Uma das melhores série do ano, Lovecraft Country abusa da fantasia para falar da realidade

Thiago Romariz
·3 minuto de leitura
Lovecraft Country traz o horror do racismo da forma mais literal possível (Foto: Reprodução/HBO)
Lovecraft Country traz o horror do racismo da forma mais literal possível (Foto: Reprodução/HBO)

O ano de 2020 é um dos piores da história do cinema, mas para o streaming e para a TV, ele pode ser o exato oposto. Os números mostram isso, afinal, os serviços do setor cresceram tanto, e além disso, muitas obras exploraram temáticas que vão muito além do entretenimento escapista - a começar com 'Watchmen', destaque do Emmy deste ano, mas lançado em 2019. A obra da HBO puxou séries de cultura pop que exploram a fantasia sem esquecer problemas estruturais da nossa sociedade. Tivemos 'The Boys’, e agora 'Lovecraft Country' continua esse legado extrapolando tanto o uso de referências pop quanto as críticas políticas e sociais.

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É comum, principalmente na internet apaixonada pelo julgamento rápido, dizer que 'Lovecraft Country' se destaca por ser panfletária, lacradora ou ativista. A verdade é que ela é muito mais que isso. A adaptação comandada por Misha Green faz questão de jogar na cara do espectador o horror que foi e é o racismo. Não existe pudor nenhum em tornar a branquitude sinônimo de supremacia e privilégio inquestionável — e faz completo sentido dentro da história. Diferente de Watchmen, que prezava pela sutileza, essa série aqui não tem vergonha de expor as dores, os traumas e, principalmente, o legado racista que nossa sociedade carrega.

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Essa boa falta de vergonha também está estampada na narrativa fantástica. Green, que teve ajuda de J. J. Abrams e Jordan Peele na produção, mistura não só gêneros cinematográficos para variar o ritmo da história — em 10 episódios nenhuma estrutura se repete e fórmulas de suspense, viagem no tempo, horror, romance e roadtrip são usadas —, mas também para construir as referências literárias que compõem a jornada dos personagens principais. O autor que dá título à série serve como exemplo para o monstro inominável que é o preconceito, mas é apenas uma parte da miscelânea composta por Alexandre Dumas, Gil Scott Heron, Rihanna e muitos outros.

A chuva de referências pode soar curiosamente elitista, mas dá pra pensar que Lovecraft Country é uma simples história de fantasia sobre um herói veterano de guerra. Essa mistura é sempre feita com um propósito: transmitir a mensagem de ancestralidade e o papel dela na construção de um legado, seja ele negativo ou positivo. Por amar tanto a história e o contexto que expõe, a série por vezes esquece da jornada dos protagonistas e apela para coincidências que podem tirar o espectador mais ligado a narrativas tradicionais. Por outro lado, fica escancarado que Lovecraft nunca quis ser tradicional além das referências pop, ela existe para quebrar o sistema, provocar privilegiados e relembrar que entretenimento é feito também para pensar e discutir nossa sociedade do passado, presente e futuro.

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*Thiago Romariz é jornalista, professor, criador de conteúdo e atualmente head de conteúdo e PR do EBANX. Omelete, The Enemy, CCXP, RP1 Comunicação, Capitare, RedeTV, ESPN Brasil e Correio Braziliense são algumas das empresas no currículo. Em 2019, foi eleito pelo LinkedIn como um dos profissionais de destaque no Brasil no prêmio Top Voice.

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