'Tudo, menos casa': educadora social relata trabalho com adolescentes da Fundação CASA

Campanha Nacional pelo Direito à Educação
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Acervo pessoal/Pilar Guimarães

Por Pilar Carvalho Guimarães

Eles enquadram a gente, jogam com o nosso psicológico. Leva “nóis” pro canto e bate até. Já teve uma vez que eu tava de aparelho, levei chute pra caramba na boca, pisaram em mim... Os da Hilux sempre folgam. Eu tinha 17 anos.

Eles me pegaram numa festa só porque eu tava com um baseado me levaram pra um quartinho, aí lá tinha segurança e tinha policial. Me jogaram no chão e me deram uma pá de choque, me bateram com taco de beisebol... Cheguei em casa com as pernas roxas. Quando eu lembro disso, dá vontade de nem sair mais. Me dá dor. Eu tinha 16 anos.

Se tem palhaço, os cara arrancam a tatuagem à força, com canivete.

Tava lá na quebrada, aí os cara me parou, eles já me conheciam.

Me sequestraram, colocaram um saco na minha cabeça e ficaram dando peão pela quebrada. Depois disseram que se me pegassem de novo eu ia direto pro CDP [Centro de Detenção Provisória]. Quando eu lembro, vem raiva, vem ódio, e até medo. Eu tinha 17 anos.

Encontraram drogas perto de mim e me bateram muito. Só soco na cara, três contra um. Até hoje eu tenho o ouvido estourado, sai pus até hoje. Depois disso, vim preso. Quando eu lembro eu fervo de ódio. Eu tinha 17 anos.

Ameaçaram fazer com canivete um ‘X’ na minha mão, que era pra todo mundo saber que eu era bandido. Mas eu não sou. Eu tinha 16 anos.

Todo dia que eu saía na rua, os mesmos caras me pegavam, zuavam da minha cara, me perseguiam e me ameaçavam. Eu comecei a nem mais querer sair de casa… Eu tenho 14 anos.

*

Sou educadora social e atuo em três unidades da Fundação CASA em Campinas (SP). Um lugar que simplesmente não deveria existir, resultado de um sistema perverso que aniquila e desintegra nossos jovens sem oferecer qualquer oportunidade de acesso à educação de qualidade, que seja capaz de impulsionar projetos, sonhos e fortalecimento. Há três anos sinto-me destroçada e impotente, frente a uma engrenagem de forças que vilipendia qualquer sopro de autonomia e criatividade.

Todos os dias experimentamos a negativa como princípio nesta instituição que, como prerrogativa, funda-se na ideia de uma reeducação. Como reeducar na clausura? Para mim é como perguntar se seria possível que eu recriasse o sol com minhas próprias energias.

Nesses depoimentos misturam-se relatos de meninos internos em unidades da Fundação CASA em Campinas e outros recolhidos em oficinas com estudantes de escolas públicas no mundão. Há similaridade na vivência abrupta de violência, com uma centralidade pungente na marcação desses corpos como corpos indignos ou vagabundos, marginais, indigentes.

São experiências de estigma, racismo e desumanização extremas que não condizem com o ideal que necessariamente precisa ser o princípio da socioeducação: uma educação para autonomia e liberdade.

E aqui evidencia-se a nossa falha como sociedade: falhamos em construir e estruturar condições de acesso e dignidade para a vida da população, e nisso todas e todos estamos incluídas e incluídos, pois aceitamos, permitimos e não questionamos a institucionalização de nossos adolescentes em modelos muito semelhantes a prisões, legitimamos o encarceramento sobre a falácia da segurança pública, encarceramos ao invés de educar, como slogans que levantamos nas ruas contra a redução da maioridade penal, contra o encarceramento em massa, contra a guerra às drogas.

Tudo isso está imbricado num projeto de sociedade que prefere construir prisões a escolas, postos de saúde, moradia e a ofertar condições para trabalho digno. São as abrasivas reverberações estruturais de uma coletividade que viveu mais da metade de sua história num sistema escravocrata e ainda não foi capaz de chacoalhar ideias de subalternidade, inferioridade e negatividade tão incrustadas em nossas mentes e também nos programas de TV, nas propagandas, livros didáticos e concepções, como “bandido bom é bandido morto” ou mesmo em nossas atitudes - como olhar para uma pessoa negra e imaginar que ela é a porteira e não a moradora do prédio de luxo, afinal de contas, quantas pessoas negras constituem a elite como classe em nosso país?

