Os caminhos de Bolsonaro e Trump após encontro "anticlímax" na ONU

Os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump durante encontro no jardim da Casa Branca, em Washington, em março. (Carlos Barria/Reuters)


Donald Trump, carrancudo e circunspecto, espera sozinho o jantar.

O garçom leva a ele uma bandeja. No prato está o colega brasileiro, Jair Bolsonaro, que apoia os cotovelos para segurar a cabeça enquanto olha apaixonado, deitado de bruços, para o líder americano.

A charge publicada por Laerte no dia em que Bolsonaro discursou na ONU ganhou contornos reais quando o capitão foi conduzido, após sua fala aos lideres globais, até a sala “GA-200" da ONU, onde Trump aguardava a sua vez.

Segundo diplomatas que testemunharam a cena e a relataram ao colunista Lauro Jardim, de O Globo, Bolsonaro mandou um “I love you” ao colega.

Recebeu, de volta, um breve “Que bom te ver de novo”.

Parece uma cena menor, dessas que rende mais fofoca do que reflexões, mas não é. Trump tinha mais com que se preocupar: no terreno doméstico, enquanto jurava que seu país jamais seria picado pelo socialismo, Nancy Pelosi, presidente da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, anunciava a abertura de um inquérito formal de impeachment contra o presidente.

Trump é acusado de tentar recrutar estrangeiros para interferir a seu favor na eleição de 2020. Isso porque teria pedido ao presidente da Ucrânia que ajudasse seu advogado a investigar o filho de Joe Biden, um dos pré-candidatos democratas para a eleição presidencial do ano que vem.

O escândalo é simbólico em um momento em que tanto se falou em soberania nos discursos na ONU.

Bolsonaro, por exemplo, falou grosso aos congêneres europeus que veem a Amazônia como um patrimônio da humanidade, mas por pouco não deixou escapar que nem mesmo o mais patriótico conceito de soberania resiste a uma franja desbotada sob a fronte alaranjada como a de Trump. (Enquanto ele falava sobre a floresta, 11 petroleiras estrangeiras salivavam em um seminário da Agência Nacional do Petróleo que apresentou aos interessados as regras do próximo megaleilão do pré-sal agendado para novembro).

Bolsonaro, que pode ver em breve países como Argentina, Itália e Israel sob governos de lideranças não alinhadas ao chamado populismo de direita, não pode sequer pensar como seria o dia seguinte a um possível impeachment de Trump no país onde seu filho pode vir a ocupar o cargo de embaixador.

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Enquanto aguarda, seria bom entender os sinais políticos em seu próprio quintal. Pesquisa Ibope divulgada na quinta-feira, dia 25, apontou a queda na aprovação de seu governo, de 35% em abril para 31% em setembro. O índice é inferior aos que consideram sua gestão regular (32%) ou ruim e péssima (34%).

Hoje, há mais gente que desconfia (55%) do que confia (42%) no presidente, e a perspectiva de que tudo um dia vá melhorar caiu de 45% para 37%.

A aprovação do governo é menor no Nordeste (20%), enquanto no Sul 36% ele é avaliado como ótimo ou bom. Essa é a grande novidade da pesquisa: em junho, o índice lá era de 52%.

A queda na região onde tem mais popularidade ainda precisa ser interpretada, mas pode estar associada com o paulatino divórcio entre o presidente e os apoiadores da Lava Jato, cuja força-tarefa era baseada em uma cidade da região, Curitiba.

Indicado por Bolsonaro fora da lista tríplice do Ministério Público Federal, o que causou revolta entre apoiadores do governo, o novo procurador-geral da República, Augusto Aras, acaba de ser aprovado pelo Senado após uma sabatina em que condenou os excessos da operação. “Talvez tenha faltado cabeça branca, para dizer que tem certas coisas que pode, mas há muitas outras que não podemos fazer. Os ministros do Supremo e o procurador-geral da República podem muito, mas não podem tudo”, discursou Aras.

Aras soube sair pela tangente, sem grandes confrontos, nos temas espinhosos durante a sabatina. Precisará mostrar o mesmo equilíbrio quando chegarem em seu gabinete investigações que respingam em seu apadrinhado político, sobretudo as que envolvem o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).