Vermelho petista, crochê, tons quentes e Brasil raiz ditam a moda nesta SPFW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O vermelho não consta na lista de cores dos birôs de tendências. Segundo a Pantone, por exemplo, seria algo próximo ao violeta. Também não foi das mais vistas na última temporada de desfiles internacionais, mas, nesta que ocorre no Brasil, a cor é o último grito de estilo para estilistas que abriram o mar vermelho pedindo passagem para uma moda brasileira renovada.

Da mesma forma que ocorre no exterior, a conjuntura política e social influi diretamente naquilo que é posto na passarela e, depois, surge diluído em vitrines e calçadas sem que a origem das motivações sejam percebidas por quem veste as ideias.

Se em Paris a Guerra da Ucrânia e os medos gerados pelo conflito armado pairavam sobre as apresentações, agora são a cisão política do país, uma tentativa de retorno às origens do estilo nacional e a onda à esquerda que espelha o humor da população neste ano eleitoral a tríade resumida das passarelas deste calendário brasileiro fragmentado.

Ele começou em maio, no Dragão Fashion Brasil, em Fortaleza, estacionou na São Paulo Fashion Week no início deste mês, e terminará em julho quando a Casa de Criadores abrir os trabalhos na capital paulista.

Hoje, só é possível traçar onde nasce e como é usada essa moda, que fala diretamente aos jovens e não está nas planilhas da maior parte dos grupos de varejo, se os três forem lidos como um só.

Fará sentido, então, como os tons quentes começam na areia da praia, como fez a estilista Rafaela Caniello, da Neriage, atravessam o entardecer nos alaranjados de David Lee e os terrosos do semiárido pincelados por Airon Martin, da Misci, até explodirem nos tons de vermelho como as da cearense Marina Bitu ao fundir toda essa cartela.

Há poesia na obra desses estilistas, que olham com lupa as possibilidades de matéria-prima e como a costura clássica converge com a brasileira. O efeito sanfona dos plissados, uma das técnicas mais vistas nos desfiles, é aplicado em túnicas e em saias que dançam abertas, distantes do padrão lápis apertado que é um dos caminhos de estilo no hemisfério norte.

O corpo não é um problema para as marcas que surgem no horizonte ensolarado, faça chuva, faça sol. Por isso, caiu tão bem às araras nacionais a tendência "cut out", que rasga o tecido nas laterais do tronco, nos colos e em buracos geométricos no abdômen, como fez Weider Silveiro em seus conjuntos metalizados e a Bold Strap, de Peu Andrade, numa das coleções mais sexies da estação.

Andrade resume bem esse apelo desinibido para o corpo, com minissaias e tops que estão por todos os lados desta temporada, até em coleções mais etéreas como a de André Boffano, da Modem.

Há mesmo um tom selvagem nessas coleções, que contrastam com os resquícios de alfaiataria que rondam os desfiles, a exemplo da desconstrução promovida por Rocio Canvas, Anacê e Silvério, em São Paulo, em que os conjuntos de blazer, camisaria e calça caminham ora desajustados, ora maximizados, nunca, porém, sob os pilares simétricos demais.

São, porém, as texturas que mais chamam a atenção no dicionário dessa nova geração. Elas encontram em Fortaleza o centro de suas agulhas do tipo exportação, com o trabalho minucioso da grife de acessórios Catarina Mina, de Celina Hissa, que pela primeira vez apresentou roupas.

Não quaisquer umas, vale ressaltar. Em parceria com o grupo Olê Rendeiras, da região do Trariri cearense, Hissa criou de vestidos balneário a peças de praia que fundem o tecido plano com saber manual, da palha à renda de bilro, num tipo de trabalho próximo ao de grifes do calendário internacional, a exemplo da Loewe, em Paris, e da Bottega Veneta, em Milão.

Reside aí um ponto importante para entender o que acontece nos bastidores da moda. Demorou, mas chegou à mesa de corte nacional a apropriação dos traços culturais do país.

O artesanato virou moda de luxo desde que os estilistas daqui perceberam que, enquanto marcas estrangeiras surfam na onda artesanal —a Prada lançou, por exemplo, rasteirinhas parecidas com as da feira de Caruaru, em Pernambuco, e a Alexander McQueen, uma coleção com estampas similares a xilogravuras— os designers perdiam tempo tentando se adaptar ao jogo internacional de tendências.

Então, não será surpresa ver cada vez mais uma moda praia como a da Sau Swim, toda feita em crochê, ou uma coleção versátil como a da Ateliê Mão de Mãe, que, por meio da mesma técnica de crochetaria, refez shorts, hot pants, tops e camisas para combinar com peças leves de linho.

O tecido faz par com a seda na escolha de grifes mais atentas ao vaivém de temperaturas, e a carioca Handred domina essa seara. A Misci, por sua vez, ao usar os fios mais puros de Londrina, no Paraná, de onde partem os rolos de seda rara usada pela Hermès, eleva a roupa a um patamar que não se via por aqui desde os anos 1990, quando as fiações começaram a falir com a concorrência chinesa.

As marcas adotaram esse verniz nacionalista também nas estampas, mas, em vez de se acomodar nas referências à bandeira brasileira, aprimoram estudos amplos sobre as raízes africanas e a produção artística do país.

É preciso olhar de perto para perceber que os efeitos óticos da Meninos Rei revelam a herança negra gravada em desenhos tridimensionais, que os triângulos dispostos em conjunto na Neriage guardam semelhança com as bandeiras de Alfredo Volpi e as linhas de David Lee são arte cinética. O Brasil está nos detalhes, em cada técnica e desenho das coleções.

O viés político e as críticas ao governo de Jair Bolsonaro foram pano de fundo para uma temporada que marca o renascimento da criação pós-pandêmica. É um momento de fragmentação do calendário que há muitos anos se aventa, porém, só agora, parece ter ganhado musculatura para cruzar marés, sejam de quais cores estejam em voga.

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