Vale tudo pelo engajamento? Precisamos parar de dar palco para Adriana Sant'Anna

·6 minuto de leitura
A coach Adriana Sant'Anna gerou polêmica com uma série de Stories falando sobre trabalho doméstico (Foto: Instagram / Adriana Sant'Anna)
A coach Adriana Sant'Anna gerou polêmica com uma série de Stories falando sobre trabalho doméstico (Foto: Instagram / Adriana Sant'Anna)

Em uma série de Stories, a ex-'BBB' Adriana Sant'Anna conta que está desesperada em busca de uma empregada nos Estados Unidos. A coach relatou para os seus então 4 milhões de seguidores que, além dos salários caros, estava indignada porque "precisava trabalhar", mas tinha que passar o dia cuidando da casa.

Algum tempo depois, ela voltou para redes sociais. Desta vez, fez uma série de postagens sobre um curso que está oferecendo de forma gratuita, sobre métodos de vendas no Instagram. Em seguida, a comemoração: mais de 170 mil visualizações nos primeiros cinco minutos dos Stories postados mais cedo, sobre a questão da empregada, e mais alguns outros sobre a comemoração dos já mais de 50 mil inscritos no tal curso em um único dia.

Leia também

Para quem entende um pouco de marketing, a sequência de postagens de Adriana é, no mínimo, suspeita. Com certeza, ela percebeu que os Stories sobre a busca por uma empregada viralizaram nas redes - e, de fato, ela virou um dos trending topics no Twitter -, e aproveitou o boom de visualizações e visitas no perfil para anunciar o próprio curso e conseguir mais inscritos.

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.

Não à toa, ela aproveitou também para fazer uma postagem no feed sobre o mesmo assunto - ou seja, o crescimento exponencial de público não passou despercebido e a atenção retida no seu perfil foi muito bem aproveitada, diga-se de passagem. "Conta comigo para te ensinar a ganhar $$ usando o Instagram", escreveu ela no Stories de "comemoração" pelo alto engajamento. "Vou te ensinar como vender o seu produto ou serviço ou te ensinar a ser uma influenciadora! O que quiser! Vem comigo!", continua.

Uma análise de discurso

Olhando mais de perto, é importante entender o que gerou o boom de engajamento de Adriana Sant'Anna. De forma quase cômica (mas que não fez ninguém rir), ela até canta em espanhol sobre o quanto está "sofrendo" porque não tem alguém para limpar a casa, passar a roupa, cuidar da cozinha e das crianças enquanto trabalha.

O Brasil tem uma das maiores populações de trabalhadores domésticos do mundo - são mais de seis milhões, segundo o IBGE. Mas se engana quem pensa que todos eles têm carteira assinada e recebe 13.º ou têm férias remuneradas, como prevê a lei. Na verdade, dos seis, mais de 4 milhões trabalham na informalidade.

Não é preciso saber muito para deduzir duas coisas importantes sobre o tópico:

  1. As casas brasileiras que, de fato, contam com um trabalhador doméstico em tempo integral são poucas (vale lembrar que o país tem uma população de mais de 200 milhões).

  2. O trabalho doméstico, no Brasil, é extremamente desvalorizado.

É aí que entra a polêmica das postagens de Adriana. Nos Estados Unidos, a situação é diferente e o trabalho doméstico é extremamente valorizado e regulamentado. Tanto que a função não é tão comum por lá quanto por aqui - não é todo mundo que consegue bancar um trabalhador doméstico em tempo integral. 

Ou seja, o que Adriana tem vivido é a realidade de muita gente por lá e, também, no Brasil, em que cuidar da casa têm feito às vezes de segundo emprego, principalmente com a pandemia de coronavírus, colocando uma carga mental cada vez maior na cabeça, principalmente, das mulheres.

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.

Vale notar que, dentre os trabalhadores domésticos no Brasil, a maioria é mulher e, desse grupo, a maioria é negra. Também não é difícil traçar que o trabalho doméstico é, na verdade, uma herança da escravidão que ainda hoje mostra sinais de não ter terminado, como muita gente acredita. Aliás, em outro momento, Adriana gerou polêmica justamente por usar a escravidão para falar sobre um jeito de pensar que "acorrenta" a evolução de alguém em uma live. Dias depois, falou em outra live que sua fala foi tirada de contexto e que as medidas jurídicas cabíveis seriam tomadas. Mas é de se pensar se, naquela época, o seu engajamento também aumentou.

Por que continuamos a dar "palco pra maluco"?

A questão do trabalho doméstico no Brasil é complexa, longa e profunda e é preciso tempo e paciência para compreendê-la. No entanto, não é necessário muito para ver como a situação de privilégio de Adriana gerou engajamento e, provavelmente, vai gerar mais vendas e mais dinheiro para ela.

Um ponto importante é lembrar que graças a essa precarização da mão de obra doméstica, as mulheres brancas puderam entrar no mercado de trabalho, terceirizando funções para outras menos privilegiadas enquanto conquistavam espaço no meio profissional. E aqui cabe uma longa discussão, inclusive, sobre feminismo negro.

Discursos como esse podem revoltar, mas também geram um engajamento que, para quem trabalha com internet, gera resultados financeiros muito positivos. Muitas vezes, não importa se o discurso é negativo ou não, desde que entregue resultados. Em raras exceções, quando a pessoa é, de fato, "cancelada", o resultado de uma polêmica é mais visibilidade para uma pessoa que falou algo considerado errado.

Mas, ao invés de ignorar e, mais do que isso, evitar consumir esse conteúdo, as pessoas fazem o movimento contrário - seja por curiosidade ou só para passar raiva mesmo. Resultado? Engajamento mais alto.

Muito se diz também sobre a proximidade de Adriana com a família Bolsonaro, o que colaboraria ainda mais para esse "engajamento de ódio", em que as críticas ao comportamento da influenciadora aumentam na mesma proporção que as suas visualizações na rede social.

Também se fala bastante sobre a economia da atenção e como vivemos um momento em que o que gera vendas na internet é, justamente, o nosso tempo de atenção retido em uma rede social ou site. Se isso é, de fato, verdade, então o mais interessante seria dar atenção a pessoas que realmente merecem, e não aumentar as visualizações de alguém que perpetua uma visão privilegiada e escravocrata da sociedade.

Se essas pessoas precisam mudar? Sim, precisam. Mas quem consome esse conteúdo e depois "xinga muito no Twitter" também precisa. Quanto mais visibilidade pessoas com discursos como o de Adriana tiverem, mais tempo elas se mantém como relevantes no meio que habitamos. E, vamos combinar, brasileiro (consciente) nenhum aguenta mais esse tipo de conversa.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos