'True crimes' escancaram os prazeres e os riscos de julgar a vida alheia

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Rio de Janeiro (RJ), 25.09.1992 A atriz Daniela Perez. (Foto: Ana Branco/Folhapress)
Rio de Janeiro (RJ), 25.09.1992 A atriz Daniela Perez. (Foto: Ana Branco/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - De um lado, Guilherme de Pádua diz que era assediado por Daniella Perez, o que ameaçava seu casamento. De outro, o elenco de "De Corpo e Alma" diz que era o ator que assediava a atriz em busca de protagonismo na novela da qual sua mãe, Gloria Perez, era autora.

De um lado, Suzane von Richthofen é impulsiva, briguenta, viciada em maconha e vítima de estupros do pai. De outro, sua família vive um conto de fadas arruinado pela chegada de Daniel Cravinhos, que a obriga a se drogar e a instiga a brigar com os pais.

Uma nova tendência da cultura pop, as histórias de crimes reais --ou "true crimes", como são conhecidas-- nos levam aos tribunais com um lugar garantido não na plateia, mas na cadeira do juiz, para o que mais gostamos de fazer: julgar a vida alheia.

É difícil assistir a "Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez", série que estreia na HBO Max na quinta-feira, dia 21, sem chegar ao fim com um mesmo veredito sobre o caso --igual ao de Gloria Perez, provavelmente, já que a produção, que tem como fio condutor um depoimento da novelista, não ouve os condenados nem seus advogados.

É a mesma proposta dos filmes sobre o caso Richthofen, "A Menina que Matou os Pais" e "O Menino que Matou Meus Pais", lançados pelo Prime Video, e de outros tantos que estão por vir, como o do caso Isabella Nardoni, ainda sem previsão de estreia.

A "gamificação" sob a qual estamos cada vez mais submetidos, nas redes sociais e nas escolas, parece ser a chave do sucesso dos "true crimes".

É uma experiência que, entretanto, corre o risco de se deixar levar pelo maniqueísmo tão saboroso e palatável sobre o qual se constroem histórias tão antigas como a de Adão e Eva e, com isso, reforçar estigmas sociais.

É um deslize do qual "Pacto Brutal" não consegue escapar. O seriado lança uma cortina de fumaça em torno da sexualidade de Guilherme de Pádua, que antes de ingressar na TV Globo tinha feito parte de um musical de uma travesti e de um filme sobre michês. A produção ainda pinta Paula Thomaz, sua mulher, como alguém que, relegada a viver às margens do marido, teria matado Perez como parte de um ritual satânico.

Num país como o Brasil, escancaradamente homofóbico, machista e preconceituoso contra religiões com matriz africana, os documentaristas não precisavam de mais nada para moldar a opinião pública contra o casal, estratégia que também foi adotada pelos advogados da vítima no tribunal do júri.

Se é que é preciso dizer, são críticas que não têm como objetivo questionar a culpabilidade de ambos. Para isso, não há nem sequer espaço para discussão, visto que a Justiça os condenou pelo assassinato da atriz --mas pelo crime, e não por Guilherme supostamente ser homossexual ou Paula supostamente fazer parte de uma religião que foge ao cristianismo.

Por outro lado, se crimes são o retrato mais cabal que temos de uma sociedade, os "true crimes", quando bem-feitos, podem levar a reflexões oportunas e escancarar as falhas da Justiça, da polícia e da mídia, além de levar à reabertura de processos para a revisão de julgamentos injustos.

Não é o caso de nenhum programa policial como "Linha Direta", que geram medo e levam a população a ver o encarceramento em massa ou a pena de morte, por exemplo, como solução para os problemas que batem às suas portas.

Mas é o caso de "Praia dos Ossos", um podcast da Rádio Novelo sobre como a socialite Ângela Diniz, morta a tiros em 1976 pelo namorado, Doca Street, foi de vítima à culpada pelo próprio assassinato sob influência da polícia e de jornais, que estampavam manchetes como "a infelicidade de uma mulher destruiu um lar", levando o réu a sair do tribunal não só inocentado como ovacionado por fãs.

"O Caso Evandro", que começou como podcast para depois ganhar as telas e as páginas, é outro exemplo. Seu autor, o jornalista Ivan Mizanzuk, não só chegou mais próximo do que a polícia de elucidar o caso, mas descobriu que as duas condenadas pelo assassinato, por politicagem, tinham sido torturadas para confessar um crime que não cometeram. Levadas à prisão, elas foram acusadas de bruxaria pela imprensa, que reproduzia o que as autoridades diziam sem questionamentos.

Eis duas provas de como toda história tem no mínimo três versões --a minha, a sua e a que realmente aconteceu--, uma constante que, por mais clichê que pareça, pode ser um bom guia entre os "true crimes" que vemos, escutamos ou lemos.

PACTO BRUTAL - O ASSASSINATO DE DANIELLA PEREZ

Onde: Minissérie em cinco episódios disponíveis a partir de quinta (21), na HBO Max

Classificação: 16 anos

Produção: Brasil, 2022

Direção: Tatiana Issa e Guto Barra

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