Uma mulher não tem nem o direito de morrer em paz; o machismo com Marília Mendonça

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A importância de Marília Mendonça, vítima de um acidente aéreo na última sexta-feira (5), para o mundo vai além da música. Suas letras constituíram um movimento potente, o feminejo, que dentro de um gênero musical tão masculino (e que na verdade a música num geral ainda continua muito masculina e machista) relembra que as mulheres podem e devem ocupar espaços onde elas bem quiserem. 

A música é um instrumento potente de educação e para a sociedade patriarcal ser desconstruída, é preciso problematizar aquilo que escutamos constantemente. Por isso Marília era tão importante, além de excelente cantora, também sabia do papel da sua música em trazer a realidade da mulher.

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No entanto, algo revoltante aconteceu, um texto escrito e publicado ainda no sábado (6), dia do velório e enterro da artista, pelo jornal A Folha de S.Paulo, mostra que nem mesmo após a morte, Marília e todas as mulheres, estão imunes de críticas. Em um dos trechos, é escrito o seguinte: "Nunca foi uma excelente cantora. Seu visual também não era dos mais atraentes para o mercado da música sertaneja, então habituado com pouquíssimas mulheres de sucesso: Paula Fernandes, Cecília (da dupla com Rodolfo), Roberta Miranda, Irmãs Galvão, Inhana (da dupla com Cascatinha)".

O que você acha que é só um comentário ou piada, pode traumatizar e até matar

Falar da qualidade vocal e do visual dela em um momento tão sensível é desumano hoje e continuaria sendo seja lá qual dia fosse, porque o que parece uma "análise" de quem foi a cantora, na verdade é uma sequência de frases violentas e machistas que vêm justamente para fazer o controle patriarcal: não ousem chegar no mesmo patamar que ela, a música é dos homens.

 

Corpos femininos, vidas femininas desacreditadas, questionadas, o tempo inteiro

Ademais, para o autor do texto, a aparência é essencial para analisar uma cantora, coisa que jamais seria feita a um cantor, sabe por quê? Porque entre homens existe empatia, e essa mesma empatia não existe para as mulheres, pois não são vistas pelos homens como seres humanos, mas como objetos a serem analisados e vendidos independente da situação.

Você, homem, que está lendo esse texto e acha que não é com você, preciso te informar que é direcionado não só a ti, mas a todos os homens. Reproduzimos machismo, o comentário sobre o corpo de qualquer pessoa machuca, mas de uma mulher machuca ainda mais, pois elas são cobradas por uma exigência corporal que nós criamos e exigimos. 

O que você acha que é só um comentário ou piada, pode traumatizar e até matar. Todas as mulheres que leram a matéria se sentiram mal porque todas passam por diversos julgamentos na vida, desde o corpo, a vestimenta, a qualidade do seu trabalho, do seu intelecto, seja lá o que for, porque para nós é insuportável uma mulher ser melhor em qualquer área e até mesmo depois da morte os comentários continuam sendo ditos em relação a elas, isso é desesperador. 

É estrutural, é classismo cultural

Até quando vamos achar que machismo é algo que está aí e será resolvido magicamente? Para que acabe, é preciso que nós, os criadores do problema, resolvamos o que criaram, criamos. O que estou dizendo, várias mulheres já disseram pela internet há muito tempo. 

Vamos sair da posição passiva do “eu preciso aprender, quero mudar” e realmente mudar. Vai atrás, estuda, procura uma terapia, apoie, siga e leia mulheres, se reúna com outros homens, converse no seu grupo de amigos, chamem atenção do colega que está fazendo piada machista, ou sendo abusivo e violento com uma mulher, não fique em silêncio, seja ativo!

Sim, ler um texto desse em um jornal entristece e machuca, e em um momento de luto causa revolta, com toda razão. Marília foi uma das maiores cantoras do sertanejo porque era boa no que fazia, era talentosa, uma voz marcante, incrível, inesquecível e suas composições igualmente excelentes - mulheres se sentiram acolhidas com ela em um mundo tão opressor para o sexo feminino. 

Reduzir Marília ao seu corpo e criticar seu talento é a maior demonstração de que a masculinidade tóxica é uma doença, fruto do patriarcado que sempre achará uma forma de manter o poder na mão dos homens reforçando o ódio e a opressão às mulheres mesmo após a sua morte.

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