Trisais usam redes sociais para mostrar rotina não-monogâmica: 'Não é bagunça'

Por Janaina Bernardino

Para parte considerável da sociedade brasileira, três pode ser demais em um relacionamento amoroso. No entanto, aqueles que vivenciam a não-monogamia defendem que a emancipação do ato de amar se constrói quando o amor e a liberdade caminham juntos. Quando tal sentimento se multiplica, seja de qual forma for, sem rótulos ou amarras.

Para eles, três não é demais. Nem quatro ou cinco quando as pessoas podem escolher que tipo de relacionamento querem vivenciar, para além da configuração tradicional que conhecemos.

O psicólogo Filipe Starling, autor do livro ‘Não-monogamia responsável: abrindo a relação com o cuidado que ela merece’, ressalta que a não-monogamia deve ser uma construção conjunta, consensual e amorosa. “Eu particularmente defendo que toda não-monogamia seja pautada por uma ética do cuidado”, afirma.

Douglas, Maria Carolina e Klayse em ensaio (Foto: Arquivo pessoal)
Douglas, Maria Carolina e Klayse em ensaio (Foto: Arquivo pessoal)

É o que preza o trisal formado pela arquiteta Maria Carolina Rizola, o bombeiro militar Douglas Queiroz e a consultora comercial Klayse Marques, de Londrina. A história de amor inicialmente começou com Maria e Douglas, que estão juntos há 10 anos e, em setembro, do ano passado, conheceram Klayse pelo Tinder. Segundo eles, foi amor à primeira vista.

Noivos, eles hoje dividem a casa, a cama e a vida, e compartilham nas redes sociais, pelo perfil @meutrisal no TikTok e Instagram, a rotina a três. Utilizam a internet como uma aliada, não só para democratizar informações, mas também para impulsionar relações semelhantes. “É inacreditável a quantidade de pessoas que chegam até nós e contam suas histórias. Muitas vivem algo assim e não expõem por medo de julgamentos…Legal que eles desabafam com a gente. Confiam”, relata o trisal.

Em um relacionamento fechado, o triângulo amoroso já gerou frutos, o "polibaby" Henrique, como é chamado. Mesmo com poucos dias do nascimento, os pais já deixam claro o que pretendem instaurar na criação do novo membro da família. “Independente do formato, queremos criar o nosso filho baseado nesse sentimento de amor e respeito pelas pessoas e suas escolhas”, frisam.

Nas redes sociais, destacam que outros núcleos familiares também são exemplos de afeto, cuidado e responsabilidade afetiva. “Nós queremos mostrar para as pessoas que nossas famílias existem. Não é bagunça, vivemos como pessoas normais, fazendo coisas normais”, garantem. Isso também é destacado pelo psicólogo Filipe Starling. “Não-monogamia e amor livre não são bagunça, não é um vale-tudo.”

Tripé do amor

Outras famílias poliafetivas também chamam a atenção nas redes, como os idealizadores do perfil do Tiktok e Instagram @nossatriiiade, de Salvador. A arquiteta Isane Farias e o eletrotécnico Igor Almeida estavam juntos desde 2009 até que, em 2017, resolveram abrir o relacionamento. Em 2020, o casal virou tri com a chegada da psicóloga Íris.

Isane e Íris se conheceram em uma despedida de solteiro de uma amiga em comum e se apaixonaram. Já Igor diz que ganhou na loteria do amor duas vezes. Apesar de ele e Isane serem do movimento não-monogâmico, os dois nunca tinham idealizado um trisal. Foi com o tempo e alguns questionamentos que eles entenderam que os planos e os sonhos já eram construídos a três. Desde de outubro de 2020, em meio à pandemia, passaram a morar juntos.

Adeptos ao amor livre e plural, eles são um trisal, mas sem um contrato de exclusividade e investem na não-monogamia saudável, tendo a tríade poliafetiva como a base do relacionamento. “Nós temos um tripé que acreditamos ser fundamental para nossa relação: a liberdade, o amor e a comunicação”, contam.

Mesmo morando juntos, as especificidades de cada um se mantém - todos têm a autonomia de se relacionar tanto afetiva quanto sexualmente com outras pessoas. Segundo eles, o propósito é olhar para si, entender suas vontades e questionar o que é imposto socialmente.

Isane, Igor e Íris juntos (Foto: Arquivo pessoal)
Isane, Igor e Íris juntos (Foto: Arquivo pessoal)

“Todas as referências que temos são pautadas na monogamia, não há representações de famílias como a nossa em novelas ou filmes e por quê?”, reflete íris. “Nós buscamos construir e nutrir vínculos, baseado na liberdade e no autoconhecimento”, completa.

Incentivados pelos amigos, eles passaram a não só compartilhar a rotina a três, como também produzir e indicar conteúdos sobre a não-monogamia, seja de forma informativa ou mais descontraída, como as trends do momento. Hoje, eles contam com mais 24 mil seguidores no TikTok e 29 mil no Instagram. “Começamos os conteúdos pelo TikTok e depois nos concentramos também no Instagram. Além do dia a dia, criamos conteúdos informativos, para desconstruir as informações equivocadas sobre o nosso modo de viver. Então, decidimos não só passar a informação adiante, mas também estudar para entender melhor o que vivemos”, fala o trisal.

A "triiiade", como eles são conhecidos nas redes sociais, ainda deixa um recado para quem está se permitindo adentrar o movimento não monogâmico. “Ter paciência com o processo é fundamental e, claro, entender e respeitar os seus limites. A não-monogamia tem muito haver com autoconhecimento, algo que é construído coletivamente sim, mas é preciso dialogar com as relações que você deseja nutrir”.

Mas, afinal, por que o poliamor e a infidelidade são vistos como sinônimos?

Para Filipe Starling, não é possível que apenas um modelo de relacionamento sirva para todas as pessoas do planeta. Ele afirma que as pessoas precisam escolher que tipo de relação faz mais sentido para elas.

No entanto, há uma equivalência entre o conceito de fidelidade e a exigência de exclusividade. “No poliamor, os parceiros não fazem questão da exclusividade, então as pessoas logo associam com traição, pois esse é o referencial que elas trazem consigo, essa é a não-monogamia que elas conhecem”, pontua. “Não há nada de errado em querer exercer a própria sexualidade de uma maneira ética e respeitosa, mesmo que seja com várias pessoas”, destaca.

O psicólogo ainda reafirma que no poliamor as pessoas são fiéis a si mesmas e à relação, aos acordos estabelecidos consensualmente. “É curioso como se fala muito sobre trair uma outra pessoa, mas pouco se fala em trair a si mesmo (auto-traição)... Por que não falamos sobre a necessidade de sermos fiéis a nós mesmos antes de tudo?”, questiona.

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