Letticia Munniz sobre críticas: 'A vida toda a gente aprende que grande é ruim'

Lettica Munniz afirma não ser gorda – Foto: Reprodução/Instagram

Letticia Muniz é uma das influencers que levanta com bom humor questões relevantes sobre o universo feminino. Com 212 mil seguidores, a atriz e humorista ficou surpresa quando algumas pessoas polemizaram um de seus posts em que aparece de lingerie.

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“Boa sexta pra tu que finalmente aprendeu a se amar vestindo 46 como eu ou qualquer outro tamanho, afinal, números são só números e bonito e ser incrível pra gente, para as pessoas e para o mundo”, escreveu na legenda.

Não demorou para que alguns internautas questionassem o manequim de Letticia e o fato dela se intitular como plus size. “Ser feliz usando 46 sem barriga e com cintura marcada é de boas. Acho que tu tá te apropriando meio que de uma pauta que não é sua mas beleza”, disse uma internauta.

“Não sou gorda”

Letticia se defende e sabe que não pode ser considerada gorda, e nem quer que esse seja o foco da discussão. “Não sou gorda, não sofro nem nunca sofri gordofobia, mulheres gordas sofrem muito mais. Isso é uma questão que sempre levanto na vida, em lojas que compro, em trabalhos que faço, se não está me servindo, se não fica bom em mim, se não valoriza o meu corpo que sou só 46, como vai servir, como vai fazer uma mulher gorda se sentir bem com seu corpo?”

Como atriz, no entanto, ela não faz parte do padrão da TV e da publicidade e já perdeu oportunidades por conta do peso. “Nunca pegava trabalhos ou nem era enviada para os testes, isso contribuiu muito também para eu odiar meu corpo e fazer de tudo para emagrecer. Fazia umas dietas malucas para vestir 42 e conseguir ir nos testes. Lembro que uma fez fui renovar meu material fotográfico de atriz e antes de ir para as fotos desmaiei de tão fraca que estava. No fim das contas, quem a gente é nunca é suficiente pro padrão da mídia, da sociedade”.

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A pressão para caber em um manequim menor faz com que muitas mulheres cheguem ao extremo e Letticia foi uma delas. “Se você perguntar para qualquer mulher do mundo, todas elas já se recusaram a comprar uma calça ou uma peça de roupa porque estava vestindo um tamanho grande que não queria usar, e até pior, às vezes a gente compra um tamanho menor de uma peça que a gente quer muito, para tentar se obrigar a emagrecer para caber nela, é um condicionamento. Não é a gente que tem que caber nas roupas, elas que precisam caber na gente, porque assim a gente tem o direito de amar nosso corpo e de nos sentirmos lindas ao invés de ficar se machucando para tentar caber onde não nos cabe”.

A vida toda a gente aprende que grande é ruim. A gente não pode ser, nem estar acima do peso ou da forma física que a sociedade quer que a gente esteja senão não vamos conseguir namorado, marido, emprego. Vamos sempre sobrar, ninguém vai gostar da gente. O que ninguém ensinou é que a gente tem que se apaixonar pela gente, do jeito que a gente é, e isso que é bonito

Ainda sobre a polêmica envolvendo seu manequim 46, Letticia completa que não é culpa dessas mulheres que a condenaram, mas sim de um sistema que existe há anos e que precisa mudar.

“As mulheres são vítimas, a gente reproduz um discurso machista. Falta mais gente lutando, falando, dando a cara a tapa e tendo paciência com outras mulheres. Porque uma cabeça que foi ensinada a ter certos pensamentos toda uma vida não muda de um dia pro outro. Também já reproduzi discurso machista. É triste ser ‘atacada’ por mulheres porque é de quem a gente espera  apoio. E aí nem é exatamente sobre feminismo, é sobre empatia, sobre se colocar no lugar do outro e não achar que só a sua dor dói”, afirma.

E era exatamente isso que estava tentando mostrar, sou grande e sou linda. Na verdade estava tentando não só mostrar para as pessoas, mas também para mim que sempre me odiei, olha isso Letticia, você usa 46 e é bonita pra caramba

Ausência de representatividade

A partir dos 10 anos que a humorista percebeu que era diferente das mulheres que via estampada nas capas de revistas. “Apesar de magra sempre fui grande, coxas grossas, quadril largo, braço grosso. E naquela época mal existia internet, a gente não conseguia ter referências de mulheres diversas, só das modelos perfeitas. A gente não conseguia se enxergar em alguém como a gente porque essas pessoas também não eram vistas como bonitas, então não faziam parte da mídia“.

