Um ano após primeira morte no Brasil, coronavírus já matou mais que a Aids em toda história no país

Redação Notícias
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Vista aerea de cemiterio com covas abertas
Um ano após primeira morte por covid no Brasil, o país bateu recorde de mortos em decorrência da doença: 2.798 óbitos (AP Photo/Andre Penner)
  • Em 17 de março de 2020, Brasil registrava a primeira morte por covid-19

  • Exatamente um ano depois, país amanhece após bater recorde diário de mortes

  • Vacinação é lenta e menos de 5% da população foi vacinada em dois meses de campanha

O dia 17 de março marca uma data que os brasileiros não queriam, mas vão lembrar para sempre. Foi neste dia, em 2020, que morreu a primeira pessoa vítima do coronavírus no Brasil.

O marco que completa um ano nesta quarta-feira traz recordes macabros e números impressionantes. Um dia antes, na terça, o país bateu recorde de mortos em decorrência da Covid-19: 2.798 óbitos, de acordo com contagem de consórcio formado por veículos de imprensa.

Covid mata causando números assustadores

As mais de duas mil mortes da terça fizeram o país chegar à impressionante marca de 282.400 mortes, segundo o mesmo consórcio. Colocado em perspectiva, o número fica ainda mais assustador. Apenas um ano depois de ter causado a primeira morte no país, o coronavírus já supera os números da epidemia de Aids no Brasil.

Foram 281.156 mortes causadas em pessoas infectadas pelo vírus HIV de acordo com o último boletim epidemiológico do governo, divulgado em 1 de dezembro de 2020 — a conta, no entanto, começou em 1982, 39 anos atrás.

Diferente do covid, de mais fácil transmissão, a Aids teve seu auge de morte no Brasil, de acordo com o boletim, entre 1982 e 2007, com 134.328 óbitos. Em 2020, foram 4.148 mortes no ano inteiro causadas pelo HIV, total que é alcançado em apenas dois dias da última semana em relação a mortes por covid-19.

Ritmo lento de vacinação contra covid faz Saúde colapsar

Se os números excessivos de mortes chocam, impressiona também o crescimento lento dos números de pessoas vacinadas pelo país, indo de encontro a uma tradição brasileira de vacinar em larga escala devido ao alcance do Sistema Único de Saúde (SUS).

Senhora negra sendo vacinada
Em dois meses, apenas 10,3 milhões de brasileiros foram imunizados, 4.91% da população total do país (AP Photo/Eraldo Peres)

O último boletim de vacinados aponta que 10,3 milhões de brasileiros foram imunizados, 4.91% da população total do país. Em São Paulo, onde a primeira brasileira foi vacinada, a campanha começou em 18 de janeiro deste ano, o que marca quase dois meses de uma campanha que evoluir a passos lentos.

Rio de Janeiro levaria dois anos para vacinar no atual ritmo

Se o ritmo atual de vacinação for mantido, por exemplo, a população total do estado do Rio, terceiro mais populoso do país, só será imunizada em pelo menos dois anos, ou 775 dias.

Para imunizar até o final deste ano toda a população do estado apta a receber o imunizante, com mais de 18 anos de idade, 12,7 milhões de pessoas, seria preciso mais que triplicar o número de aplicações diárias.

A projeção é do painel MonitoraCovid, produzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que também prevê 995 dias, ou dois anos e meio, o tempo para que todo o País seja vacinado contra a Covid-19.

Os cálculos são do epidemiologista Diego Xavier, responsável pelo MonitoraCovid da Fiocruz, em entrevista ao jorna O Globo.

Ele alerta, no entanto, que a recente paralisação da vacinação no Rio e em outras cidades ainda não entrou nos cálculos, e a projeção de vacinar toda a população poderá ser ampliada.

Diego destaca que o Sistema Único de Saúde (SUS) tem condições de fazer as aplicações diárias necessárias, mas a logística depende da disponibilidade de vacinas e da coordenação eficaz entre todos os entes envolvidos.

Estados que mais vacinaram contra covid (em %)*

  1. Amazonas - 8.57%

  2. São Paulo - 6.43%

  3. Distrito Federal - 5.62%

  4. Mato Grosso do Sul - 5,6%

  5. Rio Grande do Sul - 5,46%

* Dados atualizados em 16/3/2021

Mudanças no Ministério da Saúde em meio à crise

Em paralelo a isso, os brasileiros conheceram também na terça o seu novo ministro da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga, o quarto na gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) — sendo todas as trocas durante a pandemia.

O novo ministro discursou na noite da terça, pouco antes do recorde de mortes ser anunciado. Defendeu o uso de máscaras e pediu para que brasileiros lavem suas mãos. Falou isso após defender que com essas medidas simples, somadas a um bom plano de vacinação, a economia não vai precisar parar.

Ministro Marcelo Queiroga fala com a imprensa
O novo ministro da Saúde discursou na noite da terça, pouco antes do recorde de mortes ser anunciado (EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

Com discurso unificador, pediu que a nação esteja “unida contra a covid” e que vai levar esse sentimento para a conversa com secretários de Saúde estaduais e municipais, com os quais prometeu trabalhar em conjunto, afirmando que sozinho “não fará nenhuma mágica”.

Novo ministro não foi primeira opção

A médica Ludhmila Hajjar foi a primeira opção para assumir o Ministério da Saúde e recusou a oferta do presidente. A situação foi só mais uma que se somou a uma série de trapalhadas e trocas no ministério da Saúde, que começaram quando o primeiro ocupante da pasta sob Bolsonaro, o ex-deputado Luiz Henrique Mandetta, bateu de frente com o chefe, que à época declarava publicamente que a doença era “apenas uma gripezinha”.

Crise na Saúde vem desde o começa da pandemia

Depois de um processo de fritura, com troca de alfinetadas públicas, Mandetta caiu em abril de 2020. O então ministro da Saúde não aceitou recomendar hidroxicloroquina no tratamento da doença e destacava a não comprovação da eficácia do medicamento, além de defender medidas de isolamento social.

Escolhido como substituto, Nelson Teich também se recusou a indicar a cloroquina. Assim como Mandetta, Teich é médico e declarava que o medicamento tem efeitos colaterais e deve ser usado com cuidados.

O ex-ministro ainda tentou adotar em sua gestão medidas de combate ao coronavírus, como diretrizes para restrições de circulação de pessoas.

Mandetta e Teich passam um pelo outro durante evento
Mandetta (ao fundo) e Teich durante a cerimônia que marcou a primeira troca de posse na pasta da Saúde em meio à pandemia (AP Foto/Andre Borges)

Isolado no governo, ele pediu exoneração com menos de um mês no cargo e foi substituído pelo seu secretário-executivo, general Eduardo Pazuello.

Sob o lema de que “um manda, o outro obedece”, em relação a Bolsonaro, o militar acatou as ordens do Planalto e recomendou “tratamento precoce” sem comprovação científica, não apoiou medidas de distanciamento social, atrasou a vacinação no país e foi omisso no colapso do sistema de saúde, principalmente em Manaus, onde pacientes morreram asfixiados pela falta de oxigênio medicinal.

A Procuradoria-Geral da República abriu uma investigação para apurar a negligência do Ministério da Saúde sob o comando de Pazuello. No Congresso, senadores pressionam para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

Diante desse cenário, a permanência do general à frente da pasta se tornou insustentável. Agora com a adoção de um discurso pró-vacina, o Palácio do Planalto também avalia que a demissão de Pazuello pode estancar a perda de popularidade de Bolsonaro.