Universal, filme sobre assédio expõe urgência do problema

LAURA CASTANHO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Recém-contratada, uma mulher recebe elogios efusivos do chefe: primeiro ao seu desempenho, depois à sua aparência. Há um beijo forçado em uma noite de hora extra no escritório e, meses depois, um estupro durante uma viagem de negócios. Sem denunciar o caso, ela pede demissão e decide procurar emprego em outro lugar.

A trama de "Não Mexa Com Ela", filme lançado em 2018, poderia ser em qualquer lugar do mundo, mas se desenrola em Israel. Para Manoela Miklos, coeditora do blog #AgoraÉQueSãoElas, essa universalidade revela a dimensão de um problema que só começou a ser levado a sério recentemente. "Estamos escancarando nas telas as conversas reais que precisamos ter sobre os homens", disse.

Ela participou na terça-feira (10) da edição do Ciclo de Cinema e Psicanálise que exibiu e debateu o filme. O evento é realizado pela Sociedade de Psicanálise de São Paulo e pelo MIS (Museu da Imagem e do Som), com apoio da Folha de S.Paulo.

Para Miklos, que é assistente especial do programa para a América Latina da Open Society Foundations, a discussão sobre assédio no ambiente de trabalho no Brasil é insuficiente, e as empresas tendem a ignorar o problema até o momento em que um caso grave ameace a reputação do lugar. "Isso obriga a liderança a se mexer, mas não é nem de longe algo estrutural", afirmou.

"A gente tem inclusive uma dificuldade --e o filme mostra isso bem-- de nomear essa violência. Muitas vezes isso não é nem dito, não tem nome. As conversas difíceis não acontecem."

Como exemplo dessa falta de apoio, Miklos citou um caso que ajudou a divulgar em 2017. Enquanto trabalhava na novela "A Lei do Amor", a figurinista Su Tonani disse ter sido assediada pelo ator José Mayer no camarim do Projac, estúdio da Globo no Rio de Janeiro.

Tonani publicou um relato no #AgoraÉQueSãoElas no dia em que o último capítulo da novela foi ao ar. O depoimento fez com que Mayer, que nega as acusações, fosse afastado da emissora e, mais de um ano depois, demitido. Também fez com que Miklos e a outra coeditora do blog, a roteirista Antonia Pellegrino, recebessem uma enxurrada de relatos de assédio. "As mulheres não têm a quem recorrer. Quando você vê uma possibilidade de quebra de silêncio, é um dique de contenção que se rompe", disse Miklos.

Após o caso, ela se envolveu na coordenação do Mapa do Acolhimento, iniciativa que apoia mulheres que sofreram assédios e outros abusos. "Das pautas feministas, a violência contra a mulher, incluindo o assédio, é a mais gregária. Ela aproxima mulheres de pontos distintos do espectro político. A gente tem mulheres de direita, voluntárias nesses grupos, fazendo atendimentos incríveis."

Para a psicanalista Ludmila Frateschi, também presente no debate, "Não Mexa Com Ela" aprofunda a discussão sobre assédio ao mostrar uma história singular, com nuances que se perdem nas estatísticas e relatos.

"Orna [a protagonista] é forte e delicada, sóbria e atraente, triste e viva ao mesmo tempo. Tem uma multiplicidade que não simplifica a personagem, o que é muito legal", pontuou. "Quando uma história de assédio ganha repercussão na mídia, ela tende a ficar muito planificada."

A psicanalista notou a importância da posição da câmera no filme: ela está sempre próxima à personagem principal, mas escondida atrás de janelas e portas, colocando o espectador como uma espécie de testemunha silenciosa. A fotografia, afirmou, nos confronta com os julgamentos que fazemos ao longo do filme --por que ela não reagiu? por que pediu uma carta de recomendação do chefe após o abuso?-- e evidencia a solidão da personagem.

"Parecemos ser as pessoas com quem ela conta. Não tem mais ninguém."

Frateschi supervisiona mulheres em centros de acolhimento e viu, em Orna, os sintomas clássicos do trauma (negação, irritabilidade, fixação por tomar banho) e o inconformismo comum às sobreviventes no cotidiano, de "ir dando um jeito" sem buscar reparação.

Foi por essa razão que a diretora Michal Aviad não gostou do título do filme no Brasil, que dá a entender que houve uma vingança (o título original em hebraico, "Isha Ovedet", quer dizer algo como "Uma mulher trabalhadora").

"O risco é achar que o final do filme possa ser suficiente, como se estivesse tudo certo. O filme acaba e falamos, 'Ufa'. Mas e aí? É quase como se a gente pudesse dizer, 'Bem, é isso que a gente faz mesmo, se vira'."

Presente na plateia, a infectologista Ivete Boulos, que coordena, há 18 anos, o atendimento às vítimas de violência sexual no Hospital das Clínicas, disse ter tido um dejà vu do que ouve das pacientes em diversas partes do filme.

Um exemplo foi a cena em que Orna dá a entender à mãe que algo de errado aconteceu e é prontamente ignorada; outro foi a desconfiança do marido de que ela está trocando favores sexuais com o chefe, afinal "não fez nada" ao ser estuprada.

"O congelamento é muito comum nessas situações. Elas fixam em alguma coisa. Tem paciente que chega e diz, 'Eu só lembro do papel de parede do quarto, porque só olhei para aquilo'", contou Boulos.

A psicanalista Luciana Saddi, que mediou o debate, associou a paralisia de Orna a dois conceitos freudianos: a filogenia (nesse caso, a ideia, condicionada pela experiência feminina com violência, de que a melhor forma de sobreviver é não reagir) e a cisão (a dissociação entre mente e corpo no momento da violação).

Saddi também citou o trabalho de Sándor Ferenczi, psicanalista húngaro pioneiro nos estudos do trauma. Ferenczi defendia que o mais traumático não era a violência em si, mas a negação da violência por quem deveria cuidar da pessoa abusada, o que aparece no filme.

Ludmila Frateschi afirmou que é preciso levar em conta a perspectiva dos homens sobre o atual momento de transição cultural, em que o assédio é visto cada vez menos como uma prática aceitável. Ela citou uma coluna recente da psicanalista Vera Iaconelli na Folha de S.Paulo, na qual ela escreveu que "quanto mais admitimos que 'não é não', mais aumentam os casos de estupro e feminicídio".

"Dá muita raiva nos homens que as mulheres desejem, e o filme explicita isso muito bem. Se você está em uma situação de poder e te tiram esse poder, é humano que você tenha raiva. Mas é preciso ter consciência de que essa raiva está deslocada."