A essas dificuldades relacionadas à desigualdade dilacerante na nossa sociedade, soma-se o projeto de um Estado que não tem interesse algum em emancipação. Às vezes, a gente ouve que a população das periferias é esquecida, mas essa exclusão é milimetricamente orquestrada como forma de manutenção de uma marginalização que serve ao capitalismo, que serve ao poder instituído e que se reproduz pela via da violência policial e escolar.

A escola baseada em uma cristalização curricular que não dialoga com a realidade, não acolhe, não questiona, não permite que adolescentes se vejam como sujeitos de direitos ou agentes em suas próprias vidas. Neste grupo de indivíduos convivem uma vivacidade incendiosa e uma apatia dilacerante.

Com os meninos na Fundação CASA, a violência começa antes de sua entrada na Instituição: acontece na criminalização de suas vidas, na negativa de dignidade, no não. Não, não, não. Ausência. Um enorme vazio. O menino não acessa direitos sociais, não é incentivado a vislumbrar um projeto de futuro e tem suas habilidades, preferências e práticas culturais, performances sociais, subjugadas e deslegitimadas por praticamente toda sua história institucional - na escola, nas ruas, no busão - e ao ver a senhorinha agarrar a bolsa pra não ser furtada por aquele menino de bermuda e “juliette” que convencionalmente é entendido como “ladrão”, “marginal”. É a ideia há muito veiculada e propagada do “preto, pobre, suspeito”, que vira marcado para morrer ou deixar morrer quando é jogado numa instituição que sequestra sua vida.

A instituição escola é uma força comunal na manutenção desse pântano desgostoso, porque não fortalece e não valoriza nossas preciosas e pulverizadas práticas de resistência e produção de cultura.

Daí, pra piorar, concretamos a ideia de que a punição é a única saída para quem ousa se afastar dos padrões, ou das leis que muitas vezes nem sabemos que existem ou não têm qualquer lastro social. Ou ainda, não têm outra saída para combater a fome ou o ódio numa sociedade de abismal desigualdade e injustiça.

Olhe ao seu redor: todos e todas conhecemos alguém que já praticou algum delito ou ato infracional, seja dirigir um pouco alcoolizado ou sem o cinto de segurança, adiar o pagamento de uma multa, usar remédio sem receita, pagar a médica sem nota fiscal – mas somos encarcerados por isso? Não, porque não somos o inimigo eleito para o ódio coletivo, não somos vítimas de uma Guerra às Drogas inventada justamente para justificar a violência contra um público específico. Vejam que em Guerra tudo se justifica, inclusive o genocídio.

É possível imaginar um mundo sem grades, sem prisões [1], pois já está mais do que provado por estudos e vivências que essas instituições só servem para acirrar violência e violar direitos humanos.

Toda pena é uma pena de tortura

 Acervo pessoal/Pilar Guimarães
Acervo pessoal/Pilar Guimarães

No Brasil, a gente teve o encarceramento como solução criminalizadora para todas as vicissitudes sociais, desde o período pós-abolição. São muitas as leis que vingaram a luta por liberdade, instituindo criminalização como única saída, como a lei da vadiagem, da proibição da capoeira, do samba, das religiões de matriz africana e muito mais recentemente a Lei Antidrogas de 2006 e a Lei Antiterrorismo de 2016 que, na contramão de pesquisas, estudos e experiências internacionais, continuam dando murro em ponta de faca, legitimando o aprisionamento como única forma de combate à violência.

Em 2019, tínhamos 812.524 pessoas presas no Brasil, segundo o Conselho Nacional de Justiça, o que nos fere como a incauta posição de terceira maior população carcerária do mundo. Desses 40% aguardam julgamento, ou seja, estão presos e presas sem direito à defesa.

E esse número só cresce - os dados revelam a dramaticidade desse absurdo: de 1990 a 2006 tivemos mais de 700% de crescimento. E o país que vangloria as prisões, também é um país campeão de homicídios não resolvidos, a taxa de resolução de crimes violentos no país é de minguados 9%; ou seja, as pessoas vão presas por crimes leves como furtos/roubos e tráfico de drogas, o que constitui o enquadramento de mais de 75% das pessoas presas.