Isso a fez se enxergar de forma extremamente negativa. “Decidi que meu corpo era horrível e que eu não fazia parte do que era bonito, assim perdi toda minha pré-adolescência, adolescência e grande parte da minha juventude, vivia só para tentar emagrecer e me encaixar no padrão do que uma mulher deveria ser”.

Pressão

Toda essa cobrança social da indústria para que as mulheres sejam magras gerou diversos distúrbios na vida de Letticia, que lutou contra condições como anorexia e bulimia. “Foi horrível e durou muitos anos, alguns mais intensos que outros. Comecei com anorexia, fui para a bulimia e vício em laxantes, esses dois distúrbios duraram muitos anos. Acordava e ia dormir querendo apenas uma coisa, ser magra. E quanto mais tentava emagrecer mais comia de nervoso, então é um ciclo vicioso sem fim”.

Ela achava as amigas bonitas, mas não se via da mesma forma, e que sofria para comprar roupas de seu tamanho. “Sempre tive muita dificuldade em comprar roupa, sempre odiei e até muito pouco tempo atrás ainda odiava minhas coxas e só usava partes de baixo que cobrissem até o pé. Ia para a escola de casaco quase todo dia por odiar meus braços e até muitos anos depois continuei saindo só de casaco, mesmo no maior calor do mundo para não mostrar os braços. É muito triste que uma criança, um adolescente, que deveria estar se divertindo e se descobrindo passe esses anos tão incríveis se odiando e querendo ser outra pessoa, e eu não sou exceção“.

Ditadura da beleza

A falta de figuras públicas com formas que fogem da ditadura da magreza é algo que tem total influência na vida de uma mulher. Se hoje temos nomes que representam as mulheres curvilíneas, antigamente a história era outra.

“Comecei a buscar referências de mulheres grandes como a modelo americana Ashley Graham e a me inspirar nelas. A Ashley atualmente é minha referência, acho a mulher mais linda do mundo. Toda vez que ela posta uma foto fico chocada com a beleza daquela mulher e percebo que se ela que usa o mesmo manequim que eu e é maravilhosa, porque também não posso ser?”

Ela segue dizendo o quanto essa representatividade pode mudar a vida de uma jovem. “Foi isso que faltou na minha adolescência e juventude, ter referências de mulheres que eram lindas como eu para que eu não quisesse ser linda como as outras, que nunca conseguiria ser, porque a gente só consegue ser a gente e pronto, não dá para ser outra pessoa, por mais duro que a gente tente“.

Superação

Hoje, Letticia usa sua plataforma para fortalecer outras mulheres e seu processo de aceitação ainda está em construção. “Demorou muito para acontecer e na verdade ainda está acontecendo. Quando comecei a falar de feminismo e empoderamento na internet, percebi que gostar ou não do meu corpo estava muito mais ligado a me reconhecer enquanto mulher do que sobre estética”.

Ela costuma dizer que prefere ser uma pessoa incrível do que uma pessoa bonita. “Acho que quando a gente é uma pessoa com muitas qualidades internas, é impossível que elas não sejam externadas e deixem a gente ainda mais bonita. Isso me deu paz para, aos poucos, perceber que meu corpo é na verdade o corpo que preciso para lutar pelo que acredito, e que assim como meu discurso, ele poderia ser também um instrumento de luta. Fui aos poucos absorvendo meu próprio discurso e comecei a parar de me odiar”.

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Sobre os comentários negativos que recebe, Letticia apenas aconselha que as pessoas amem mais. “Acho que essas pessoas estão em processos de se amar, de se aceitar, de serem felizes e quando a gente está nessa busca, temos muito mais dor do que amor dentro da gente. E a gente acaba dando o que tem né?”.

Por fim, ela dá o melhor conselho para quem ainda está passando por problemas de aceitação do próprio corpo.

“Se amar não é sobre ser fisicamente a pessoa mais bonita do mundo. Não adianta se machucar, fazer procedimentos estéticos, viver de dieta e na academia, se você não olhar primeiro para dentro. É muito mais difícil ser bonita de dentro para fora, mas essa beleza é a única que dura para sempre. Quando a gente entende quem a gente é de verdade, nossas qualidades, nosso lugar no mundo, a gente consegue se amar e se admirar e aí sim percebe nossa beleza. Bonito é ser incrível para a gente, para as pessoas e para o mundo”.