'Trem-Bala' traz Brad Pitt e Sandra Bullock lutando contra assassinos em Tóquio

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Luzes cintilantes ricocheteiam pelos vagões de um trem, fazendo a lataria brilhar de forma ritmada entre um túnel e outro. Na trilha sonora, a versão em japonês de "Stayin' Alive" reforça o clima de festa e embala os jatos de sangue que esguicham dos personagens, enquanto armas e facas dançam pelos ares. Essa energia caótica guia a viagem dos passageiros de "Trem-Bala", filme que chega agora aos cinemas.

Tudo nessa coreografia cheia de ação e sem sutilezas é afetado. As cores neon e o cenário irrefreável -um trem de alta velocidade que liga Tóquio a Kyoto- deixam o longa de David Leitch frenético, e o espectador, sem paradas para respirar.

Uma adaptação do livro homônimo do japonês Kotaro Isaka, "Trem-Bala" acompanha um grupo de assassinos que embarca num mesmo trem. Eles não sabem, mas as missões que os levaram àquela estrada de ferro estão interligadas e, por isso, cada um está, inadvertidamente, no caminho do outro.

"O trem é muito importante para essa história, porque quando embarcamos em um, nós confiamos que ele vai nos levar ao nosso destino. No caminho há paradas, gente que sobe e desce, de todo o tipo. Não tem a ver com chegar ao destino, mas com a jornada", diz o ator Brian Tyree Henry, de "Eternos". "A diferença no nosso filme é que imaginamos como isso seria com um bando de sociopatas a bordo -e a viagem continua divertida."

Tyree Henry faz um dos assassinos, um tipo fissurado no desenho animado "Thomas e Seus Amigos", sobre uma locomotiva ambulante que distribui lições de vida. As menções constantes à série escondem seu metiê, que ele divide com o que seria seu irmão gêmeo, vivido por Aaron Taylor Johnson -e é aí que começam algumas das gracinhas do roteiro, já que um é negro e o outro, branco.

Também receberam passagens para o trem os atores Michael Shannon, Sandra Bullock, Logan Lerman, Joey King e Zazie Beetz, num elenco encabeçado por Brad Pitt. No longa, ele retoma a parceria com o diretor David Leitch, embora num contexto inédito -nos anos 1990 e 2000, eles trabalharam juntos em vários projetos, mas numa relação de ator e dublê.

Leitch se passou por Pitt nas cenas de ação de filmes como "Clube da Luta". Foi na função de dublê e, depois, coordenador da área que o americano se firmou em Hollywood, antes de dirigir filmes como "Atômica", "Deadpool 2", "Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw" e, agora, "Trem-Bala" -todos pautados por muita ação, como se ele fizesse questão de levar seu passado de dublê ao presente de cineasta.

"Foi divertido criar essa nova dinâmica de trabalho com ele e também muito especial, porque nós somos amigos, temos toda uma história. Enquanto dublê, você ajuda o ator a construir o personagem. Agora, fizemos isso de novo, mas num outro tipo de parceria, o que é como o fechamento de um ciclo", diz Leitch.

Ator e cineasta são hoje duas das principais vozes em Hollywood defendendo que a indústria dê mais reconhecimento aos departamentos de dublês, essenciais para filmes cheios de ação como "Trem-Bala", mas também para muitos dramas intimistas. Uma das principais demandas do movimento é que o Oscar crie uma categoria dedicada à área.

"Não é justo que na noite em que todo mundo se reúne para celebrar o cinema, em que todos que contribuem para um filme ser feito são reconhecidos, um único departamento fique de fora", diz Leitch, que acredita que seu novo longa não seria o mesmo sem uma equipe de dublês de primeira.

Mesmo fofa, a história sobre a reunião do cineasta com Brad Pitt não foi bem-recebida por todos. "Trem-Bala" já foi acusado de "whitewashing", termo em inglês usado quando alguém tenta "embranquecer" uma história. No caso, o estúdio Sony preferiu escalar atores ocidentais, como Pitt, em vez de orientais, como na história original de Kotaro Isaka.

O próprio autor, no entanto, saiu em defesa do filme, afirmando que a escolha faz sentido para que sua obra viaje para além do Japão, para que dialogue melhor com outros públicos. A explicação é repetida por Leitch, que chegou ao projeto quando a decisão de ocidentalizar os personagens já havia sido tomada. Ele frisa que seu elenco é diverso e inclusivo, com personagens negros, o cantor latino Bad Bunny e, também, uma parcela japonesa, nas figuras de Hiroyuki Sanada, Andrew Koji e Karen Fukuhara.

Mas Brad Pitt, branco e loiro, é o verdadeiro rosto de "Trem-Bala" e, embora o discurso de representatividade seja nobre, soa desconexo numa indústria que vem mostrado esforços no que diz respeito a mulheres, negros e a população LGBTQIA+, mas que ainda patina quando o assunto é inserir talentos asiáticos nas telas. Agora que uma história ambientada no Japão enfim recebe um orçamento robusto de um grande estúdio, boa parte do cachê acabou desviado desse grupo.

Ao menos a rota do trem que dá nome ao longa não mudou. Era importante, diz o cineasta, manter a ambientação da história no Japão. Para dar o tom psicodélico e fantasioso que queria, Leitch buscou inspiração em mangás e outros desenhos do país, a fim de criar o que ele chama de "uma realidade não real", como uma versão alternativa do nosso mundo.

O trem visto em cena é cenográfico, mas as paisagens que cortam suas janelas vieram de gravações reais do trajeto Tóquio-Kyoto, que passaram pela sala de efeitos especiais para ganhar um tom onírico e cores mais fortes.

Esse flerte com os animes nos remete a "Kill Bill", em que Quentin Tarantino também assimilou influências japonesas para narrar uma história que jorrava sangue. Os golpes violentos deferidos por Pitt e o resto do elenco, bem como as mortes ruidosas e por vezes nonsense, são entrecortadas por um humor ácido e uma trilha sonora inconfundível, transformando "Trem-Bala" numa viagem que não aparenta ter destino certo.

TREM-BALA

Quando Estreia nesta quinta (4), nos cinemas

Classificação 16 anos

Elenco Brad Pitt, Sandra Bullock e Andrew Koji

Produção EUA, Japão, 2022

Direção David Leitch

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