Mas, se depois de 2006 quem decide o que é tráfico é o agente de segurança pública, vulgo policial, esse tráfico enquadra quem está na ponta dos mercados ilegais: o moleque da esquina que está vendendo um ‘beck’.

Por quê? Quem vai preso?

No sistema prisional adulto é o jovem negro (55% da população carcerária é jovem e 64% é negra e a esmagadora maioria é de baixa renda e tem baixa escolaridade).

E na Fundação CASA, quem são esses meninos? Falamos de meninos mesmo, gênero masculino.

Cerca de 30 mil adolescentes estão em cumprimento de medidas socioeducativas no Brasil; incluindo aí os outros tipos de medida de responsabilização, como liberdade assistida e prestação de serviços à comunidade; desses, 96% são meninos, 61% negros e 57% estavam entre 16 e 17 anos [2]. Lá dentro, quando a gente conversa em oficinas sobre a “Guerra às Drogas”, 90% do grupo diz: estava lá com duas “paranguinha” de “beck” e 10 contos e agora estou aqui enquadrado em tráfico.

A solução para este tipo de ato infracional é deixar um adolescente ser vilipendiado por uma instituição odiosa?

A esmagadora maioria dos meninos internados em unidades da Fundação CASA do Estado de São Paulo lá está por ter sido enquadrado em ato infracional relativo a tráfico de drogas. O que se distancia, em muito, do senso comum propagado, produzido e reproduzido por mídias de que o adolescente em cumprimento de medida socioeducativa é violento ou cometeu sangrentos atos.

E nunca vi nenhum menino nem de classe média na Fundação CASA, estes têm acesso à justiça, a medidas mais brandas, em liberdade, e muitas vezes nem chegam a ser levados à presença de um juiz ou juíza. O racismo institucional é linguagem onipresente no sistema judiciário, em que o CEP [3] da pessoa interfere na decisão de penas, responsabilização, numa criminalização da pobreza ultrajante.

Estrutura, controle e a morte social

Aqui chegamos então ao prédio amarelo da Fundação CASA.

Um lugar que não deveria existir.

Que mitiga existências e estilhaça subjetividades.

Exala opressão.

Um espaço que só pode ser revitalizado e ressignificado por umas ervas bem poderosas para dirimir toda a perversidade que é perpetrada ali.

Sabe o modelo da escola caixa de concreto? Assim é o prédio da Fundação CASA. São três andares, no primeiro estão refeitórios e salas multiuso, no segundo andar os dormitórios (com quatro camas de concreto e um lavabo cada um), e no terceiro está a quadra. A essa quadradice matadora de sonhos, somam-se as grades enferrujadas, as pesadas portas com janelinhas só para os olhos, a ausência de luz e debilitante umidade. Você sente cheiro de jaula, mofo e calamidade ao entrar. Somos invadidos por uma imobilidade castradora.

O menino que chega lá, chega depois de um histórico de não, de ausência e descrédito, de deslegitimação de toda a sua vida e experiência. É o mesmo menino que vê no crime ou no cara da boca a presença, uma figura de poder, de possibilidades, de grana - que ele quer para si.

E não podemos culpá-lo: nós, que instauramos uma sociedade do espetáculo que cultua o consumo como deus maior, como bem resume MC Rhamon:

“Dinheiro, maldito papel que move o mundo inteiro/Vários perdidos

Famílias em desespero/E enquanto uns têm muito

Só sofre quem vem do gueto/E querem calar minha voz por pedir meu direito”

O Estatuto da Criança e do Adolescente define que adolescente é toda pessoa com idade entre 12 e 18 anos. Nessa faixa etária, o jovem que comete um ato infracional análogo a crime ou contravenção pode estar sujeito a medidas socioeducativas. A responsabilização pode ocorrer por meio de advertência, reparação do dano, prestação de serviço à comunidade (PSC), liberdade assistida (LA), semiliberdade e internação.

