Van Gogh apoiaria ataque à própria obra, afirma porta-voz do grupo Just Stop Oil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No mês passado, uma sopa de tomate atraiu olhares do mundo inteiro, ao ser arremessada sobre a tela de um dos quadros mais famosos da história —"Girassóis", do pintor Vincent Van Gogh.

Desde então, o quadro, que não foi danificado por estar protegido por uma película de vidro, se tornou o maior símbolo de um protesto cada vez mais recorrente, no qual museus viram campos de batalha e obras de arte são alvo de ataques de ativistas ambientais.

O principal nome por trás desses atos é o do coletivo britânico Just Stop Oil, ou pare com o petróleo, em português.

Fundado no início deste ano, o grupo organizou atos que atacaram pinturas como "Girassóis", "A Carroça de Feno", de John Constable, uma réplica de "A Última Ceia", de Leonardo Da Vinci, "Moça com Brinco de Pérola", de Johannes Vermeer, além das molduras de uma série de obras de Francisco de Goya, no Museu do Prado, em Madri.

Na semana passada, dois homens envolvidos nessas ações foram condenados a dois 
meses de prisão na Holanda.

Na tentativa de frear os protestos, que se espalham pelo mundo e são repetidos por 
outros grupos ambientais, representantes do governo britânico criaram um projeto de lei que busca endurecer penalizações a ativistas que causem distúrbios à população.

Ainda que a maioria dos atos não tenha danificado as obras, que, em geral, ficam protegidas por vidro, o quadro "A Carroça de Feno", que integra o acervo da National Gallery, em Londres, precisou passar por restauro, em julho.

Porta-voz do Just Stop Oil, o ambientalista James Harvey afirma que o objetivo do coletivo é chamar a atenção para assuntos relacionados ao meio ambiente, sobretudo os ligados à emissão de gases e petróleo. A tentativa é pressionar os governos de todo o mundo a implementarem, com urgência, políticas públicas que barrem a exploração de combustíveis fósseis.

Em entrevista realizada por videoconferência, o ativista comentou a fama negativa que o coletivo vem ganhando e o impacto de seus protestos, que, segundo ele, devem aumentar pelos próximos meses.

Segundo James Harvey, se Van Gogh estivesse vivo, apoiaria o ataque à própria obra.

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Folha - O que querem, afinal, os ativistas do grupo Just Stop Oil? 

James Harvey - Estamos exigindo que os governos suspendam as novas licenças de petróleo e gás. Sabemos que existem recursos suficientes para fazermos uma transição para energias renováveis. Temos oito anos de abastecimento, então essa transição precisa e pode acontecer o mais rápido possível.

Folha - Por que atacar obras de arte para atingir essas metas? 

James Harvey - Já tentamos de tudo. Escrevemos petições, falamos com políticos, marchamos, erguemos cartazes. Nada funcionou. Nós precisamos desesperadamente interromper as emissões de gás de petróleo.

Este ano foi o mais quente do Reino Unido. Pela primeira vez, tivemos temperaturas de 40 graus. Na África, as pessoas estão morrendo. No Paquistão, populações foram deslocadas de suas casas. Tudo devido à crise climática.

Folha - Mas, para combater esse cenário, é eficaz atacar obras de arte?

James Harvey - Sim, fomos convidados a dar várias entrevistas por causa disso. Com isso, podemos mostrar às pessoas como a crise climática está diretamente atrelada ao risco de vida que elas estão correndo.

Folha - Não é desrespeitoso com os artistas por trás das obras? 

James Harvey - Van Gogh estaria disposto a fazer ações diretas pelo meio ambiente. Ele era um pouco rebelde. Se visse a situação do mundo atual, provavelmente concordaria que é preciso agir.

Nenhuma obra que atacamos foi realmente depredada. A ideia é só chamar a atenção. Nós valorizamos a arte.

Folha - Muitas pessoas dizem que esses protestos são estúpidos. Como o senhor vê essa crítica? 

James Harvey - Nós temos muitas pessoas agindo conosco. Há médicos, enfermeiros, estudantes, aposentados, professores. Nosso grupo tem um espectro amplo da sociedade.

Pode haver quem veja essas ações como estúpidas, mas, independente disso, elas chamam atenção da mídia.

