Uso de múltiplos remédios e falta de estudos em idosos ampliam riscos na terceira idade

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·6 minuto de leitura
Deveriam os idosos misturar todos os remédios? (Foto: Getty Images)
Deveriam os idosos misturar todos os remédios? (Foto: Getty Images)

Por Cristiane Capuchinho

A bolsa de remédios é um clássico entre quem tem mais de 60 anos. A soma de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, com outras enfermidades resulta em um kit de pílulas ingeridas diariamente.

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Um estudo brasileiro com dados da Pnaum (Pesquisa Nacional de Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos) indicou que uma a cada cinco pessoas com mais de 60 anos usava pelo menos cinco medicamentos –a chamada polifarmácia--, e que o número de remédios aumentava conforme a idade.

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A questão é que os compostos de um remédio interagem com os dos outros e podem perder sua eficácia ou despertar reações indesejadas. Somada a isso, a automedicação com remédios corriqueiros que apresentam risco para idosos aumentam os problemas.

Relaxantes musculares, como o Dorflex, antialérgicos, como o Polaramine, e antigripais, como Benegripe e Naldecon, trazem em suas bulas indicações de reações adversas que são mais graves em idosos, como a confusão mental, a sedação, e possibilidades de hemorragia.

“Estamos falando de medicamentos que de fato elevam o risco de quedas, problemas de memória, retenção urinária, intestino preso”, explica Caroline de Borja Oliveira, pesquisadora de farmacologia no curso de gerontologia da USP (Universidade de São Paulo).

O efeito adverso de um remédio pode ser confundido com uma nova doença e gerar uma outra receita médica, ampliando o número de remédios e o risco do tratamento.

“O uso de medicamentos inapropriados para idosos tem sido considerado causa frequente de admissões hospitalares e aumento do risco de mortalidade. Cerca de 40% de eventos adversos relacionados a medicamentos podem levar a hospitalização”, indica André Baldoni, coordenador da pós-graduação em ciências farmacêuticas da UFSJ (Universidade Federal de São João del-Rei).

População especial também nos efeitos de medicamentos

A questão não está apenas no número de medicamentos, mas na dose usada e no período de tratamento. O ponto é que o organismo idoso é mais vulnerável a substâncias tóxicas, e já não tem a mesma reação de um corpo adulto jovem.

Com o envelhecimento, a capacidade do fígado de metabolizar as substâncias diminui, o rim pode ter dificuldades, o coração. O idoso tem necessidades especiais, sua fisiologia se modifica com a idade, e daí a medicação em vez de fazer bem pode prejudicar, explica Rosa Yuka Sato, coordenadora do curso de gerontologia da USP.

Apesar da especificidade do idoso, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não exige das indústrias farmacêuticas testes de segurança dos remédios com populações especiais.

“[A adoção de novas exigências voltadas a idosos para a validação de remédios] envolve uma profunda discussão ética. A indústria farmacêutica não tem interesse em estudos de fase IV (farmacovigilância)”, afirma Baldoni.

Assim, essa análise sobre os efeitos colaterais do medicamento em pacientes mais velhos acaba sendo feita por grupos de pesquisa ligados a universidades quando o remédio já está sendo usado pela população.

Um dos estudos que reúne informações é o “Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos”, que lista medicamentos que deveriam ser evitados para pacientes com mais de 60 anos, com ou sem diagnóstico de doenças crônicas.

No entanto, esses estudos dependem de financiamento, em geral público. “E as agências de fomento no Brasil possuem recursos extremamente limitados para este tipo de pesquisa científica”, salienta o professor da UFSJ.

Risco para o idoso e para o sistema de saúde

Idosos nem deveriam fazer comercial de medicamentos (Foto: Getty Images)
Idosos nem deveriam fazer comercial de medicamentos (Foto: Getty Images)

O problema não é particularidade brasileira. No Reino Unido, desde o ano passado tem-se discutido a necessidade de novas exigências de testes para remédios colocados no mercado.