O racismo institucional fica evidente quando a responsabilização assume dois pesos e duas medidas: meninos brancos de classe média são responsabilizados com medidas em liberdade e os meninos negros de periferia são internados. PSC e LA são oferecidos geralmente por organizações da sociedade civil que celebram contratos com os municípios para oferta desses serviços e contam com equipes especializadas e projetos sociopedagógicos próprios, avaliados anualmente, pelas Secretarias de Assistência Social e Varas da Infância e Juventude. Essas medidas parecem conseguir propiciar um atendimento muito mais adequado, qualificado, individualizado ao adolescente, com reais perspectivas de educação e fortalecimento, fomentando o acesso a direitos sociais e informação, mobilizando saberes para construir conhecimento. Claro, ainda há falhas, mas o foco em medidas socioeducativas cumpridas em liberdade seria um primeiro passo para repensar a criminalização, a punição como saída.

A medida socioeducativa de internação prevista pelo ECA e normatizada pelo Sinase (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo) prevê um Plano Individual de Atendimento - PIA, a ser construído coletivamente pelo adolescente e pela equipe interdisciplinar responsável por seu caso, composta por agentes educacionais, de segurança, de saúde e socioassistenciais.

A medida de internação não tem prazo estipulado, o adolescente fica internado até que as pessoas responsáveis pelo seu caso avaliem que o PIA alcançou estágio satisfatório. São enviados relatórios parciais dessa trajetória para o Ministério Público a cada três meses, até que haja a compreensão compartilhada de que deve ser submetido um relatório final propondo a finalização da medida. Assim, a gente deixa em pane a cabeça de um adolescente: cada dia vira uma tortura, um desalento e ele não sabe quanto tempo durará esse pesadelo. Ele fica sujeito a uma série de jogos de chantagem e negociação pelo corpo profissional da Fundação CASA. “Se você fizer isso, eu ponho no seu relatório…’ e assim vai. A internação pode durar de três meses a três anos. A média na cidade de São Paulo é de nove meses a um ano.

O adolescente fica à mercê da compreensão que esses profissionais têm de seu comportamento, projeto de vida, dedicação aos estudos e atividades, e de sua disciplina. Ah, o controle, o controle opressor. Essa ideia que funda todas as relações dentro da Fundação CASA, aliada à noção de segurança, e suja todas as possibilidades com soda cáustica, lama, enxofre.

Sabe quando nós, pessoas adultas, somos obliteradas com regras vazias, sem sentido, simplórias, corruptíveis, burras mesmo? E nos dizem: veio de cima, tem que ser assim, não tem jeito? Isso, no trabalho, na repartição pública, no atendimento de telemarketing. Sabe aquele ódio fumegante que sobe e dá raiva? Imagine um adolescente preso, tendo que lidar com regras imbecis a todo momento de sua internação?

É a mão para trás para ir ao banheiro, a blusa para dentro da calça, o abaixar a cabeça para sair da sala, a obrigatoriedade dos vocativos “senhor” e “senhora”, a rigidez de uma rotina enlouquecedora, o uso de uniformes numerados que reduz cada uma daquelas carinhas cheias de vivacidade (às vezes, de ódio) a um número, e uma sucessão imemorial de nãos.

Eu sempre brinco com eles que a Fundação CASA parece a insuportável diretora da escola da série Irmão do Jorel.

“Não pode!!!” 

Não pode colocar o pé na cadeira, não pode desenhar no caderno, não pode usar uma lista gigantesca de expressões, não pode levantar, não pode tocar, não pode abraçar, não pode, não pode, não pode. 

Às vezes querem até impor mapas de sala, reduzindo o espaço de cada um a míseros quadrados no chão. Todas as discussões da pedagogia crítica, da relação entre realidade e aprendizado, da necessidade de construção de identificação para impulsionamento e valorização para reconhecimento (que constam como prerrogativas legais e diretrizes no SINASE) são reduzidas a pó.

Todos esses “nãos” significam e simbolizam o poder controlador dessa instituição em impedir a reflexão, o livre pensamento, a educação e a emancipação. Ela morbidamente logra seu objetivo de reinserção numa sociedade doente ao reconduzir grande parte desses adolescentes para a descrença em si mesmos.

Obviamente, os meninos criam e recriam seus próprios sistemas de subversão.

Queria poder mostrar aqui suas linguagens, códigos e estratégias ma-ra-vi-lho-sas de colher sorrisos na desmoralização dessas regras imbecis.

Eles encontram meios de subverter a vigilância ostensiva, mas há consequências quando são pegos. Na clausura, seu corpo não é seu. Você não decide nada. Nem a hora que acorda, nem o que come, nem o que veste, o que ouve, com quem fala. Com o que isso se parece senão com um remodelamento da engranagem da escravidão? Pesado, não? Mas é isso, o aprisionamento é como uma morte social e simbólica. E pode ser também física, psicológica. Sempre muito real.