Protestos não violentos foram a última opção em vários momentos da história. No Reino Unido, as mulheres conseguiram o voto por meio das sufragistas. Nos Estados Unidos, a luta pelos direitos civis liderada por Martin Luther King contou com uma ação direta não violenta. Na Índia, houve Mahatma Gandhi com o movimento pela independência. Na África do Sul, a luta anti-apartheid.

A ação direta traz mudanças. Mas é importante ter em mente que todas essas pessoas eram odiadas pelo que faziam. O mesmo está acontecendo, agora, com a gente.

Podem até nos chamar de estúpidos, mas há precedentes históricos que mostram a eficácia dessa ação direta.

Folha - Num mundo onde muitas pessoas morrem de fome, o desperdício de comida é um problema grave. Ainda assim, vários dos protestos da Just Stop Oil usam alimentos. Isso não seria uma hipocrisia? 

James Harvey - Muita gente nos chama de hipócritas dizendo que roupas, alimentos, carros e muita coisa que consumimos surgem a partir do uso de petróleo e gás.

Mas, neste sistema, somos todos hipócritas. É impossível viver uma vida diferente disso. Claro, queremos ser capazes de viver num mundo mais sustentável, justo e igualitário, mas, neste momento, não temos outra escolha.

Pode até ser estranho usarmos comida nos protestos, mas a mensagem que queremos passar é transmitida.

Folha - Com tantas críticas negativas aos protestos, será que os senhores não afastam mais pessoas da luta ambiental do que aproximam? 

James Harvey - Não. As pessoas podem até odiar o Just Stop Oil, mas a luta ambiental é cada vez mais discutida.

Há muita gente dizendo que estamos prejudicando a causa, mas várias pessoas entendem a gravidade da situação e concordam com a necessidade dessas ações diretas.

Folha - Pensando nisso, o que o senhor considera mais importante? Ações moderadas que são ignoradas, ou protestos extremos que conseguem chamar a atenção, apesar de poderem ser contraproducentes para os objetivos do ato? 

James Harvey - Honestamente, as duas coisas. Você pode ter atos mais, digamos, moderados, como a assinatura de petições. Não atrapalham ninguém, mas são ignoradas. Ao mesmo tempo, também são necessárias ações mais radicais, com pessoas nas ruas criando essa tensão. Em certa medida, ambos os ativismos se complementam.

Folha - O que o Just Stop Oil faz na luta ambiental para além de atacar obras de arte? 

James Harvey - Em outubro, houve bloqueios em Londres e Westminster para pressionar o governo a fazer uma declaração sobre a suspensão de novas licenças para petróleo e gás. Paramos o trânsito até a polícia chegar e prender as pessoas. Também fizemos atos em refinarias de petróleo, impedindo a operação de navios, tanques e usinas.

As ações que atacam obras de arte são, na verdade, pequenas. Elas só ganharam muita força por causa da mídia.

Entregamos ao governo britânico um prazo para fazer uma declaração sobre a suspensão de novos projetos de exploração de petróleo e gás. Se não nos responderem, continuaremos a campanha de desobediência civil e resistência.

Queremos só uma chance de termos uma vida mais sustentável e justa no futuro.

Folha - Como o senhor avalia a questão ambiental no Brasil e o resultado da eleição no país? 

James Harvey - Fiquei muito empolgado ao ver que Lula foi eleito presidente. É um alívio para o mundo. Esperamos ajudar a proteger a Amazônia. Dependemos dela.

Não sou um especialista em Brasil, mas sei que as políticas de Bolsonaro não foram nada gentis com o meio ambiente e os povos indígenas. Ele permitia a extração de madeira e a destruição da floresta, o que afeta a todos nós.

Folha - Então, está esperançoso com o futuro da Amazônia?

James Harvey - Sim, a mudança de governo no Brasil me dá esperança. Os Estados Unidos tiveram o Donald Trump e, agora, têm Joe Biden, que é melhor. Esperamos que Lula também seja.

Talvez as pessoas estejam percebendo a urgência de termos líderes mais sensatos. Ainda há um longo caminho a percorrer para um planeta saudável. Precisamos de 
otimismo e realismo. Temos uma luta difícil pela frente.

RAIO-X | JAMES HARVEY, 47

É gerente de projetos, ativista ambiental, ciclista e porta-voz do Just Stop Oil, grupo fundado neste ano com o objetivo de pressionar governos ao redor do mundo a suspenderem novas licenças para a exploração de gás, petróleo e combustíveis fósseis. O coletivo vem ganhando as manchetes ao organizar uma série de protestos em museus, atacando obras de arte famosas