Viagem aos EUA e declarações de Bolsonaro mostram descaso do governo diante da crise econômica

(ZAK BENNETT/AFP via Getty Images)

Enquanto os mercados globais derretiam e o mundo enfrentava crises no preço do petróleo e com o coronavirus, o presidente Jair Bolsonaro passeava pelos Estados Unidos. A viagem incluiu uma visita ao ateliê do artista plástico Romero Britto, em Miami. Na ocasião, a convite do artista brasileiro, Bolsonaro pintou um quadro da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, feito por Romero Britto.

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A foto publicada pelo Planalto simbolizou perfeitamente o pouco caso do presidente com a crise. Após dia de pânico nas bolsas de valores do mundo, Bolsonaro minimiza. “Temos no momento uma pequena crise, na minha opinião muito mais fantasia”, afirmou em evento em Miami, nos Estados Unidos.

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A referida crise inclui uma queda de 12,5% na Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira – o pior tombo do século. A Petrobras perdeu R$ 91,1 bilhões em valor de mercado, a maior queda desde 1986, o que vai afetar o caixa da empresa, segundo especialistas.

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O ministro da Economia, Paulo Guedes, seguiu a mesma linha e disse estar tranquilo.

Na avaliação do deputado Marcelo Ramos (PL-AM), as declarações do presidente são uma tentativa de desviar o foco da crise. “Não é hora de cair nas armadilhas que o presidente tenta armar para desviar o foco dos graves problemas econômicos do país. Vamos continuar a debater as reformas, a queda da bolsa, o desemprego, o Fundeb”, disse.

O presidente do Cidadania, Roberto Freire, criticou a viagem de Bolsonaro aos Estados Unidos, quando se encontrou com o presidente norte americano Donald Trump, e a alienação do ministro da Economia.

“Bolsonaro foi para a Flórida tietar o ídolo Trump. Guedes está no mundo da lua. O ‘Posto Ipiranga’ não tem respostas para problemas sérios do país”, afirmou o ex-deputado federal.

Bombas de fumaça

As declarações polêmicas do presidente para desviar a atenção de crises são rotineiras. 

Nesta semana, diante do derretimento da economia, da crescente escalada do dólar e o recrudescimento do surto de coronavírus, Jair Bolsonaro acusou a eleição de 2018, que o elegeu presidente, de ter sido fraudada.

Em meio à crise, discursou no Estados Unidos sobre a situação da Venezuela e o regime cubano.

Também aproveitou para alfinetar o Congresso, ao afirmar que se deputados e senadores desistissem da proposta de manter o controle sobre R$ 15 bilhões do Orçamento, as manifestações marcadas para o dia 15 de março poderiam nem acontecer, ou ao menos não terem a mesma força.

Na semana passada, para eclipsar o tímido aumento do PIB em 2019, o presidente participou de uma elaborada encenação diante do Palácio da Alvorada para evitar responder a perguntas da imprensa sobre o baixo crescimento da economia brasileira. O show contou com a participação de um humorista, vestido de presidente, distribuindo banana a jornalistas.

Além da economia, outro tema que tira o presidente do sério é a investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro em relação a um suposto esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Homem de confiança de Bolsonaro, Fabricio Queiroz, é apontado como o responsável pela contabilidade.

Para reagir a perguntas sobre esse assunto, ele tratou da sexualidade de jornalista na porta do Palácio da Alvorada: “Você tem uma cara de homossexual terrível. Nem por isso eu te acuso de ser homossexual”, respondeu. Após um repórter perguntar sobre comprovantes de transações que envolviam Queiroz e sua família, gritou: ”Pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai, tá certo?”

Outras frases polêmicas:

“O que é golden shower?” – perguntou em uma postagem após divulgar vídeo de uma cena do Carnaval.

“A maioria ali são de militantes, que não têm nada na cabeça. Se perguntar sete vezes oito eles não sabem. São uns idiotas úteis, imbecis, usados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo das universidades federais no Brasil” – sobre estudantes em manifestação contra o corte de verbas para a Educação.

“Malandro, malandro, para evitar um problema desse [deportação de estrangeiros considerados perigosos], casa com outro malandro e adota criança no Brasil” – fez referência ao jornalista Glenn Greenwald, casado com o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ). Eles adotaram dois filhos no Brasil.

“Daqueles governadores da Paraíba, o pior é o do Maranhão. Tem que ter nada para esse cara” – referiu-se aos governadores do Nordeste, em reunião no Palácio do Planalto.

“Quando se fala em poluição ambiental, é só fazer cocô dia sim dia não, que melhora bastante” – disse ao ser questionado se é possível preservar o meio ambiente e se desenvolver economicamente.

“DiCaprio, você tá colaborando com a queimada na Amazônia” – referindo-se a quatro brigadistas presos na região de Alter do Chão, no Pará. Eles foram acusados de provocar incêndios e venderem imagens, que teriam sido usadas por ONG para conseguir doações. Essa investigação disse que DiCaprio doou US$ 500 mil para as ONGs, o que foi negado pelo ator.