Gestão e (in)dignidade

A insistência por parte da gestão desses sistemas pelo controle dos corpos e mentes, por meio de burocracias enrijecedoras e imobilizantes é parte de um projeto que busca manter esses adolescentes à margem da sociedade. Nisso, o corpo gestor é protagonista em impor práticas, procedimentos e processos que visam à obediência, obliterando o potencial educador e transformador da medida socioeducativa.

E a educação, representada ali pelo ensino formal, ensino de arte e cultura e ensino profissionalizante, sujeita-se e reproduz o projeto ao aplainar-se para integrar-se.

Como Instituição Social, seria o papel da escola a garantia de acesso a direitos, à descoberta das vulnerabilidades, à diversidade como princípio e o combate às violências. Mas ali, dentro desse sistema perverso, ela atua como parceira: do caos, da disciplina desmoralizante, desintegrando e bombardeando qualquer tentativa de transformação ou mudança.

Sabe praia de tombo? A gente está sempre levando capote para sair, dando de cara com queixo na areia, vem a onda e te derruba. Você levanta, tenta de novo, nada um pouco para lá, para cá, ganha fôlego, tenta outra perspectiva… Pois é, o engessamento dessas instituições é degradante, humilhante, porque aquela cordilheira de “nãos” também se aplica às educadoras e aos educadores.

“Não pode!” E por quê?

“Porque não.”

Ah, mas vocês estão de brincadeira né? Eu lá sou educadora que se amacia com um não qualquer? Elaboro projetos fundamentados, com base em muita pesquisa, estudo e experiência, prática pedagógica. É necessária uma fundamentação do não.

“Ah, por questões de segurança”, eles vêm nos dizer.

Daí, a medida socioeducativa que, como prerrogativa, deve estar sustentada pelo tripé educação, saúde e segurança, se vê bombardeada pelo tanque de guerra da segurança como baluarte, que tem a força do senso comum, do preconceito e da ignorância. Tivemos que fazer uma série infindável de reuniões com a Diretoria de Ensino para exigir que os Centros fornecessem justificativa ao negar a realização de projetos dos professores - a Diretoria de Ensino, ao invés de atuar como instituição de garantia de direitos, se imiscui nessa parceria franco atiradora de insalubridade pedagógica.

Em tese, os documentos preconizam a multiplicidade de metodologias diferenciadas no processo pedagógico dentro da Fundação CASA com vistas à instrumentalização que engendre ampliação de repertório cultural, de paradigmas e à educação para a cidadania. Entretanto, na prática, o que vivenciamos é a valorização de uma educação bancária, com práticas estoicas com o objetivo de disciplinar, manter os adolescentes quietos, calados, mudos e controlados.

A gente se vê toda semana tendo que lembrar e bradar por coisas muito básicas como humanidade, direito à dignidade, à educação de qualidade.

Como educadora, acho que nunca evoquei tanto a liberdade de cátedra e a autonomia docente. As tentativas de intromissão, interferência e corrupção de nossas práticas pedagógicas são incontáveis e rotineiras, às vezes rasteiras e horrorosas, às vezes do alto do status quo e não menos horrorosas. A começar pela presença ostensiva de um funcionário a sua porta, às vezes fazendo comentários ruidosos, maldosos, desrespeitosos, às vezes entrando na sala, às vezes chamando um adolescente para consulta médica ou atendimento psicossocial, sem sinalização alguma.

Por exemplo, eu sempre atuo muito com produção. Acredito na metodologia de a gente tentar traduzir nossas discussões em linguagens diversas para que isso vá se entranhando nas nossas práticas cotidianas, comunicando ação, insubmissão e transformação.

Desenvolvi uma proposta junto com os meninos de a gente ouvir música durante esse momentos de produção, porque era uma coisa que eles estavam sentindo muita falta (imagine passar mais de três meses sem ouvir música de sua escolha) e também porque a música pode contribuir para a criação, para o voo dos pensamentos, para pensar - por um momento - livre das grades.

“Não!” foi a resposta que recebi. O nível dos argumentos:

“Mas que absurdo, como assim os meninos vão escolher as músicas?”

