A verdade que ninguém fala sobre não conseguir amamentar

Vida e Estilo International

O NEW MOM explora as brilhantes, terríveis, maravilhosas e confusas realidades da maternidade. É para qualquer pessoa que quer ser mãe, é uma nova mãe, foi uma nova mãe, ou simplesmente quer razões muito boas para nunca ser uma nova mãe.

Um dia depois de eu ter dado à luz, uma consultora de amamentação me visitou no hospital. “Estou preocupada com você,” disse ela, me observando enquanto eu colocava o rosto do meu menininho no meu mamilo. Ela corrigiu a minha técnica, analisou o tamanho da língua do bebê (um pouco curta) e depois transferiu sua atenção para os meus seios. Eles não eram, segundo ela, muito grandes. Eles cresceram muito durante a gravidez? Não muito, eu respondi. “Estes tubos podem ter problemas,” disse ela, apontando para o meu seio. “Você vai precisar de uma consultora de amamentação assim que chegar em casa”.

Eu era mãe há um dia e já tinha um motivo para me sentir mal. Mesmo sendo esse o meu primeiro filho, eu sempre soube que amamentar era algo importante – eu só não entendia muito bem o porquê. Eu havia ouvido longas conversas entre amigas mães sobre amamentar e pensava, Jesus, amamente ou não, vai dar tudo certo. Os estudos pareciam difusos em relação à diferença de longo prazo entre um bebê amamentado e alimentado com fórmula. Talvez alguns pontos de QI a mais, alguns benefícios para o microbioma, um sistema imunológico mais forte? Ou, talvez não.

O que eu não entendia até estar naquele quarto de hospital, enfiando o rosto do meu pobre filho no meu peito mole, era a natureza primitiva da situação. De repente, você precisa oferecer nutrientes suficientes para sustentar a vida de outro ser humano, usando apenas o seu corpo. É muita pressão, sem falar da dor. Horas depois do nascimento do meu filho, eu já havia desenvolvido o tipo de atitude desesperada que eu estava determinada a evitar: amamentar a qualquer custo.

Dois dias mais tarde, outra consultora de amamentação veio à minha casa e trouxe uma balança. Fora do hospital, nós agora estávamos em uma corrida para que o leite “descesse” – e substituísse o colostro, líquido amarelo rico em nutrientes, secretado durante os primeiros dias do recém-nascido.

A consultora observou enquanto eu amamentava, depois pesou o bebê (sem mudança), e depois me apresentou a bomba para tirar leite. Nós traçamos um novo plano: em vez de alimentar o bebê uma vez, diretamente no peito, eu iria amamentar, depois fazer a ordenha com a bomba, e depois dar a ele um pouco de fórmula usando um pequeno tubo e uma seringa, em um processo conhecido como “amamentar com a mão”. A ideia era evitar a “confusão de bicos”, causada por expor o bebê a um bico de plástico quando ele tem que se acostumar ao mamilo. Naquela altura, eu ainda esperava que conseguiria alimentá-lo com leite materno quando ele descesse. Este método demorava mais de uma hora, e o bebê precisava se alimentar a cada duas horas. No entanto, a visita à pediatra não foi animadora. “Ele está perdendo muito peso,” ela disse. “Ele precisa comer”.

Onde estava o meu leite? Eu ficava imaginando um navio tentando chegar ao porto. Quem poderia me ajudar?

É claro que fui buscar a resposta na internet.

No meio da noite, comecei a pesquisar e comprar produtos para aumentar meu fornecimento de leite – suplementos à base de ervas, um mix para preparar “biscoitos de amamentação”, chás de vários tipos. Li centenas de relatos sobre o assinto, e me familiarizei com a estatística de que apenas entre 1% e 5% das mulheres não conseguem amamentar, por várias razões médicas das quais raramente ouvimos falar. O restante, ao que parece, simplesmente não está tentando o suficiente.

