'Transo' discute chupadas, vibradores e os tabus do sexo de pessoas com deficiência

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Entre os desafios enfrentados por grupos sociais que buscam inclusão no Brasil, romper a noção segundo a qual pessoas com deficiência não têm vida sexual nem são afeitas ao sexo é uma das prioridades. É encarando esse tabu que o documentário independente "Transo", em fase final de produção, pretende mexer com o espectador.

Além de mostrar pessoas com diferenças físicas, sensoriais ou intelectuais falando de vibradores, chupadas, pegadas e posições sexuais heterodoxas, o cineasta Lucca Messer expõe em rodas de conversa com seus personagens os desafios impostos por suas interseccionalidades -quando mais de uma condição de vulnerabilidade social se apresenta ao indivíduo.

Dessa forma, das 15 pessoas que entregam suas histórias e experiências ao filme, todas têm mais de uma identidade social discriminada, estando a deficiência sempre presente. Assim, Messer ouviu pessoas que vivem em periferias, LGBTQIA+, com mais de 50 anos, de religiões e origens regionais variadas, mulheres negras e indígenas -os depoimentos destes ainda estão em fase de produção.

"A premissa do filme sempre foi retratar pessoas com deficiência de todo o Brasil, com as mais diferentes caras, que gostariam de falar sobre sexo. A ideia também foi dar oportunidade de fala àquelas que são menos incluídas na sociedade", diz Messer.

"Foi desafiador entrar na casa de algumas mulheres, como homem branco, heterossexual, com os meus preconceitos, e ir perguntando quantas vezes elas se masturbavam. Mas, aos poucos, fui criando uma forma de tratar das questões sem tabu e sem barreiras. Existe desejo nas pessoas com deficiência e precisamos enfrentar nosso capacitismo [preconceito] em relação a isso."

A atriz Mona Rikumbi, de 50 anos, foi a primeira a ser entrevistada. Ela é entusiasta da busca por mudança de mentalidade sobre a sexualidade da pessoa com deficiência --o que, em suas palavras, teria implicações em campos distintos. Segundo ela, a desinformação da sociedade sobre o tema pode, além de abalar a autoestima, provocar o abandono do próprio corpo e até mesmo a exposição à violência doméstica.

"Não sou nenhuma tarada, mas esse ponto é extremamente importante na identidade e na afirmação da pessoa com deficiência. Quero ser vista como mulher. Cansei de ser vista de uma forma assexuada, infantilizada e distante de uma vida sexual e amorosa como qualquer outra pessoa", diz.

Ela avalia que um dos pontos fortes de "Transo" é expor as sobreposições de características da diversidade e seus impactos. "Subo na minha cadeira [de rodas] com todas as interseccionalidades que represento. Preta, periférica, pobre, mãe solo, macumbeira. Ando com tudo isso junto de mim e enfrento a dureza de todos esses aspectos, inclusive a de ser vista com a hipocrisia de ser assexuada", declara.

Messer, o diretor, complementa dizendo que "a gente nem imagina questões que envolvam a sexualidade de uma pessoa com deficiência, como, por exemplo, se elas têm respeitado seu espaço de intimidade dentro da própria casa, se têm condições de ir a um encontro, se vão conseguir se tocar de maneira independente".

"Transo" também vai se tornar, antes do lançamento nas telas, um espaço de discussão permanente a respeito de sexualidade numa plataforma online.

"O documentário é o cartão de visitas, mas a plataforma no Instagram será algo maior. Vamos pôr a pessoa com deficiência como protagonista, mas o tema do sexo será para todo mundo, para quem quer aprender, para quem quer se expressar, para quem quer se descobrir."

O filme deve ficar pronto e estrear só no ano que vem, mas trechos das filmagens devem começar a circular nas redes sociais em breve.

"Como experiência pessoal, trago do documentário um ensinamento para a vida. Muitos acham que a pessoa com deficiência vai aprender sobre sexo com pessoas sem deficiência, e não o contrário. Mas essa via não é de mão única. O conteúdo, a sabedoria, as maneiras de fazer vêm dos dois lados. Transar na cadeira de rodas, por exemplo, não é algo limitador, pode ser algo interessante, inovador", diz Messer.

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