"Travessia": 5 pontos que explicam o fracasso histórico da novela

Trama de Gloria Perez é marcada por pontos questionáveis

À esquerda, Ari (Chay Suede), Brisa (Luci Alves) e Oto (Romulo Estrela) durante ensaio promocional; à direita, cena de Guerra (Humberto Martins) e Chiara (Jade Picon) em
À esquerda, Ari (Chay Suede), Brisa (Luci Alves) e Oto (Romulo Estrela) durante ensaio promocional; à direita, cena de Guerra (Humberto Martins) e Chiara (Jade Picon) em "Travessia" (Fotos: Globo/ Fábio Rocha | Reprodução/Globo)

Resumo da notícia:

  • "Travessia" alcança índice histórico de audiência baixa

  • Novela de Gloria Perez é marcada por pontos questionáveis

  • Reunimos motivos que explicam o fracasso do folhetim

Há quase três meses no ar, "Travessia" bateu recorde histórico de fracasso em uma novela das nove. A trama escrita por Gloria Perez registrou apenas 14,5 pontos do Ibope, na Grande São Paulo, na noite de Ano Novo. Os dados da Kantar Ibope Media foram divulgados pela VEJA.

Com isso, o folhetim protagonizado por Lucy Alves, Chay Suede e Romulo Estrela desbancou "O Sétimo Guardião", que chegou a marcar 15,2 pontos em 24 de dezembro de 2018, noite da véspera de Natal, como pior número até então. Diante desse resultado, a pergunta: o que deu errado na história dirigida por Mauro Mendonça Filho?

Tecnologia aleatória

Logo na estreia de "Travessia", o público já se deparou com uma passagem de tempo bastante confusa. O motivo? A tecnologia avançada no que parecia ser a década de 1990 e a falta de continuidade com o salto temporal para meados de 2022.

Isso porque os personagens de Humberto Martins e Rodrigo Lombardi apresentaram um conceito tecnológico na inauguração de um shopping que entregaria provadores virtuais há cerca de 20 anos. Os clientes não precisariam nem trocar de roupa para escolher as peças, já que hologramas fariam esse papel com realidade aumentada.

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Já no início de dezembro, o bar do núcleo de Vila Isabel ganhou um garçom chamado Haroldo, que é simplesmente um robô, o que ainda não é comum nesses estabelecimentos. Além de servir as mesas do local, o personagem também emite frases e dá sinais emotivos que são resultados de protocolos digitais de comunicação enviados remotamente. Nas redes sociais, os espectadores não perdoarem a aleatoriedade.

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Escalação de Jade Picon

Sem ter formação nem experiência como atriz, Jade Picon estreou nas telas como intérprete de Chiara meses após sair do "BBB22". A jovem recebeu uma autorização especial do Sated-RJ (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro) para o papel e acabou ganhou bastante espaço na trama ao viver um triângulo amoroso com Ari (Chay Suede) e Brisa (Lucy Alves).

O problema é que ficou nítido o quanto a principiante ainda não desenvolveu habilidades para uma personagem com tamanho destaque e o público não perdoou o privilégio da ex-BBB. O sotaque carioca que escorrega num som de "S" foi uma das críticas mais frequentes.

Se a intenção era alavancar o engajamento da novela com um nome de muita visibilidade nas redes sociais, a medida rendeu memes e muitas críticas.

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No entanto, Gloria defendeu a escolha de Jade e garantiu que ocorreu uma seleção. "Jade fez teste e surpreendeu, só por isso foi escolhida. E desde então vem sendo preparada. Nenhuma arte tem uma única porta de entrada. É claro que o ideal é que a pessoa chegue com uma formação sólida, mas muitas vezes, descoberto o talento, a formação começa a se fazer depois da escolha. O importante é que se faça. Esse é o histórico de muitos grandes atores", afirmou ao jornal "O Globo"

Trama sem nexo

Alvo de fake news, Brisa (Lucy Alves) foi linchada nas ruas logo no início da história por acreditarem que ela seria uma sequestradora de bebês. Porém, para uma protagonista que chegou a usar as redes sociais para vender vestidos e publicar seu trabalho como dançarina, houve uma lacuna catastrófica no roteiro da personagem que deveria representar uma mulher forte.

Sem celular e pertences, Brisa se viu sem comunicação e viveu como desaparecida numa situação que teria uma solução bastante simples na era da internet. Com a desculpa do medo de ser confundida com a sequestradora da deepfake, ela nem chegou a tentar entrar em contato com Ari (Chay Suede) pelo perfil de outra pessoa. Quando estava na casa de Marineide (Flávia Reis), por exemplo, ela poderia ter pedido ajuda pelo Instagram de alguém da família.

Em outro momento, a protagonista mandou inocentemente uma mensagem para Oto (Rômulo Estrela), sem considerar a opção privada, e foi "pega no flagra" por outra personagem. Devaneios demais para alguém que se mostrava antenada nas redes sociais em meio a furos que foram emendando uma história contraditória e sem carisma.

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Insistência na mocinha inocente de outra região

Seguindo a linha da contradição de Brisa, não faz sentido insistir na inocência de uma boa moça do interior do Maranhão se ela já estava inserida no universo da internet desde o início. Não é alguém totalmente fora do contexto urbano.

É inevitável o choque de cultura com a capital carioca, mas o vício de Gloria no triângulo amoroso com a personagem fora do eixo Rio-SP não caiu bem na novela de 2022. Não por ser de outra região, o que é louvável por explorar os diferentes horizontes do Brasil. Mas uma personalidade sonsa, que não cativa a audiência e nem explora o talento da brilhante Lucy Alves não banca uma verdadeira protagonista.

Atores fortes com tramas mornas

Com nomes como Rodrigo Lombardi, Giovanna Antonelli e Humberto Martins no elenco, "Travessia" prometeu mais do que cumpriu com o elenco, já que a consagração dos profissionais não deu conta de segurar a trama.

Um exemplo dos problemas no enredo ocorreu logo no início, quando Moretti (Rodrigo Lombardi) se atirou da janela de um hotel e sobreviveu. O detalhe é que até tiros da arma de Guerra (Humberto Martins) rolaram antes da queda. A história já começou alvo de memes no que era para ser um grande drama.

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Outro ponto da trama que mostra a fraqueza do roteiro é a montagem feita por Rudá, o criador das fake news do folhetim. Além de editar a foto que quase provocou a morte de Brisa, ele manipulou um vídeo, com uma gravação em que o rosto encaixado de Rodrigo Lombardi nem mexe direito. Ainda assim, as imagens pouco convincentes se tornaram uma crise de imagem para o padrasto do adolescente.

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Além disso, os personagens "requentados" de "Salve Jorge" pareceram uma alternativa preguiçosa de apostar no que já fez sucesso um dia, já que a dupla Helô (Giovanna Antonelli) e Stenio (Alexandre Nero) é queridinha do público. A dinâmica entre os dois, que ainda inclui Creusa (Luci Pereira), de fato, empolga, mas não segura uma novela repleta de lacunas. Quem se sustenta de passado é museu.