Uma mulher transgênero conta como se revelou para a sua família paquistanesa: “Palavras como ‘transição’ não existem em Punjabi”

Amber Abbas fez a transição de homem (foto à esquerda) para mulher (foto à direita). [Foto: Amber Abbas]

Desde os sete anos, Amber Abbas, agora com 32, sabia que era diferente.

Nascida como Adam*, único filho de uma família tradicional paquistanesa, ela suportou todo o peso da expectativa de seus pais para se tornar uma figura masculina de destaque em sua comunidade local.

“A religião e a sociedade vinham primeiro”, disse Amber ao Yahoo UK. “Esperava-se que eu seguisse os passos de meu pai e meu avô; me tornasse um médico, me casasse e fosse um bom muçulmano”.

Por isso, cinco anos atrás, Amber – tendo acabado de começar sua transição para se tornar uma mulher – enfrentou a conversa mais difícil de sua vida.

Não havia nem palavras para expressar isso em Punjabi, a língua materna de sua mãe.

“Palavras como transgênero e transição sequer existem no Punjabi”, explica ela.

Amber (foto) mudou-se de Manchester para Cardiff para começar uma nova vida. [Foto: Amber Abbas]

 “Eu disse: ‘Este não sou eu, não sou como vocês pensam que sou – eu tenho vivido como mulher’”.

“Ela estava ouvindo as palavras saírem da minha boca, mas ela não conseguia entender. Daquele dia em diante, eu sabia que as coisas seriam muito diferentes entre nós.”

Mas, depois de 27 anos escondendo quem era, isso não era uma escolha, mas uma necessidade.

Amber passou a vida confusa sobre sua verdadeira identidade. Na escola, ela sofreu bullying por sua aparência “afeminada”.

“Eu era feminina, conversava e me comportava dessa maneira. Os valentões me seguiam onde quer que eu fosse: perto da minha casa, na mesquita local e na escola. Ninguém queria estar perto daquele menino afeminado, esquisito.

Embora, por fora, Amber tentasse viver de acordo com as expectativas de seus pais, de se tornar uma médica, suas notas escolares iam mal, pois ela optou esconder deles o bullying que sofria.

Ela ficou ainda mais confusa com insultos de colegas de classe, que costumavam chamá-la de “menino gay”.

“Eu sabia que era atraída por homens”, explica ela. “Mas nunca me imaginei como um homem gay.”

Amber diz que finalmente se sente em paz. [Foto: Amber Abbas]

Na verdade, a única dica que Amber tinha sobre quem ela era, surgiu quando ela compareceu ao casamento de um amigo da família, no Paquistão, onde um grupo de artistas transgêneros conhecidos como hijras – um costume no país – se apresentava.

“Pela primeira vez na minha vida, senti uma conexão”, disse ela.

Tragicamente, quando Amber tinha 20 anos, seu pai morreu de uma doença hepática. Mas, ao começar a trabalhar em uma loja para sustentar financeiramente a família, ela finalmente encontrou os meios para experimentar vestir-se como mulher.

Mais tarde, ela se envolveu com a comunidade de transgêneros em Manchester, alugando um apartamento longe da casa de sua família para que pudesse viver como mulher nos fins de semana.

Cinco anos depois de sua confissão, Amber – que se mudou para Cardiff para que pudesse recomeçar – tem um relacionamento tenso com sua mãe: “Ela se esforça para entender o caminho que estou seguindo”.

Antes de confessar seu segredo à mãe, Amber também contou para suas cinco irmãs.

“Foi o maior choque para elas, desde que meu pai morreu. Daquele dia em diante, eu sabia que tinha que sair de casa para sempre.

Amber começou a se vestir como mulher aos vinte e poucos anos. [Foto: Getty]

Mas, apesar de tudo, Amber sente que ganhou uma nova vida.

“Eu não conseguia mais esconder quem eu era. Eu queria sair e começar a viver a minha vida como a mulher que eu sentia que era, e tive que aprender a ver os lado bom das coisas ruins”.

Agora ela está no processo de mudar a sua aparência externa para se alinhar à sua verdadeira identidade.

Após quatro anos de tratamento com depilação a laser para se livrar dos pelos do corpo, Amber passará por uma terapia hormonal e terá um aumento dos seios para ajudar na sua transição.

“A transição é uma jornada muito singular”, disse ela.

“Eu tenho que ir no meu próprio ritmo, e sempre escolho focar nos pontos positivos. Eu finalmente me sinto em paz.

* Um pseudônimo, já que Amber prefere que seu nome masculino anterior à transição não seja revelado.

Francesca Specter