“Eles vão se acostumar com isso e vão querer escolher outras coisas.”

“A música vai atrapalhar as outras salas.”

“Os meninos não vão prestar atenção na aula e vão querer só escutar música.”

“A Normativa 62 da Fundação CASA impede o uso de equipamentos de mídia.”

“Como a gente vai saber que você não tá levando um comunicado do PCC lá pra dentro?”

“Eles vão usar a música como moeda de troca com você e você não vai conseguir controlá-los.”

Ainda bem, porque eu não quero controlá-los. E que bom que está escrito no ECA que os adolescentes devem ter acesso à arte e à cultura como forma de impulsionar o pensamento e a reflexão…

Foram necessárias reuniões com toda sorte de gestão até a proposta ser efetuada sob o olhar sanguinário dos vigias. Vocês não sabem o que é caminhar com a cabeça na mira de uma gestão caquética.

Outro exemplo que eu queria dar da potência da educação remada contra a maré da Fundação, foi a transgressão da inspiradora educadora, Thata. As tatuagens de palhaços simbolizam ligação à criminalidade, morte aos policiais. Desenhá-los dentro da Fundação CASA é extremamente proibido, assim como as expressões PJL (Paz, Justiça e Liberdade) e a inscrição numérica representativa de atos infracionais 155, 157, 33, etc.

Já presenciei agentes pedagógicos conversando e dialogando sobre a impossibilidade de manutenção dessa representação, dizendo não e só, e agentes socioeducativos rasgando cartazes de adolescentes que continham algum desses símbolos. Minha amiga Thata construiu oficinas incríveis de ressignificação desses palhaços, numa sensibilidade artística e força educativa propulsora de reflexão. Para além do “não” castrador.

A gente depende muito da estrutura de coordenação para o trabalho lá dentro. Somos coordenadas, no caso do ensino formal, pela coordenação da escola e cada unidade funciona como uma autarquia que tem autonomia para decisão de alguns processos burocráticos e procedimentos internos.

A direção de cada unidade e as coordenações pedagógicas, da área de saúde, psicossocial e de segurança são cargos comissionados - ou seja, a rotatividade é enorme e cada troca significa uma reorganização, retirada e reavaliação de projetos e processos pedagógicos em curso.

Então, pensar uma educação que leve em consideração o adolescente, sua vida, sua trajetória, sua experiência, seu cotidiano, que valorize e incendeie suas práticas, histórias, produções, desejos, vontades é constantemente se ver na mira de um alvo.

Ali a gente é alvo, como é esse adolescente em todo minuto de sua existência no mundão: preto, pobre, suspeito, ladrão. Vivenciar o poder dessa deslegitimação frequente me faz uma educadora melhor, com certeza, mas exaure, adoece. E eu aprendo todos os dias com os meninos que são rápidos demais no gatilho das ideias, no tiro das letras, amam ouvir poesia e fazem tudo virar canto de revolta.

É imperioso estar sempre inventando metodologias que sejam capazes de fundir a compreensão da realidade que eles já têm à ação para transformação, com informação e fortalecimento, para potência e autonomia, ampliação de perspectivas e múltiplos aprendizados - para não virar robô do sistema no mundo cão, educação como ferramenta, para criarmos juntes instrumentos que nos propiciem uma vida que a gente queria viver, desejosa, gostosa, prazerosa.

Eu sempre falo para eles que são todos guerreiros demais ao suportar as humilhações e provações diárias a que são submetidos ali. Imagina você não saber quanto tempo vai ficar preso e segurar essa onda, segurar essa barra. Dar conta de si quando demanda um direito como saber do andamento de seu relatório e te tratam de menor. ‘Fica na sua, menó”.

Segurar o psicológico com as tirações todas não é fácil e nem sempre eles conseguem. Lidam ali com gente, gente de todo jeito. E nem sempre o diálogo está entre as buscas dessas pessoas. O pior são os agentes socioeducativos, guardas da porta, que muitas reminiscências têm de quando a Fundação CASA ainda era FEBEM. Não há nada de educativo nesse “socioeducativo”. Tento olhar para essa categoria profissional como precarizada, sobrecarregada e mal remunerada, sem formação adequada, mas frente a tudo que vi e vivi ali não consigo.