Depois de cinco dias passando metade do meu tempo dedicada à alimentação do meu bebê, a consultora de amamentação voltou. Naquela altura, eu estava destruída. Eu não dormia há dias. Ela observou enquanto eu amamentava novamente e depois enquanto eu tirava leite com a bomba. Ela foi delicada, concordou com a maioria das coisas que eu disse, e então eu fiquei surpresa com a firmeza da sua avaliação: “Você não tem tecido glandular suficiente para sustentar a amamentação,” ela disse. “Algumas mulheres simplesmente não têm”. Minha melhor estratégia era fazer a ordenha com a bomba a cada cinco horas, não necessariamente quando meu filho estivesse com fome, dar a quantidade de leite materno que eu conseguisse ao bebê, e oferecer a fórmula como a “refeição verdadeira”. E chega de “amamentar com a mão”. Nós não nos importávamos mais com a “confusão de bicos”.

Imediatamente depois de ouvir a notícia de que eu não conseguia produzir muito leite, eu fiz o que tinha feito a semana anterior inteira – chorei. Eu estava triste. Mas quando voltei à internet, comecei a ficar brava. Nas centenas de posts em blogs, relatos e histórias do estilo WebMD que li, ninguém havia mencionado uma palavra sequer sobre tecido glandular.

A hipoplasia da glândula mamária – ou tecido glandular insuficiente – é uma condição em que o tecido mamário do seio é substituído por tecido adiposo. É uma das principais causas do fracasso primário da amamentação, ou dificuldade de produzir leite suficiente. (Também há o fracasso secundário da amamentação, ou a incapacidade de manter o fornecimento de leite). Há diversas teorias sobre por que algumas mulheres não desenvolvem material produtor de leite suficiente durante a adolescência: alguns estudos apontam a exposição a toxinas, enquanto outros falam sobre a resistência à insulina como uma causa. O diagnóstico – e a palavra “diagnóstico” pode ser um exagero para descrever a forma como muitas mulheres descobrem o problema – é feito por meio de um exame visual. A aparência dos seios com tecido glandular insuficiente é diferente: em forma de tubo, largos, assimétricos, e com auréolas grandes.

Um tubo. Era sobre isso que a primeira consultora de amamentação estava falando. No entanto, ela nunca discutiu o assunto diretamente. Em nenhum momento alguém disse: “Olha, talvez você não consiga amamentar”. Incontáveis vezes, eu recebi a mensagem de que toda mulher é capaz de amamentar.

Para ter mais clareza sobre o tema, entrei em contato com Diana Cassar-Uhl, consultora de amamentação que escreveu um livro sobre a hipoplasia mamária em 2014. Ela rebateu a estatística de 1% a 5% imediatamente. “Aquele 5% foi estabelecido numa publicação acadêmica de 1985, e desde então foi muito citado, mas nunca melhor embasado,” escreveu ela, por e-mail. Diana, assim como outras pessoas com quem eu conversei, acredita que este número era mais preciso nos anos 80, quando menos mulheres amamentavam. Agora, com a maioria das mulheres tentando amamentar depois de sair do hospital, mais problemas estão surgindo. Sua estimativa, baseada num estudo mais recente, é de que 12% a 15% das mulheres têm “amamentação interrompida,” uma estatística que inclui mais do que “não ter leite suficiente” como razão para parar de amamentar.

Na opinião de Diana, entender quem tem uma barreira física que impede a produção de leite e quem tem problemas sociais ou psicológicos, ou até questões mecânicas, não é o ponto mais importante. “Eu sou da opinião de que não importa se a mulher poderia ter produzido um fornecimento completo de leite com ‘esforço suficiente,’” ela escreveu. “Se o percurso normal da amamentação (que costuma ser mal-entendido ou considerado impossível por muitas mulheres) não é suficiente para nutrir exclusivamente o bebê, há um problema que precisa ser discutido”.

Linda J. Smith, líder da La Leche League e parte do Conselho de Diretores do La Leche League International, concorda que provavelmente mais de 5% das mulheres enfrentam sérios problemas de fornecimento de leite, mas apontou outras barreiras institucionais para a amamentação, como a licença-maternidade curta ou inexistente, como problemas mais comuns. Ainda assim, ela concorda que “a mensagem de saúde pública em relação ao assunto é muito delicada”.

