"Travessia": novela mal estreou e já está repleta de vícios de Gloria Perez

Não precisaria nem o nome de Gloria Perez constar nos créditos de "Travessia" para que o público logo percebesse que se trata de uma trama da autora. Isso porque, com poucos capítulos exibidos, já estão escancarados alguns dos grandes vícios narrativos da escritora. Sim, a novela traz de volta três personagens de Salve Jorge (2012): Helô (Giovanna Antonelli), Stênio (Alexandre Nero) e Creusa (Luci Pereira). Mas as semelhanças vão bem além deste fato.

O personagem de Marcos Caruso, o professor Dante, por exemplo, se assemelha a figuras como tio Ali (Stênio Garcia) e Shankar (Lima Duarte) de outras histórias da roteirista, ou seja, sábios anciões que ajudam a guiar os outros.

Confira algumas das outras peculiaridades de Gloria Perez que já podemos identificar em "Travessia":

O triângulo e a cultura

Jade Picon e Chay Suede em
Jade Picon e Chay Suede em "Travessia" (Globo/Fábio Rocha)

Quem assistiu às últimas novelas da novelista sabe que ela gosta de um bom triângulo amoroso. Se este triângulo envolver alguma questão cultural, melhor ainda. Foi assim em "O Clone", na qual a muçulmana Jade (Giovanna Antonelli) se apaixonava perdidamente por Lucas (Murilo Benício), mesmo ele sendo de um mundo completamente diferente do seu, e acabava se casando com Said (Dalton Vigh). Ou em "Caminho das Índias" (2009), em que Maya (Juliana Paes), uma moça indiana, precisava esconder que teve um filho com Bahuan (Márcio Garcia), um rapaz de outra casta, e se casava com Raj (Rodrigo Lombardi).

Até mesmo em "A Força do Querer" (2017), trama em Ritinha (Isis Valverde) era namorada de Zeca (Marco Pigossi), mas se envolvia com Ruy (Fiuk), apesar de seu estilo do interior do Pará contrastar com o jeito mimado de cidade grande dele.

Agora, em "Travessia", é a vez de Brisa (Lucy Alves), mulher de Ari (Chay Suede), e uma mulher que tem o Maranhão na alma, se relacionar com Oto (Romulo Estrela), um hacker que habita um universo totalmente distante do dela.

Muita modernidade

Gloria é uma escritora que gosta de explorar as novidades da tecnologia em suas novelas. Em "Explode Coração" (1995), por exemplo, ela tratou de um casal que se conhecia por meio da internet, algo extremamente incomum à época e que foi tratado quase como ficção científica. Em 2001, com "O Clone", a autora mergulhou de cabeça nesse conceito, ao tratar justamente da clonagem humana.

Logo no primeiro capítulo, "Travessia" se mostrou um suco concentrado destes temas que a roteirista tanto aprecia. Foi mostrado um lançamento de um shopping com direito a tudo que se possa imaginar: hologramas, drones que entregam compras e até mesmo seleção de roupas dentro do metaverso. E olha que isso tudo aconteceu, dentro da cronologia da trama, no começo dos anos 2000. Realmente, muita modernidade.

“Pobre de quem não consegue voar”

Chay e Lucy Alves em cena de
Chay e Lucy Alves em cena de "Travessia" (Foto: Divulgação/Rede Globo)

Uma das frases mais emblemáticas de Glória Perez buscava responder a quem a acusava de exagerar demais nas histórias que contava, fugindo da verossimilhança. Pois a estreia de Travessia já teve de tudo e mais um pouco para aqueles que gostam de “voar”. No primeiro capítulo, Moretti (Rodrigo Lombardi) se atirou da janela de um hotel e sobreviveu – isso depois de Guerra (Humberto Martins) dar vários tiros no quarto e não certar nenhum. Enquanto isso, a segurança do hotel estava simplesmente desaparecida.

Depois, Débora (Grazi Massafera) sofreu um acidente de carro, que capotou diversas vezes. Mesmo assim, a filha dela conseguiu se salvar. Tem ainda a história da moça que se casa com o ex da irmã e decide não contar nada para ela, achando realmente que isso não vai dar problema algum.

Adicione isso a uma sequência em que se fala um pouco sobre os mitos do Maranhão e está pronta a salada de frutas que é uma novela de Gloria Perez. Haja voo.