Uso a escrita para gritar um basta ao racismo, afirma a escritora Paulina Chiziane

LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - Vencedora da última edição do prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa, a escritora moçambicana Paulina Chiziane, de 66 anos, não esconde a alegria de estar novamente na estrada, depois de meses de reclusão por causa da pandemia.

"Eu não gosto de Zoom. Eu sou obrigada a usar a tecnologia. A máquina é bem-vinda, mas é bom estar com as pessoas", diz a autora, durante sua passagem por Portugal, onde esteve para uma série de compromissos profissionais, incluindo palestras em bibliotecas, universidades e sessões de conversas com lotação esgotada em livrarias.

Considerada uma das principais vozes da ficção africana, Chiziane estará em São Paulo em julho para participar da Bienal Internacional do Livro e de mais uma maratona de eventos.

Primeira mulher africana a vencer o prêmio Camões, ela foi também a primeira autora a publicar um romance em Moçambique, com "Balada de Amor ao Vento", em 1990.

A partir da protagonista Sarnau, o livro discute o papel das mulheres na sociedade moçambicana e expõe as muitas tensões identitárias, culturais e religiosas de um país que ainda consolidava sua identidade independente.

"Não publiquei mais cedo porque venho do regime colonial. A independência se dá quando eu já tinha mais de 18 anos. A condição de mulher também dificultou", ela diz. "Isso de casar, de ter filho e tudo mais fez com que eu só publicasse o meu primeiro livro aos 35 anos."

"Foram as circunstâncias históricas. Se fosse como hoje, com um país independente, eu acredito que poderia ter publicado muito mais cedo", reflete a autora.

O sucesso internacional chegou de vez com "Niketche: Uma História de Poligamia", publicado há 20 anos. A obra deu o que falar em seu próprio país ao abordar sarcasticamente o tabu das relações extraconjugais e a hipocrisia da sociedade em torno do tema.

"Quando eu comecei a publicar, diziam que deveria ser um livrinho de poesia, poeminhas de amor, de frustrações e coisinhas assim", ela lembra. "Mas quando foram ver o meu trabalho, alguns tiveram coragem de perguntar se era mesmo meu, se eu não teria copiado de alguém."

Mesmo quando faz poesia, Chiziane segue com reflexões sobre a realidade africana. Em "O Canto dos Escravos", editado em 2018, usa os versos para evocar as memórias dos milhões de negros violentamente arrancados do continente.

Nascida na província de Gaza, no sul de Moçambique, Paulina Chiziane cresceu nos subúrbios da capital, Maputo. Falante das línguas chope e ronga, aprendeu o português na escola e não poupa críticas ao que classifica como marcas discriminatórias do idioma.

"A língua portuguesa veio com o império, com as conquistas, com as descobertas. Por consequência, é uma linguagem de supremacia colonial", ela afirma. "Tem marcas de racismo, de supremacia, de machismo."

Na visão da autora, o uso de uma língua nascida na Europa traz, obviamente, limitações à descrição sobre o que existe na África.

"É um processo muito difícil. O escritor africano acaba sendo uma espécie de mau tradutor da sua própria cultura. Nós escrevemos, ou pelo menos tentamos escrever, sobre nossos assuntos culturais em língua portuguesa. Acabamos às vezes falhando, porque há expressões que não cabem, que não existem", diz.

Por causa dessas diferenças, Paulina Chiziane afirma que há uma crítica injusta em relação ao trabalho dos escritores africanos, muitas vezes "acusados" de fornecerem poucos detalhes sobre a flora ou a fauna em seus livros.

"A nossa fauna, a nossa flora, o nosso mar –tudo é nomeado com muita competência para as nossas línguas próprias. São coisas tropicais, não existem na Europa nem na língua portuguesa. Como é que vamos chamar e interpretar? Estamos sempre em uma dança entre uma língua e outra", reflete a escritora.

Na juventude, Chiziane chegou a atuar na Frelimo, a Frente de Libertação de Moçambique, mas não deu segmento à militância política intensiva após a independência de seu país, proclamada em junho de 1975.

Seus livros têm em comum o protagonismo feminismo, com uma abordagem direta para questões como a violência, o racismo, o machismo e os efeitos negativos do colonialismo. "Eu vivi o racismo no sistema colonial português. Na escola, nas estradas, em qualquer lugar", diz.

Entre os muitos exemplos de racismo que diz ter vivido, Chiziane relembra um episódio em sala de aula. Aos gritos, uma professora rasgou sua prova e adulterou suas notas para impedir que ela, a única estudante negra da classe, tivesse um resultado melhor do que os alunos brancos.

"O racismo marcou não só a minha escrita, não só o meu trabalho. Marcou toda uma geração, que é a minha. No meu caso, eu uso a escrita para gritar um basta, para fazer uma denúncia, mas, acima de tudo, para criar um debate para uma melhor compreensão entre as diferentes vivências", diz a autora.

Declaradamente avessa a rótulos, ela se esquiva de se afirmar como feminista, embora tenha uma atuação forte em programas sociais de apoio ao desenvolvimento feminino. "A mulher não desconhece a sua força", opina. "As instituições é que socializam a mulher e que fazem de tudo para reduzir a força feminina. A África não é uma ilha. Isso vem de séculos e séculos."

A convite do governo de Moçambique, a escritora visitou presídios do país e promoveu uma série de conversas com as detentas, muitas delas presas pelo assassinato dos próprios maridos, depois anos de abusos e de violência doméstica. A experiência deu origem a seu livro mais recente, "Voz do Cárcere", assinado em parceria com o filósofo Dionisio Bahule, publicado no ano passado.

"É um mundo muito complexo, com muitos dilemas e com muitos problemas. Mas, acima de tudo, também com grandes lições que podem contribuir para uma mudança para melhor da sociedade", diz Chiziane.

Depois de um período intenso de convivência com as mulheres nas prisões, a escritora defende a criação de programas de atenção voltados especificamente para esse público.

"Uma das críticas que as mulheres na prisão fazem é de que nunca foram ensinadas sobre a sua força. Elas se achavam fracas. Muitas só descobriram que eram fortes na hora da desgraça. Por isso, é bom ensinar às meninas e às mulheres a descobrirem a sua força, para que elas saibam que podem trabalhar, estudar e ter escolhas", sugere.

Fã declarada da literatura brasileira, Chiziane, que diz ter Vinicius de Moraes e Jorge Amado como duas de suas principais referências literárias, celebra a ascensão de escritores negros no Brasil.

"É uma coisa que não se podia pensar há uns tantos anos e que, hoje, tenho essa oportunidade. Sinto uma alegria imensa de estar com escritores e escritoras negros de uma expressão poderosíssima. Tenho convivido muito com a Conceição Evaristo. Falamos muito, somos amigas. E há escritores como Paulo Lins, que fez aquela obra fabulosa que é ‘Cidade de Deus’."

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