'Trem-Bala' vê a morte no Japão de Shinzo Abe e terá filme frenético com Brad Pitt

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Falar em trem-bala no Brasil é pensar ora no sonho de Lula e Dilma de ligar Rio e São Paulo que nunca deu certo —rendendo duas estatais com prejuízo de lambuja—, ora num delírio do folclórico Levy Fidelix e seu aerotrem que adicionaria Campinas a essa conexão sudestina. O "Trem-Bala" que agora chega ao país, porém, não é bem um comboio, mas uma leitura adequada para o trajeto Jundiaí-Jabaquara, com baldeação na Luz —a leitura é rápida, mas nem tanto.

Sucesso de vendas no Japão e primeira obra do autor Kotaro Isaka publicada no Brasil, o livro é vendido como um thriller alucinante à moda de Tarantino e irmãos Coen —o que pode funcionar como "blurb", mas não são as comparações mais precisas, ainda que a trama envolva cinco assassinos inusitados atrás de uma maleta durante a viagem num Shinkansen, o famoso trem ultrarrápido japonês.

Mas a verve cinematográfica se justifica. Em julho, chega às telonas a adaptação estrelada por Brad Pitt e Sandra Bullock, dirigida por David Leitch —de "Deadpool 2"— e que impulsiona o lançamento da editora Intrínseca. Sobre ela, Isaka adianta não saber de nada, apesar do orgulho do sucesso em solo americano.

"É estranho que agora um livro meu vire um filme de Hollywood, parece um sonho. Mas não é diferente do que sinto quando um livro é adaptado ao cinema japonês", afirma ele. Com quase 40 livros escritos nos últimos 20 anos, já soma mais de dez adaptações no Japão e na Coreia do Sul. Algumas são bem competentes, é bom que se diga, como "Fish Story", de 2009, com uma trama ousada que antevê o badalado "Não Olhe para Cima" em mais de uma década, e ainda costura o drama apocalíptico com o pós-guerra no Japão e a consolidação da cultura dos Estados Unidos no país.

"Há muitos diretores que eu gostaria que adaptassem um livro meu, mas infelizmente Tony Scott, meu favorito, já morreu", diz o autor. O destaque é para ninguém menos que o autor de "Incontrolável", no qual Denzel Washington enfrenta um trem prestes a condenar centenas de milhares de vidas.

A obsessão por essas serpentes de ferro se repete ainda numa de suas criações. O matador apelidado de Limão ama a série infantil "Thomas e Seus Amigos" (estrelada por trenzinhos falantes), e solta mil referências a ela ao longo das 460 páginas do romance. "Na época [da escrita do livro, publicado no Japão em 2010], meu filho gostava muito de 'Thomas'", justifica o autor.

Já seu parceiro no crime, Tangerina, é um literato, que troca a infantilidade pela literatura mundial, citando de Tolstói a Yukio Mishima. "O que me fez hesitar, no início, foi a percepção de que esse tipo de personagem, viciado em filmes ou música, não é um conceito muito original", confessa o autor, que em alguns momentos teria uma obra mais fluida se fosse mais sintético. "Escrever um livro é, em última análise, juntar coisas que causam diferentes impressões", acredita.

Dessa mistura inusitada que dá suas pitadas de humor, a citação mais repetida é "Ao Farol", de Virginia Woolf, cujos múltiplos narradores espelham o que Isaka usa como instrumento narrativo. Cada capítulo trata de um ponto de vista diferente, em vagões diferentes do trem, e, mesmo com a abundância de personagens, Isaka tem o mérito de não confundir o leitor numa história para lá de enrolada, com mais diálogos que lutas.

Limão e Tangerina são contratados para resgatar o filho de um chefão do crime no Japão e ainda trazer a maleta com o resgate de volta. Nisso, um outro matador azarado, Nanao (que será o personagem de Pitt no filme) está atrás da maleta e fica em contato direto com sua intermediária, Maria Beetle (que intitula o romance em japonês, e será vivida por Bullock).

Ele até consegue botar as mãos no objeto algumas vezes, mas nunca consegue descer do trem que vai de Tóquio a Morioka. Aos poucos, tudo vai dando errado. Em paralelo, o assassino alcoólatra Kimura vai atrás de um rapaz conhecido como Príncipe, que quase matou o seu filho pequeno.

Daí que muitas vezes a trama principal se confunde com a questão que esse núcleo paralelo levanta —em suma, o que é o mal? Para Isaka, ele pode bem ser um estudante de ensino médio que entende os mecanismos do mundo e não tem escrúpulos na hora de torturar colegas ou chantagear adultos.

"Minha primeira intenção era que ele fosse como uma metáfora para 'a coisa mais assustadora do mundo', mais ainda que o próprio assassino", define Isaka. "Sinto que eventos horrendos como guerras são sempre causados por psicologia coletiva, pressão do grupo. Por isso decidi introduzir uma personagem que controlasse esses seus impulsos humanos."

Isso tudo diante de um bando de matadores, o que Isaka diz não existir na vida real. Naturalmente, a entrevista foi anterior ao assassinato de Shinzo Abe —este mesmo um fato incomum frente à violência armada praticamente nula no Japão, onde o acesso a armas é dificultado.

"Muitos leitores japoneses o interpretam como um 'jovem antissocial desagradável' e, nesse sentido, sinto que foi uma falha da minha parte na sua descrição". Infelizmente, por outro lado, massacres promovidos por jovens desconectados da realidade social não saíram de moda nos últimos 12 anos.

Parte dessas ideias lembram muito outras obras japonesas das últimas décadas, como "Death Note" e "Neon Genesis Evangelion", em que adolescentes (nem sempre com uma bússola moral bem definida) ganham poderes capazes de salvar ou destruir o mundo. Mas, conforme a leitura avança, a ideia parece cada vez mais chupinhada da frieza do protagonista edipiano de "O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar", de Yukio Mishima. Se vale a comparação com Tarantino aqui, afinal, é pelo aglomerado de citações.

Se "Trem-Bala" sobreviver a esta viagem pelo Brasil, e a depender do sucesso nas telonas —cujo trailer já adianta uma série de mudanças em relação ao livro—, Isaka já tem outras obras publicadas que dialogam com essa, como "Grasshopper", ou gafanhoto, e "AX" —também com assassinos excêntricos—, além de outras que ele define como "mais experimentais". Quem sabe outros títulos do seu cardápio deem mais vontade de repetir a viagem.

TREM-BALA

Preço R$ 69,90 (464 págs.); R$ 46,90 (ebook)

Autor Kotaro Isaka

Editora Intrínseca

Tradução André Czarnobai

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