Transtorno de despersonalização: o “ápice” do estresse profundo

Transtorno de Despersonalização é um distúrbio causado por estresse grave (Getty Images)

Saúde mental é tema importante e, por vezes, negligenciado. Entre alguns dos distúrbios que acometem muitas pessoas, mas nem sempre amplamente divulgado, está o Transtorno de Despersonalização.

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Desencadeado comumente por estresse grave, o transtorno leva a um quadro onde a pessoa se torna uma espécie de espectador da própria vida. "Nele ocorre um sentimento recorrente, ou até persistente, de um distanciamento do próprio corpo. É como se a pessoa fosse um observador externo, saísse do corpo e observasse o que está acontecendo de fora”, explica a psiquiatra Denise Gobo, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

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Conhecido também como “transtorno de desrealização”, segundo Gobo, o quadro é classificado como um tipo de transtorno dissociativo, em que a pessoa se sente desconectada do próprio corpo. Foi exatamente isso que sentiu a advogada Joana Andrade*, em um episódio súbito. “Estava em meio a uma multidão, caminhando como todos os dias. De repente, me vi fora do meu corpo, como se todas as pessoas estivessem muito longe e tudo desfocado. Não ouvia nada e nem ninguém, apenas um zumbido. Simplesmente não conseguia me mexer”, conta.

O mal súbito de Joana foi o ápice de um quadro de estresse que ela diz enfrentar há algum tempo devido a questões que acometem muitos jovens atualmente: a desmotivação com o trabalho. “Não sabia o que queria com a minha vida e minha carreira”, diz. Segundo a advogada, o estresse causado pela ansiedade do futuro incerto, inclusive, já refletia sintomas físicos como insônia, falta de concentração, sensação de vazio, momentos de taquicardia, dor no peito e tremedeira.

A desmotivação com o trabalho é um dos principais fatores agravantes (Getty Images)

OAB preparou cartilha para auxiliar advogados

Joana não é caso isolado: o Direito é uma das áreas mais afetadas por grandes cargas de pressão e trabalho, que resultam no número elevado de doenças ocupacionais resultadas de estresse extremo. Inclusive, numa uma tentativa de dar luz à saúde mental de juristas, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) liberou a 2ª edição da Cartilha da Saúde Mental da Advocacia, parte do Plano Nacional de Prevenção das Doenças Ocupacionais e de Saúde Mental da Advocacia.

O tratamento para a despersonalização é feito por meio de psicoterapia e, segundo Denise Gobo, há critérios padronizados para o diagnóstico. A médica ressalta que depende muito se o transtorno se apresentou sozinho, ou associado a outro quadro como burnout, ansiedade, ou mesmo depressão - sendo assim, é preciso endereçar também a causa que resultou no quadro de despersonalização.

Os episódios podem ter duração mais breve e acontecer apenas uma única vez – como o que ocorreu com a advogada. Mas podem durar por horas, ou, ainda, se estender por anos. “Ter procurado um especialista e, logo, ter quebrado esse paradigma de ter que tomar por um tempo remédios controlados foi essencial para o meu próximo passo, de estar aberta a novas possibilidades.”, encerra Joana.

*O nome foi trocado para preservar a identidade da fonte, que preferiu não ser identificada.