto é: crianças são pessoas que precisam de direcionamento para entenderem como lidar com o que elas não conhecem. E isso significa tanto os seus sentimentos e pensamentos, quanto o mundo que está em volta. É preciso começarmos a adotar uma visão macro - lembre que o brasileiro não têm cultura de planejamento e visão a longo prazo - , ao invés do micro e considerar que as ações que temos hoje, inclusive com os pequenos, refletem - e muito - no amanhã.