Vai ter gorda no pole dance? Mulheres formam coletivo e provam que sim

Lucas Pasin
·4 minuto de leitura
Drea Costa, praticante de pole dance que criou o 'Pole Gordas' (Foto: Divulgação)
Drea Costa, praticante de pole dance que criou o 'Pole Gordas' (Foto: Divulgação)

“Sim, o pole me aguenta”. É com esta frase que Andrea Costa, praticante e instrutora de pole dance, se apresenta em seu perfil no Instagram. A influencer, cansada de ouvir comentários gordofóbicos e machistas, se uniu a outras mulheres gordas e criou o coletivo ‘Pole Gordas’, uma iniciativa de representatividade para incentivar meninas que, assim como ela, tiveram dificuldade em encontrar referências fora do tal ‘corpo padrão’ na prática do exercício físico.

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Drea, como gosta de ser chamada, e mais outras duas mulheres do ‘Pole Gorda’, conversaram com o Yahoo e relataram momentos de insegurança e medo de críticas ao decidirem se entregar ao pole dance. Porém, algo em comum serviu de motivação para elas: a vontade de provar que sim, a mulher gorda pode tudo.

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"Também tive dúvidas se o pole era realmente para todos. As referências de forma geral estão sempre dentro de um padrão. São pessoas magras, brancas, cisgêneras, sem deficiência e jovens. Não só no pole, mas em todos os aspectos da vida, e isso só se repete em outros ambientes", conta Drea, que hoje, com 20 mil seguidores, é referência como mulher gorda no pole dance.

Drea Costa depois de uma apresentação (Foto: Divulgação)
Drea Costa depois de uma apresentação (Foto: Divulgação)

A carioca teve a ideia de criar o coletivo com outras mulheres e explica como a iniciativa surgiu: "Nos inspiramos em outro coletivo, o AFROntosas.pd, um grupo de mulheres negras que afrontam padrões na arte e na vida. Pensamos que seria válido expandir discussões que já tínhamos de forma privada. Fazemos reuniões virtuais. Somos 14 mulheres envolvidas diretamente no Pole Gordas. Organizamos, criamos conteúdo e levamos referência da prática para outras mulheres."

Isabella Espósito (Foto: Arquivo Pessoal)
Isabella Espósito (Foto: Arquivo Pessoal)

Negligências ao corpo gordo:

Estudante de Educação Física e instrutora de pole dance, Isabella Espósito também participa do coletivo e revela alguns comentários gordofóbicos que já recebeu por postar vídeos dançando.

"É sempre relacionado ao meu corpo. 'Ah, me manda o contato de quem fez essa estrutura do pole. Para aguentar você deve ser bem forte', dizem. Também falam que eu deveria tentar outra profissão porque 'stripper' não é para gorda. Ou seja, duplo preconceito porque nem strip-tease eu faço. E também não teria problema algum se fizesse”, diz ela, que reforça:” Agradeço por nada disso ter me abalado quando entrei no pole dance”.

Isabella aponta como o corpo gordo é negligenciado não só na atividade física: "As pessoas querem obrigar o gordo a emagrecer sem nem saber se é isso que ele quer. O gordo tem dificuldade de acesso à atividade física. O gordo tem dificuldade de acesso à saúde, ao transporte público. Existem coisas muito maiores que precisamos mudar, é toda uma estrutura gordofóbica que não nos aceita nos ambientes. Ser gordo não é uma doença, é só uma característica física."

'O pole dance mudou a minha vida. Sou outra pessoa'

Auxiliar administrativa, Beatriz Oliveira, de 19 anos, conheceu o pole dance quando decidiu apimentar a relação. Ao entrar num estúdio para a prática do esporte chegou a duvidar que era capaz e quase desistiu.

"Fazia aula com pessoas mais experientes do que eu e me comparava. Depois aprendi que em qualquer atividade física nós temos que treinar e conhecer nossos limites, e nunca se comparar ao outro", dispara.

Também participante do coletivo Pole Gordas, ela se emociona ao falar como o esporte salvou sua vida: "Sou outra pessoa. Melhorei minha autoestima, desconstruí pensamentos negativos na minha cabeça, passei essa desconstrução também para minha família e amigos, não tenho palavras para descrever esse amor que sinto. Hoje me visto diferente, me olho de outra forma no espelho, observo as pessoas de outra maneira. Tenho muito amor por quem sou hoje."

As três mulheres entrevistadas usam a hashtag #PDGordas no Instagram para que outras mulheres também encontrem referências nas redes sociais.

Beatriz resume o sentimento do coletivo com relação ao poder da mulher gorda no pole dance: "Ganhamos força, flexibilidade e resistência física, mas isso é o menos importante. O pole dance me ensinou a me ver como mulher. Aprendemos a olhar no espelho e não ter vergonha. Isso é o que mais gostamos. Essa é a nossa paixão pelo pole."