“Se você estivesse me telefonando e dissesse que seu problema era possuir um tecido glandular insuficiente, eu teria com você uma conversa ligeiramente diferente da que teria como apoiadora do conselho,” disse Linda. No meu entendimento, ela quis dizer que reconhecer a realidade de que algumas mulheres não são capazes de produzir leite suficiente é complicado, diante de tantas questões que podem ser prevenidas e consertadas, enfrentadas pelas mulheres.

Ainda assim, fica claro que um fornecimento insuficiente de leite não é apenas uma ilusão. Um estudo de 2008 mostrou que “eu não tive leite suficiente” e “o leite materno sozinho não satisfaz o meu bebê” são as duas principais razões pelas quais as mulheres param de amamentar durante os primeiros dois meses de vida do filho. Em 2014, um estudo que analisou a “amamentação interrompida” descobriu que ela afetava uma em cada oito mulheres que começava a amamentar, ou cerca de 12% – este foi o estudo citado por Diana Cassar-Uhl. Esta é, no entanto, uma estimativa aproximada. “Para determinar a verdadeira prevalência da interrupção precoce e não planejada, devido a disfunções na amamentação, seria necessário fazer um estudo prospectivo e longitudinal, que incluísse avaliações clínicas de cada dupla de mãe e filho,” escreveram os autores do estudo.

Este tipo de pesquisa poderia ajudar as mulheres de formas que vão muito além de poderem ou não amamentar fisicamente. Nós sabemos, por exemplo, que mulheres acima do peso e obesas amamentam menos que as outras, e que a amamentação exclusiva (e por períodos de tempo mais longos) parece estar associada a uma saúde metabólica melhor. Mulheres que relatam ter tido depressão pós-parto também tendem a amamentar menos, e por períodos mais curtos de tempo, mas ainda não sabemos ao certo o que esta relação significa. Pessoas negras ou pardas têm um risco mais de duas vezes maior de desenvolver diabetes tipo 2 do que outros grupos; o fato de que elas têm os dois menores índices de início da amamentação entre todos os grupos étnicos e raciais nos Estados Unidos é uma coincidência? E se mudássemos o paradigma, como um estudo de 2015 sugeriu, e observássemos a incapacidade de amamentar como um sinal de que algo está errado com a saúde da mulher? Nós poderíamos ajudar mães – e bebês – com pesquisas relacionadas à amamentação. Infelizmente, este trabalho ainda precisa ser feito.

“Nós estudamos o que valorizamos,” disse Linda. ‘A amamentação ainda não é valorizada”.

O que mais acontece quando não falamos sobre as limitações da amamentação, e focamos apenas em incentivar as mulheres a continuar tentando? Nós as enlouquecemos. Isso é observado até na linguagem seca da pesquisa acadêmica. “Encontramos diversas mulheres que tomaram medidas extraordinárias para amamentar,” escreveram os autores do estudo de 2014. “Elas consultam vários especialistas, ingerem incontáveis preparações à base de ervas, mantêm cronogramas em que fazem a ordenha de hora em hora, investem em um sistema de nutrição suplementar, e aplicam pomadas tópicas, num esforço para estabelecer um relacionamento normal de amamentação. Para estas mães, a amamentação interrompida é uma catástrofe”.

Eu percebi este comportamento na minha análise dos fóruns de amamentação as 4 horas da manhã. O esforço que as mulheres estão dispostas a fazer para amamentar é incrível: elas prendem pequenos tubos aos seios para dar fórmula ao mesmo tempo em que fornecem leite materno, para manter o contato com o bebê intacto; elas importam um medicamento não aprovado pelo FDA do Canadá por acreditarem que ele pode ajudar no fornecimento de leite; elas fazem a ordenha e amamentam, e fazem a ordenha e amamentam por meses, mesmo sabendo que uma quantidade muito pequena de leite está saindo de seus corpos. Sono, trabalho, outros filhos, parceiros – todos os outros aspectos da vida parecem ficar em segundo plano diante da necessidade de ser uma mãe que amamenta.

Infelizmente, em alguns casos estes esforços acabam prejudicando os bebês. A organização Fed Is Best existe para promover uma mensagem mais inclusiva associada à alimentação com fórmula. Na sua literatura, eles afirmam que há um número de bebês que morrem devido às tentativas das mulheres, contra todos os prognósticos, de amamentar exclusivamente no peito.

