'A Vida Invisível' desbanca 'Bacurau' e será representante do Brasil no Oscar

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 19.08.2019: A Folha promove sessão gratuita do filme brasileiro

SÃO PAULO (FOLHAPRESS) - "A Vida Invisível", de Karim Aïnouz, vai representar o Brasil na corrida pelo Oscar de melhor filme internacional. O título, anunciado nesta terça-feira (27), desbancou outros 11 longas na disputa, entre eles "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

O longa fará sua première no país na abertura do Cine Ceará, em 30 de agosto, e estreia primeiro nas salas do Nordeste, a partir de 19 de setembro, chegando ao resto do circuito em 31 de outubro.

"A Vida Invisível" esteve no Festival de Cannes, em maio deste ano, e levou o prêmio de melhor filme na seção Um Certo Olhar. Na mesma edição do evento francês, "Bacurau" concorreu na competição principal e acabou faturando o prêmio do júri. Ambas foram vitórias inéditas do cinema nacional.

A obra de Aïnouz, baseada num romance da escritora Martha Batalha, conta a história de duas irmãs que sucumbem, cada uma à sua maneira, ao machismo no Rio de Janeiro dos anos 1950.

A impositiva Guida (Julia Stockler) se apaixona por um marinheiro grego e acaba grávida antes do casamento. Já a mais contida Eurídice (Carol Duarte) está resignada a se casar virgem com um sujeito sem graça, vivido por Gregorio Duvivier. Uma mentira fará com que as duas irmãs percam contato uma com a outra por décadas a fio.

Fernanda Montenegro também está no elenco da obra. Em nota enviada à imprensa, a atriz comemorou a escolha. "Isso demonstra que a cultura cinematográfica brasileira, num momento como esse, nos credencia como artistas e cidadãos", diz o texto.

Fernanda, aliás, esteve no elenco do último filme brasileiro que conseguiu concorrer nesta categoria no Oscar, "Central do Brasil", em 1999. Naquele ano, o longa de Walter Salles estrelado por ela perdeu para o italiano "A Vida É Bela", de Roberto Benigni.

Apesar dessa ausência de duas décadas --ou até por causa dela--, o histórico de escolha do título é pontuado por polêmicas. Em 2010, quando a escolha era decidida por um comitê indicado pela Secretaria Audiovisual, do Ministério da Cultura, a seleção da biografia chapa-branca "Lula, o Filho do Brasil" foi criticada por outros cineastas.

Há três anos, "Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, era tido como o favorito, mas foi preterido por um longa que nem sequer tinha estreado no circuito brasileiro, "Pequeno Segredo", de David Schurmann.

Naquela ocasião, o setor cinematográfico levantou a hipótese de uma revanche política, já que Mendonça Filho e a equipe de "Aquarius" haviam feito ato contra o impeachment de Dilma Rousseff no Festival de Cannes em 2016.

Para evitar esse tipo de questionamento de ordem política, a escolha não é mais feita pela Secretaria do Audiovisual, mas por uma comissão especial indicada pela Academia Brasileira de Cinema.

Neste ano, o grupo foi presidido por Anna Muylaert, diretora de "Que Horas Ela Volta?".

A comissão contou com oito nomes do setor, como Amir Labaki, idealizador do festival de documentários É Tudo Verdade, Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio, e Walter Carvalho, mais conhecido diretor de fotografia do país. Schurmann, diretor do filme que desbancou "Aquarius", também faz parte do comitê.

Eles demoraram quase duas horas para se decidir por "A Vida Invisível" que, segundo Muylaert, derrotou "Bacurau" por apenas um voto.

Caso seja aceito pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, organização por trás da cerimônia do Oscar, "A Vida Invisível" pode enfrentar longas como o sul-coreano "Parasite", de Bong Joon-ho, que foi o ganhador da Palma de Ouro em Cannes neste ano, e o alemão "System Crasher", de Nora Fingscheidt, vencedor do Urso de Prata na última edição do Festival de Berlim, em fevereiro.

A próxima cerimônia do Oscar está marcada para 9 de fevereiro do ano que vem.

Depois que cada país apontar o seu filme representante, um comitê de 300 pessoas em Los Angeles assiste aos títulos e escolhe sete para a categoria. As três vagas remanescentes são definidas por um grupo paralelo, formado por membros antigos da Academia que, ao contrário dos colegas na ativa, são menos assediados pelos agentes das produções. Assim são decididos os dez títulos que competirão na categoria, anunciados em 13 de janeiro do ano que vem.