O sistema público de saúde do Reino Unido estima que 6,5% das hospitalizações são causadas por efeitos adversos de remédios, o que custaria cerca de R$ 8,8 bilhões ao ano, segundo o jornal 'The Guardian’.

Em audiência no parlamento britânico, o professor de farmácia molecular e clínica da Universidade de Liverpool, Munir Pirmohamed, alertou para o risco de envenenamento a que são expostos os idosos por falta de exames específicos.

"Estes remédios são usados em dose normais e essas doses foram testadas em populações mais jovens que não tinham múltiplas doenças", afirmou o pesquisador da Universidade de Liverpool. "Quando usamos um remédio na dose indicada atualmente, estamos frequentemente 'envenenando' o idoso por conta da dose usada."

No Brasil, não temos números confiáveis sobre a hospitalização causada por remédios.

“Infelizmente os serviços têm dificuldade para reconhecer internações por efeitos adversos a medicamentos e mais dificuldade ainda de associá-los com interações medicamentosas”, explica a pesquisadora Oliveira.

Informação completa para uso seguro

Para evitar os riscos, a melhor medida é apresentar ao médico ou ao farmacêutico todos os medicamentos utilizados e o histórico médico. São esses profissionais que poderão dar a orientação sobre riscos de uso de qualquer remédio, inclusive daquele antigripal que não precisa de receita médica.

Nesse controle, a Caderneta Nacional do Idoso, distribuída nas UBS (Unidades Básicas de Saúde, é uma ferramenta importante para reunir todas as informações do paciente.

Outro ponto é a discussão pública sobre a criação de novas regulamentações para medicamentos. Além da possibilidade de mudar o protocolo de aprovação de remédios, é possível ser feito um debate sobre a venda sem receita médica e a propaganda de anti-inflamatórios, relaxantes musculares e antigripais com risco para idosos.

“Não deveriam ser permitidos comerciais que incentivam o uso de medicamentos [com riscos para pacientes com mais de 60 anos]. E sobretudo, a participação de idosos nos comerciais passa a ideia de que esses medicamentos são seguros para a faixa etária”, argumenta Caroline de Borja Oliveira.

Alguns remédios contraindicados para idosos

- Anti-histamínicos: Clorfeniramina, Dexclorfeniramina, Doxilamina, Prometazina --> risco de sedação, confusão mental, constipação, entre outros

- Anti-inflamatórios: Diclofenaco, Etodolaco, Fenoprofeno, Ibuprofeno, Piroxican --> Risco de hemorragia gastrointestina, sobretudo para maiores de 75 anos

- Antipsicóticos: Flufenazina, Periciazina, Pimozida, Pipotiazina --> Aumento do risco de AVC e mortalidade

- Aspirina em dose maior que 150 mg por dia --> Aumento do risco de hemorragia digestiva

- Relaxantes musculares: Carisoprodol, Ciclobenzaprina, Orfenadrina --> sedação e aumento do risco de queda

Fonte: “Consenso brasileiro de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos” (http://www.ggaging.com/details/397/pt-BR)

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Misturas perigosas

- Losartana (dilatador de vasos sanguíneos) + Captopril (para reduzir pressão alta) → Risco de pressão baixa e disfunção renal

- Estatina (para controle de colesterol) + Fibratos (usado no tratamento de hipertrigliceridemia) → Fraqueza muscular, cãibras e dor muscular

- Omeprazol (tratamento de dores no estômago e úlceras) + Clopidogrel (prevenção de AVC e infarto) → Redução do efeito cardioprotetor do Clopidogrel

- Varfarina (prevenção de AVC e infarto) + diclofenaco (anti-inflamatório) → Risco de hemorragia

Fontes: “Farmacoterapia na Geriatria - Guia Terapêutico de doenças mais prevalentes” (Pharmabooks), e André Baldoni