Claro que sempre tem os fora da linha, os avessos da regra. Mas como ali a regra é deusa maior, ó, dai-nos força do além, porque na luta muitas vezes é necessário recorrer ao Ministério Público.

E a morosidade? Ah, a lentidão. O tempo da espera não é o tempo da vida. E pra adolescente sem visita, um dia é uma morte. Se eu, como educadora, me vejo sem ferramentas para exercer meu trabalho, imagine o adolescente. Uma cena muito dilacerante para mim é: “Bom dia meninos. Como vocês estão?” Resposta: “Tô preso”. São sementes de ódio, não de emancipação, que são plantadas nesse sistema feito para destruir mentes e corações. Mas, insistimos em florescer nesse asfalto fumegante e as discussões com essas feras letradas no rolê são espirais sem fim.

Queria aqui poder amplificar nossos podcasts que ficaram “zika do baile”, mas assinei termos em que parece que minha vida inteira será desgraçada caso algum desses materiais vaze.

Então recheamos esse relato com algumas das nossas produções de zines, já temos uma série de mais de 16 números, produzidos coletivamente, de revistas artesanais autorais em que as visões de mundo transgressoras, desobedientes, insubmissas e muito sagazes desses meninos são exibidas com criatividade, potência estética e muita cultura independente em movimento.

Sempre na contramão, assumindo a marginalidade como força para resistência, vamos pelas margens, já que a institucionalidade não nos serve.

Instigantes e instigades

A gente segue em luta, tentando aprender como o sistema funciona, para destruir ele por dentro.

Eles estão despertos e pulsantes! E o que a gente quer é que trilhem seus caminhos cientes de toda a sua potência criativa e de todos os mundos que possam inventar para viverem numa sociedade que os respeite como sujeitos que são. Uma sociedade não queira aprisionar seus corpos, massacrar sua cultura, aniquilar seu futuro e dizimar suas subjetividades.

Espero que, a partir de hoje, tenhamos cada vez mais força nessa transmissão, que precisa ser coletiva, ecoando que grades só servem para a destruição.

Sejamos abolicionistas.

Quem inventou as grades não sabe a dor da saudade.

E a Fundação é tudo, menos casa.

*

Pilar Carvalho Guimarães, educadora social e comunicadora popular, que atua em unidades da Fundação CASA em Campinas (SP). Pilar é graduada em Ciências Sociais e Mestra em Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Formada na militância feminista e na luta, como diz, ela atua nas áreas de gênero, diversidades, direitos humanos e comunicação popular. A educadora acredita na "luta coletiva por uma educação para autonomia e na revolução das existências livres" e "põe a revolta insubmissa para fora no @podarrozcomfeijao, um podcast de política, com boas doses de risadas e rebeldia".

Este relato foi escrito inicialmente para troca com incríveis professoras da educação infantil que organizam as 'Conversas de Portão' na creche-resistência.

[1] Sobre a urgência do abolicionismo penal e os colapsos criados pelo encarceramento em massa, sugiro Angela Davis e Juliana Borges. Antes da ideia das prisões, a re-formação dos indivíduos passava mais intrinsecamente por punições corporais, torturas e esquartejamentos, no modelo britânico que é propagado na colonização. A ideia das prisões tem a ver com um reformismo enraizado em ideologias religiosas - penitenciar os pecados e também com o alastramento do capitalismo como sistema de exploração dos corpos, as cadeias têm origem nos campos de trabalho forçado que visavam educar, re-adequar as pessoas e seus corpos para as longas horas de exploração perpetrada pelo novo sistema. Houveram muitas formas de resistência ao que vivemos hoje em plácida e complacente obediência. Mas é mais interessante que não saibamos delas, porque assim a gente se acostuma com a ideia de que prisão é a única solução para a violência. Vale aqui também Silvia Federici, Hannah Arendt e Michel Foucault. E toda a produção do Movimento Negro Organizado, das Mães de Maio, Movimento Moleque, entre outros na batalha nas ruas e na política institucional, como visto no livro “Memorial dos Nossos Filhos Vivos – as vítimas invisíveis da democracia”, organizado por Débora Maria da Silva, as falas de Maria Teresa dos Santos, Juliana Sanches.

[2] INFOPEN, últimos dados são de 2015, o que já revela o descaso e abandono.

[3] A UFRJ tem estudos comprovando esse olhar enviesado no caso de encarceramento de adultos.