Qual é a conclusão por trás de tudo isso? De muitas formas, o sistema funcionou perfeitamente para mim. Eu tive a ajuda de diversas consultoras de amamentação, começando no hospital. Testei as habilidades dos meus seios passando alguns dias amamentando, fazendo a ordenha e dando fórmula, e vi o resultado: o bebê só ganhava peso com a fórmula. E ainda assim, eu me sentia mal.

É condescendente não dizer às outras mães a verdade sobre a amamentação – não apenas que é difícil, toma muito tempo, e muitas vezes dói, mas também que pode não ser algo fisicamente possível para mais mulheres do que imaginamos. “Eu aprendi que sempre funciona,” diz Marianne Neifert, professora de pediatria na Escola de Medicina da Universidade do Colorado em Denver, palestrante profissional, e autora de alguns dos primeiros estudos observando o fracasso da amamentação nos anos 80 e 90 (ela cunhou o termo “fracasso primário da amamentação”). “Por que nós falaríamos isso? Nenhum órgão funciona sempre”. As mulheres com um baixo fornecimento de leite, segundo ela, têm “o coração partido de não terem conseguido amamentar e o insulto extra de ouvirem que aquilo foi culpa delas”.

O que se fala atualmente sobre a amamentação é uma armadilha. De acordo com a consultora de amamentação Diana Cassar-Uhl, nós estamos tratando a amamentação como um “‘crédito extra’ que as ‘boas mães’ fazem, e não a progressão normal e biológica após a gestação e o parto”. Isso define um mundo para as mulheres sortudas que têm apoio suficiente para contemplar uma atividade que consome tanto tempo, e outro mundo para aquelas mulheres que, por exemplo, precisam voltar ao trabalho duas semanas depois de dar à luz. “Eu vejo que as pessoas que ficam mais tristes quando não conseguem, tendem a ser as famílias com bebês com o menor risco de problemas de saúde associados à falta da amamentação – que também são pessoas com características demográficas mais propícias para atingir as métricas de amamentação”.

“Isso sugere que a nossa sociedade, de certa forma, moralizou a escolha de alimentação dos bebês em vez de normalizar a amamentação, e isso é problemático por muitos motivos”.

Uma semana depois de descobrir a respeito dos meus problemas glandulares, conversei com a minha doula pelo telefone. Eu pensei que ela só queria ver se estava tudo bem, então monopolizei a conversa, atualizando-a sobre a alimentação e o sono do meu filho, e mencionando que queria escrever sobre tudo aquilo. Finalmente, ela transmitiu sua própria mensagem – ela queria se desculpar.

Ela explicou que estava fazendo aulas para se tornar consultora de amamentação, e durante aquela primeira tentativa de amamentação na sala de parto, ela também havia pensado que os meus seios poderiam ser um problema. Assim como a primeira consultora, ela não mencionou sua preocupação – de que eu poderia não conseguir amamentar. Naquela altura, eu me perguntava quem havia visto meus seios e não tinha pensado que eu tinha tecido glandular insuficiente. Meu namorado da faculdade? Minhas colegas de vestiário no colegial?

Aquilo me lembrou da conversa que tive com a consultora de amamentação no final da sua segunda e última visita. Enquanto guardava a balança, ela parou por um segundo. Logo no início eu havia compartilhado com ela as palavras da primeira consultora no hospital, e estava me dando conta de que ela provavelmente também havia notado minhas potenciais limitações, cerca de uma semana antes de oferecer sua opinião de especialista. “Qual seria a forma ideal de descobrir isso?” ela perguntou.

Boa pergunta. Não quero falar por todas as minhas irmãs com tecido glandular insuficiente, mas eu gostaria de ter tido informações claras desde o começo. Eu gostaria de saber que era possível que não conseguisse produzir leite. Amamentar é incrível e importante; eu ainda teria tentado as ordenhas, as mamadas, e até as ervas desesperadas da Amazon, mas conhecer todos os detalhes sobre os potenciais obstáculos teria sido um grande alívio.

Reyhan Harmanci